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A insustentável dureza de ser (na cidade) e a fantástica fuga para o campo.

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Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais

(...)

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa ficar no tamanho da paz

E tenha somente a certeza

Dos limites do corpo e nada mais

Casa no campo (Zé Rodrix e Tavito, na voz de Elis Regina)

Pisando as calçadas suadas de frio, cabisbaixo, como que procurando explicação ou dinheiro, encontro cobrindo o chão uma manta mística de um azul aveludado dispondo sobre si toda sorte de colares, pulseiras, maricas, cachimbos, roupas lisérgicas, brincos de pena, apanhadores de sonhos entre outros itens artesanais ou chineses. O olhar perdido no chão busca as alturas, os olhos buscam o canto superior direito como que tentando trazer à consciência um pensamento iminente que finalmente desponta: “Como cresceu o número de miçangueiros na cidade”.

Essa seríssima reflexão me acompanha no resto do caminho até qualquer lugar imaginário a que me dirijo. De fato, é perceptível a primavera hippie (ou meta-hippie), dos caras e das minas da cultura alternativa que, citando Milena, querem viver de “vender sua arte na praia”. E na cidade também. Com as mãos metidas nos bolsos e o queixo colado ao peito, sou agraciado com pensamentos sobre a busca pela mística e como a vida na cidade leva a muitos de nós fantasiarmos com seu espaço oposto: o campo.

Não sei quantas vezes ouvi ou fantasiei o delírio de largar tudo e ir pro mato, viver uma vida alternativa. Mas é uma alternativa? Inúmeros corajosos (desesperados ou desolados, desenganados com a urbes) logram êxito e se lançam no mundão ao melhor estilo Into the wild, e isso funciona como o aditivo da fantasia de todos os que deliram com a fuga da cidade mas que morrem na praia do pensamento, deixando escapar o olhar perdido da fantasia quando a porta do elevador abre; o celular toca; o micro-ondas apita.

A vida na cidade demanda de nós a construção de fantasias que nos transportam para formas de vida antagônicas a si: o misticismo e a vida rural. A partir do momento em que a cidade não consegue mais sustentar a fantasia germinal do sujeito, e este percebe que foi o tempo todo escorado por uma ilusão e que o sonho da carreira, do sucesso, começa a ser soterrado pela realidade da eterna reconstrução do trabalho flagelado e sem sentido, o sujeito trai a cidade. Trai deliberadamente. Trai com seu oposto, sua antítese, sua negação. Trai com a irmã. O sujeito passa a querer ser camponês.

É interessante pensar sobre isso. Essa necessidade de fantasiar com a fuga da máquina devoradora de vidas. Ao invés da rua, a estradinha de terra; ao invés do carro, a carroça (ou o trator, por que não?). Ao invés do chefe, o sujeito; ao invés do dinheiro, o alimento.

Como estamos cansados dessa vida! A cidade cansa. Seu tempo nos atropela. Suas vontades não são nossas vontades. Tudo o que queremos é um espaço em que podemos nos encontrar com o tempo. O sonho de uma sociedade em harmonia. De uma vida em equilíbrio. Orgânica, como as hortinhas igualmente crescentes na cidade, nos quintais, nos terraços, nas varandas e lavanderias; verticais em garrafas pet penduradas nas paredes ou dispostas sobre caixotes de feira e pallets.

Queremos verde, queremos madeira, queremos organicidade, queremos vida com sentido, ontológica. Queremos liberdade e existência. E o mais bestial é que toda essa nossa sede por uma vida com sentido se perde na fantasia e o que nos resta é a construção do seu inverso: a vida coisificada no concreto.

Para nós, desolados da cidade, aspirantes do pó e da fuligem, lembro: a vida no campo existe, não é apenas delírio. E ela se caracteriza, hoje, não por uma fuga, mas por uma luta. Enquanto sonhamos com o campo para amenizar as angustias da vida alienada e sem sentido da cidade, existe uma massa de camponeses cujas mãos e pés são vermelhos e calejados pois são a própria terra, assim como somos o próprio cinza. Enquanto percorremos as vilas gourmet ou mega-stores em busca de alimento orgânico, vasinhos coloridos, macacão de jardineiro para nos distrairmos com nossa horta aos finais de semana, há uma massa de trabalhadores rurais que se mobilizam para construir a justiça social no campo e consequentemente a melhoria da qualidade de vida na cidade. Não precisamos fugir para o campo, muito menos fantasiar com ele como um local romântico e bucólico, mas apoiar a luta dos trabalhadores rurais sem terra que derramam sangue em luta por justiça. Quilombolas, Indígenas, Trabalhadores Rurais, Ribeirinhos... existem! E ao invés de fantasiar com a vida na cidade, revestem suas vidas com o sentido da luta por sua terra. E nós?

Se queremos uma vida com sentido, precisamos aceitar as lutas legítimas que buscam a liberdade e a dignidade humana, pois o encontro entre a cidade e o campo se dá, agora, nas angústias. Se complementam como produtos de um mesmo sistema destrutivo e voraz. Mais do que fugir com a mente para o campo romântico e bucólico, meta parnasiano, que já não pode existir dessa forma abstrata, é preciso o compreender e visitá-lo com nosso corações para aceitar, aqui da fuligem, que o campo, assim como a metrópole, é lugar de luta e não de fuga. Campo é vida, não é luxo.

https://www.youtube.com/watch?v=kgoleqMXB5A

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Rafael Sasso

Auto retratado como um cão perdido que não sabe atravessar avenidas movimentadas, é graduado em Ciências Sociais pela FESP-SP. Manipula posologias audiovisuais pelo Coletivo Pílula Vermelha e busca nas palavras e imagens pistas para desvendar um absurdo chamado “a vida existe”. Ainda sobre sua necessidade investigativa, se dedica a uma formação em psicanálise para a interpretação das angústias, peça chave de qualquer mistério. Acredita na revolução popular como única luta digna e possível para a libertação da potência humana. Fisgado pelo materialismo crítico de Marx e cúmplice da dialética irônica de Groucho Marx: é marxista.

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