A+ A A-

Curso gratuito na Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo: "Edgar Allan Poe e Alfred Hitchcock: A filosofia da composição em diálogo com o princípio de montagem cinematográfica"

Curso gratuito na Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo: "Edgar Allan Poe e Alfred Hitchcock: A filosofia da composição em diálogo com o princípio de montagem cinematográfica". Com o poeta e cineasta Donny Correia e o escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler. Quando: dias 16/01; 13/02; 20/02; 05/03/16 (sábados). Onde: Casa Guilherme de Almeida (CGA) - Rua Macapá, 187 - Perdizes, São Paulo. Informações e inscrições pelo pelo telefone: (11) 3673-1883. Link para o curso no site da CGA: http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/programacao/ver-programacao.php?idprogramacao=313&iddata=2065. (Haverá a apresentação dos filmes de Hitchcock que serão analisados durante o curso.)

 

Meus amigos,

Gostaria de convidar a todos para o curso que Donny Correia e eu ministraremos na Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo:

"Edgar Allan Poe e Alfred Hitchcock: A filosofia da composição em diálogo com o princípio de montagem cinematográfica".

Quando: dias 16/01; 13/02; 20/02; 05/03/16 (sábados).

Onde: Casa Guilherme de Almeida (CGA) - Rua Macapá, 187 - Perdizes, São Paulo.

Informações e inscrições pelo pelo telefone: (11) 3673-1883. Link para o curso no site da CGA: http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/programacao/ver-programacao.php?idprogramacao=313&iddata=2065. (Haverá a apresentação dos filmes de Hitchcock que serão analisados durante o curso.) Eis a sinopse do curso e os temas das aulas:

O modo pelo qual Edgar Allan Poe (1809-1849) analisou seu poema "O Corvo" no ensaio "A Filosofia da Composição" (1845) apresenta-nos importantes pressupostos para entendermos a forma de imbricação poética dos elementos que compõem as tramas de suas estórias. Dado que as narrativas são concebidas do fim para o princípio, todos os elementos anteriores ao desfecho devem prenunciar e corroborar o término da estória como um desvelar paulatino. Nesse sentido, o leitor passa a ser um aspirante a detetive para deduzir a autoria d'"Os crimes da Rua Morgue" (1841). Os filmes "A tortura do silêncio" (1953), "Psicose" (1960) e "Festim diabólico" (1948), de Alfred Hitchcock (1899-1980), também fazem do espectador um investigador potencial, de modo a se estabelecer um diálogo rente – e contraditório – entre o princípio de montagem cinematográfica e a composição poética dos contos de Poe. Analisaremos o modo pelo qual Poe e Hitchcock enredam leitor e espectador em meio a tramas que se articulam com vistas a um desfecho previamente determinado e potencialmente dedutível (Poe) ou a partir de dilacerantes dilemas iniciais que ensejam o transcurso narrativo subseqüente (Hitchcock).

Aula 1, 16/01/16: "A poética lógico-dedutiva de Poe e suas personagens-detetives": Análise do ensaio "A Filosofia da Composição" e do conto "Os crimes da Rua Morgue". No ensaio sobre a filosofia da composição de seu poema "O Corvo", Edgar Allan Poe expõe as bases lógico-matemáticas com as quais construiu o poema em função de uma cadeia de deduções causais. Tendo o término do poema como ponto inicial da criação, todos os elementos anteriores, construídos a posteriori, deveriam prenunciar o fim que já se tinha em mente. Poe argumenta que tal método de construção vincula de maneira estreita e casual os elementos poéticos, de modo que não haja qualquer prolixidade na economia estética do poema. Cada parte do poema acaba por constituir um prenúncio da totalidade já contida em seu fragmento, uma vez que a parte aponta para o desenlace final que completa o todo. Para desvelarmos "Os crimes da Rua Morgue", adaptaremos o transcurso analítico de Poe em relação a seu poema para que o conto em questão seja lido segundo o mesmo prisma lógico-dedutivo. Logo no início da estória, o narrador, cujo nome não nos é revelado, faz uma exposição das características analíticas requeridas para o exímio desempenho em jogos como xadrez, damas e whist. Ficamos sabendo que tal capacidade analítica pode não apenas antecipar o desempenho do adversário, havendo, por conseqüência, a vitória almejada, mas também tende a projetar um poder imaginativo de reconstituição narrativa a variados eventos com os quais não se teve contato algum de maneira imediata. É assim que o narrador e seu amigo inventivo, C. Auguste Dupin, a partir dos depoimentos das testemunhas colhidos pelos investigadores da polícia parisiense, conseguirão deduzir a autoria do duplo homicídio da Rua Morgue levando em consideração as congruências e contradições presentes no desenrolar dos crimes. Toda a trajetória narrativa, nesse sentido, deriva-se das premissas iniciais que expõem o método de dedução analítica que, por sua vez, norteará as personagens-detetives rumo à autoria dos crimes.

