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Enforque-se na corda da liberdade!

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Em um domingo mesmismático como deve ser, coroado com portentoso nhoque e vinho acessível; impregnado de um certo torpor pré semana útil e caracterizável por um céu cor de chumbo leve como plumas tristes no igualmente torporizável céu azul da minha timeline, eclodiu em vermelho uma caixa de diálogo — sinal pós-moderno de contato imediato conhecido como inbox. Nele, o conteúdo destoou da placidez dominical, me socando o estomago como uma Brastemp pondo em centrífuga a massa e o álcool, outrora de molho.

Era Flávio. Veio, como Hermes, com a boa nova; como Hermes, com asas nos pés agilmente despejando o convite de bytes que me pesou como o céu de chumbo de um domingo nublado. As palavras em sintaxe me permitiam adentrar com o espírito por este grandioso portal subto e heráclitiano, o subterraneo: Portal Heráclito.

Para Hermes, digo, Flávio, pareceu simples a tarefa de deliberar a oportunidade de dividir minhas partes - estilhaços de vidro mal temperado e por isso sangrativos - e existir de dentro pra fora. Da minha parte, em meio a operação de centrifuga no meu estômago, meu cérebro ativou o mecanismo de luta ou fuga. As pupilas dilataram e sobre meus ombros se materializaram um anjo e um demônio. Sobre o ombro direito, o anjo ariano, bom moço, comedido e humilde, me dizia que tudo bem recusar o convite por medo do abismo. Sobre o ombro esquerdo, o demônio vermelho, ambicioso, audaz, louco e fora de controle, ria por que sabia que perante o abismo me hipnotizo; seduzido me deixo tragar e com medo me precipito.

Abismo. É assim que chamo, mas muito melhor classificou Flávio quando lhe perguntei como deveria contribuir. Sem pensar, Flávio evocou do reino dos titãs as palavras imortalizadas de Abu, Abujamra, o Pai: “Enforque-se na corda da liberdade, meu velho”.

E caí, assim, no abismo da liberdade; do espaço oculto das possibilidades infinitas senão pelos limites da minha própria existência insólita. Luta e fuga! Luta e Fuga. Luta.

Todo esse drama sobre aceitar um convite para contribuir com este espaço tempo crítico e subterrâneo se justifica na biografia recolhida deste que agora estapeia teclas em busca de vasão. Escrever é se expor, é estar nu e, definitivamente, a nudez me aterroriza com a mesma força com que me seduz. E disso tudo puxo a ponta deste fio emaranhado de linhas palavras: de onde vem a auto permissão para estar nu? Conclamo aqui Béla Tarr, o húngaro, mestre das lentes, pai criador da imagem que ilustra estes escritos. Nesta sua obra — (Werckmeister Harmóniák - Hungria, 2000) baseado no livro A melancolia da resistência de László Krasznahorkai — uma onda de fúria e violência totalitária invade um vilarejo no interior da Hungria, até então adormecido, e varre de agressões, em um plano sequencia magistral, toda e qualquer humanidade a encontrar pela frente até que, em seu desvario, após invadir um hospital, a onda de assassinos se depara com a imagem deste corpo idoso, nu e frágil.

É a nudez o ápice da fragilidade humana. É ela quem dissipa a energia mecânica da violência desumana, demoníaca e bestial, pois reconhece, sem ter como negar, a sua própria insignificância.

Se hoje estas palavras de bytes estão aqui, é por que existe uma onda humana que reclama do mundo dignidade e, acima de tudo, liberdade para estar nu e existir a partir da potência da nossa fragilidade.

Enforquemos as tiranias com as cordas da Liberdade!

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Rafael Sasso

Auto retratado como um cão perdido que não sabe atravessar avenidas movimentadas, é graduado em Ciências Sociais pela FESP-SP. Manipula posologias audiovisuais pelo Coletivo Pílula Vermelha e busca nas palavras e imagens pistas para desvendar um absurdo chamado “a vida existe”. Ainda sobre sua necessidade investigativa, se dedica a uma formação em psicanálise para a interpretação das angústias, peça chave de qualquer mistério. Acredita na revolução popular como única luta digna e possível para a libertação da potência humana. Fisgado pelo materialismo crítico de Marx e cúmplice da dialética irônica de Groucho Marx: é marxista.

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