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O Abandono da Educação - A tática de aborto sistemático de gerações vanguardistas.

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Em Dezembro de 2015, Samuel Sasso e eu, pelo coletivo audiovisual Pílula Vermelha, contribuímos com o levante dos alunos secundaristas da rede estadual de ensino de São Paulo, documentando de forma rudimentar e objetivamente a ocupação dos alunos de SUA Escola Estadual Presidente

Tancredo de Almeida Neves situado no Jardim dos Eucaliptos/Novo Horizonte, região do Jd. Varginha, extremo Sul da capital paulista. Assistindo pela TV e acompanhando pela internet aquela aula de rebeldia que os jovens davam à paulistada eleitora e apática deste estado que prefiro não adjetivar no momento, concordamos imediatamente que queríamos e deveríamos contribuir com os alunos, disponibilizando o espaço tempo da lente de uma vídeo-câmera para disseminar o que havia dentro deles, suas ânsias e motivos pela qual ocupavam seu bem público.

Neste mesmo ano de 2015, mas meses antes das ocupações, entre maio e julho, tive a oportunidade (necessidade) de atuar como professor eventual em uma escola estadual, considerada como a melhor da região. Uma classificação extremamente frágil. A experiência como professor eventual foi efêmera, mas aprendi uma lição que nunca esquecerei e que me conduz quando o assunto é a educação pública de São Paulo e, sem medo de errar, da terra brasílis de vera cruz. Aprendi que a educação pública, ao contrário do que se diz, não está abandonada. Aprendi, definitivamente, que o abandono da escola pública é um política de Estado.

Concretos e grades. Correntes. Cheiro de ferrugem e comida enjoada. Pão com salsicha dia sim, dia não. Com molho. Sem batata palha. Inspetores protopoliciais. Diretores protopoliciais. Professores semi-educadores. Professores protopoliciais. Na escola pública a única lição transmitida e que deve estar na ponta da língua do espírito de cada jovem da periferia é de caráter pra-lá de liberal: deve-se aprender, o quanto antes melhor, que para os negros e pobres, para os filhos da classe trabalhadora o que vale é o Estado Mínimo. O Estado para estes alunos é menos que mínimo, é nada, minusculo e é isso o que toda a escola pública produz: a certeza subjetiva de que eles, os alunos, os negros e pobres, formadores da massa desta nação, merecem e tem como direito o mínimo.

Cada professor tem uma chave que tranca a sala de aula cujas portas se assemelham a portas de solitárias. E não deixam de ser. Solitárias coletivas e escuras, e apesar da luz do sol, a luz do conhecimento ali não entra. Os alunos estão reativos, distraídos. Aprendem muito mais a se relacionar em suas hierarquias fechadas; a construir relações segregadas, do que se preparar para a vida lá fora. O que é totalmente coerente, já que “a vida lá fora” se traduz em espaços tão previamente designados quanto o próprio ambiente da escola, que se torna uma representação da própria vida, da própria liberdade cerceada pelo mínimo e representada pela sucata com grades que são estes espaços. O tratamento humano é sucateado também, o mínimo vêm de todos os lados: do olhar censurador dos professores, inspetores e diretores, do tilintar das chaves, correntes e o ranger dos protões e grades.

Mais forte do que as palavras escritas nos livros didáticos que se empilham aos montes nos corredores (o mercado editorial de um país que não lê e cuja política educacional é o abandono, necessita do Estado para sobreviver), mais forte do que as palavras proferidas pelas bocas mestras, são as mensagens subliminares, subjetivas, do espaço tempo escolar.

As paredes descascadas ecoam em uma frequência penetrante para o inconsciente: “você não merece mais do que isso”. O buraco na parede por onde recebem a ração, gritam: “é isso, a vida é isso”. A frieza do concreto e aço onipresentes sussurram sem trégua: “este é o seu universo”. O descaso com o futuro destes jovens alerta: “não espere muito mais do que isso”. As normas, os limites, as imposições ditam: “não há futuro”.

O abandono da educação pública é uma política de Estado. É uma forma eficaz do Estado controlar o acesso destes jovens, lembremos, negros e pobres, às universidades e, de forma mais grave, à vida pública. Estes jovens se desenvolvem em um espaço dito como público e este espaço é frio, impessoal e respira descaso e desafeto. A coisa pública não os pertence, mas os domina, os cercam de forma onipresente, restritiva e punitivamente. Como a velha história dos elefantes que se acorrentados às arvores quando jovens basta qualquer barbante quando adultos para se manterem cativos. Este é o método eficaz do Estado de impedir que os verdadeiros donos do poder o conquiste de fato. A escola, mais do que alienar, mata a chance, a perspectiva, das novas gerações serem vanguarda. Porém, nem tudo está perdido nas celas.

Existem frestas:

https://www.youtube.com/watch?v=bYDg6A2F0pc

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Rafael Sasso

Auto retratado como um cão perdido que não sabe atravessar avenidas movimentadas, é graduado em Ciências Sociais pela FESP-SP. Manipula posologias audiovisuais pelo Coletivo Pílula Vermelha e busca nas palavras e imagens pistas para desvendar um absurdo chamado “a vida existe”. Ainda sobre sua necessidade investigativa, se dedica a uma formação em psicanálise para a interpretação das angústias, peça chave de qualquer mistério. Acredita na revolução popular como única luta digna e possível para a libertação da potência humana. Fisgado pelo materialismo crítico de Marx e cúmplice da dialética irônica de Groucho Marx: é marxista.

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