Aula 2, 13/02/16: "A trama-detetive de Hitchcock em função de um sacro dilema": Discussão entre o filme "A tortura do silêncio" e os pressupostos analíticos da poética de Poe. Michael Logan é padre em uma paróquia de Quebec. Alfred Hitchcock inicia o filme com o caminho do calvário: Otto Keller, empregado do padre Logan na igreja, assassina o advogado Villette para, supostamente, roubar o dinheiro do rábula e “livrar minha mulher do fardo inesgotável de trabalho que a acomete”. Assim o padre Logan ouve o assassino em meio à santa confissão. Eis que descobrimos o lobo em pele de cordeiro: Keller não abandonou o local do crime sem antes se camuflar com a batina de Logan, que, perante Deus, torna-se um confidente, e, perante os homens, torna-se um cúmplice. Como Cristo no Monte das Oliveiras, o padre Logan encontra-se em face de um sacro dilema: se, por um lado, mantiver o segredo, ferirá as leis mundanas e não dará a César o que é de César; por outro lado, se for à polícia e revelar a autoria do crime, Logan romperá o silêncio do confessionário e não honrará a Deus com o que é de Deus. A partir do sacro dilema do padre Logan, Hitchcock montará a trama de modo a projetar sobre o seguidor de Cristo toda e qualquer suspeita com relação ao homicídio. Munidos dos pressupostos lógico-dedutivos da poética de Poe, desvelaremos o modo pelo qual a economia narrativa do filme tende a ser movimentada pelo silêncio do padre Logan em relação ao autor do crime. Na medida em que o clérigo opta por proteger o pecador – “que atire a primeira pedra aquele que já não houver pecado” –, o fato de o assassino ter fugido do local do crime vestido com a batina de Logan é apenas o primeiro de uma série de episódios narrativos que fará com que a movimentação da trama seja análoga à reconstituição (sempre dúbia) do crime por parte das autoridades policiais. Se Poe determina previamente o fim da estória para deduzir a posteriori o desenrolar da trama narrativa, Hitchcock entrelaça toda a seqüência posterior de seu filme ao iniciar a estória com um dilema que determinará o impasse da narrativa.

Aula 3, 20/02/16: "Duelo poético entre Poe e Hitchcock: Dúvida e personagens cindidas como elementos motrizes da narrativa": Discussão entre o filme "Psicose" e os pressupostos fantásticos da poética de Poe. "Psicose" apresenta o entrelace trágico das trajetórias de Marion Crane e Norman Bates. Marion é uma bela loira – atributo recorrente às protagonistas de Hitchcock – que já está cansada de esperar pela indecisão de Sam, seu amante facultativo que não a assume em um relacionamento sério pelo fato de não ter onde cair vivo. (Nada que a ironia de Hitchcock não possa utilizar para dar motricidade à narrativa.) Eis que um ricaço sequioso aparece no escritório onde Marion trabalha para fazer uma transação em dinheiro bem vivo. Aqui está o mote para que a bela não deposite no banco o dinheiro com o qual pernoitará durante o fim de semana. “Será que Sam se casará comigo a reboque de tal espólio?” A fuga tensa de Marion chega ao hotel de Norman Bates. Hotel vigiado constantemente pela presença espectral da Sra. Bates, a mãe de Norman. Marion e Norman sentem uma estranha reciprocidade desde o instante em que passam a conversar. A partir de então, entram em cena os conflitos das personalidades cindidas que elevarão o suspense e a dúvida à categoria de motores da narrativa: Marion transgrediu o não roubarás, mas hesita em utilizar o butim para dar seqüência aos seus planos matrimoniais. Norman, por sua vez, é algoz e vítima de uma relação estilhaçada com a Sra. Bates. Desejar a bela Marion beira a traição – e o incesto. (Nada escapa à onisciência da mãe que Norman introjetou como norma psíquica.) Por outro lado, renegar o próprio desejo em face dos encantos de Marion implica prolongar ainda uma vez a dor da castração. “Que fazer?” – Norman pergunta a Bates, Bates pergunta a Norman. A cisão da personalidade de Norman mimetiza a dubiedade da poética fantástica de Poe, em meio à qual a oscilação entre os polos da razão (Norman) e da irracionalidade (Bates) constitui um entrechoque que movimenta a narrativa pela constante dúvida entre qual caminho seria o mais factível para a interpretação da estória. Nossa análise procurará desvelar, então, o significado da morte de Marion (1) para o dilema psíquico do assassino Norman e (2) para a seqüência narrativa do filme, ao longo da qual a dúvida entre psicose e realidade dá o tom para que o espectador seja mais um detetive a procurar pelos indícios e evidências que selem o destino de Bates e de sua mãe espectral.

Aula 4, 05/03/16: "Crime e Castigo: Análise do filme "Festim Diabólico" a partir da síntese das categorias poéticas estudadas nos módulos anteriores. Diz-se que "Festim Diabólico" é o único filme de Alfred Hitchcock baseado em fatos reais. Brandon Shaw e Philip Morgan são dois brilhantes estudantes adeptos da cisão que divide a humanidade em dois grupos estanques que só se comunicam em face das relações de submissão envolvendo senhores e escravos. De um lado estão os extraordinários, os legisladores, para quem as leis configuram entraves momentâneos a serem superados quando a contingência se fizer necessária. No extremo oposto está o rebanho da grande maioria, que, segundo os niilistas Shaw e Morgan, vive para corroborar o que os legisladores legitimam e, nos momentos decisivos, para se oferecer em holocausto em nome dos líderes. Mero detalhe o fato de Shaw e Morgan, objetivamente, não terem poder algum além da obtenção de boas notas. Mas eis que Shaw, o ente mais niilista da dupla, decide verificar pragmaticamente se sua sanha de superioridade de fato pode entrar em choque com a realidade regida pelo não matarás. “Que tal matarmos David Kentley, Philip? Mais: que tal matarmos David e acondicionarmos seu corpo inerte dentro deste baú? Ainda mais: que tal montarmos uma bela mesa de jantar justamente sobre o baú dentro do qual jaz o corpo inerte do bom e velho David? Será o momento ideal para convidarmos nossos colegas de universidade para um belo banquete! Será o momento ideal para testarmos nossa teoria do super-homem, para quem a moralidade não passa de um mero resquício anacrônico”. O festim diabólico será a ocasião ideal para que Shaw e Morgan narrem aos convivas uma estória hipotética de um assassinato ocorrido segundo as mesmas condições que se apresentam naquele preciso momento. “O que você faria em uma situação como essa?” é a pergunta a que os anfitriões devem responder. (Subjaz ao ímpeto niilista de provar a teoria dos homens extraordinários um movimento narrativo concomitante que busca desenterrar a culpa de dentro do baú. Como se o niilismo que espreita a norma apenas com escárnio fosse uma das faces de uma moeda cuja face contígua expressasse a justiça e a punibilidade.) Ainda uma vez, Hitchcock erige uma trama que envolve personagens e espectadores em um movimento de descobrimento da seqüência narrativa para que o desenlace final chegue a bom termo. (Para a tranqüilidade dos maquiavélicos investidores de Hollywood, cujo público massificado jamais poderia suspeitar que o subsolo da sociedade civil é alicerçado pelos mesmos pressupostos que levam Shaw e Morgan à prática niilista.)

Contamos com a presença de todos!

Um abraço,

Donny Correia e Flávio Ricardo Vassoler

Sobre os professores:

Donny Correia, poeta e cineasta, é mestre e doutorando em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Letras – tradutor e intérprete pelo Centro Universitário Ibero-Americano (Unibero). Realizou os curtas experimentais "Anatomy of decay", "Braineraser", "Totem" (selecionado para a 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e Prêmio Canal Brasil) e "In carcere et vinculis". Publicou os livros de poesia "O eco do espelho", "Balletmanco", "Corpocárcere" e "Zero nas veias". É coordenador de programação da Casa Guilherme de Almeida.

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor universitário, é doutor em Letras pela FFLCH/USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University, em Chicago. É autor de "Tiro de Misericórdia" (nVersos, 2014) e "O Evangelho segundo Talião" (nVersos, 2013), e organizador de "Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade" (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus textos literários, os programas do Espaço Heráclito e as fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

Avalie este item
(1 Voto)
Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

voltar ao topo