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Presente Grego - A apropriação do espírito olímpico em um Cavalo de Troia

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As Olimpíadas surgiram como uma forma de celebração dirigida ao grande Zeus. Hoje, tal qual no nosso mais elevado posto do executivo, Zeus sofreu um golpe e quem senta ao trono e recebe as honras olímpicas é Mamom.

Os jogos olímpicos se tornaram um Titã colossal. Uma criatura bizarra e vil fruto da magia sombria de seitas privadas. Se encontram em reuniões veladas, conversam a portas trancadas onde a ponta da pirâmide, ao melhor estilo illuminati, toma as decisões. Servem a Mamom. Servem ao poder e aos deuses sincréticos da destruição. E isso não é força de expressão, embora seja.

Se trata, na prática, de um grande esquema parasitário implantado como o mais famoso presente grego: O Cavalo de Troia.

De dentro deste contêiner perverso fantasiado de dádiva, pululam toda a sorte de salteadores e oportunistas: construtores, políticos, emissoras de TV, grandes marcas multinacionais dos mais diversos setores (dos alimentos às marcas de esporte) especuladores imobiliários, imprensa, empresas bélicas e de segurança, forças armadas, legisladores e juízes que encontraram no Rio de Janeiro um templo sagrado onde o monstro parasita é evocado com mais força para exercer todo o seu explendor de fúria e potência. O Rio, a cidade maravilhosa, com toda a sua viçosidade, suas cores, sua energia, seu sumo, é o organismo perfeito a ter consumido a vida. Seu sangue vermelho de gente preta e periférica é como gordura espargida sobre as chamas de uma oferenda à pilhagem.

A cada 4 anos se inicia um ciclo em que, de forma minuciosamente acordada e planejada pela ponta da pirâmide, uma cidade é escolhida para ser parasitada. E isso custa dinheiro. Milhões foram gastos pelo estado fluminense e governo federal para ser eleito cidade sede. Uma vez escolhido, os templários vão a loucura e sobre suas pranchetas calculam como e quanto expropriarão o bem público para fertilizarem seus próprios jardins secretos.

As Olimpíadas só são um negócio tão eficaz à exploração dos bens públicos por causa da fenda legal que surge quando o pacto é assinado entre o Estado; o Comitê Olímpico; os patrocinadores e investidores, parindo um verdadeiro estado de exceção. Os jogos olímpicos tem força simbólica suficiente para justificar frente à população passiva todas as exceções. As Olimpíadas justificam tudo. Onde não se construiria nada por questões ambientais, se torna possível construir prédios e instalações pelo bem do evento. Onde a constituição garantia a liberdade de expressão, é sancionada uma lei antiterrorismo em nome da segurança dos Jogos Olímpicos. Onde não havia metro para os que trabalham e movem a cidade, passa a existir transporte público e obras superfaturadas. Onde havia favelas por falta de moradia, passa a ter desapropriação, repressão e especulação imobiliária.

O Titã olímpico é composto de carne, ossos e espírito. A carne é a pele acrílica e sintética construída por toda a sorte de marketing, fruto de investimento das grandes marcas patrocinadoras e das emissoras que apostam compulsivamente no direito à transmissão das imagens. Consequentemente blindam a população de todas as mazelas causadas pela parasitagem olímpica evitando que a imagem do evento de espírito sublime seja associada à realidade de suas ações: a exploração, o saque, a violência de seu modelo predatório. Os Jogos Olímpicos, hoje, bem como o cenário esportivo de uma forma geral, se move pela imagem. É a força das imagens o casamento entre os jogos e o público. A plasticidade, as cores, os replays e as imagens em câmera lenta, as medalhas brilhando, os hinos nacionais, os buquês de flores, os louros, as lágrimas. A tocha olímpica acesa na pira que queima desde o fim e que percorre as ruas cercadas por cães de guarda, câmeras e a população eufórica ou inconformada. É a imagem que faz tudo “valer a pena”.

A carne olímpica ainda serve para esconder problemas ósseos, estruturais, como as favelas do Rio. Em lugar dos tijolos fraturados; veias de esgoto expostas a céu aberto e lagos de merda, entram tapumes coloridos com a assinatura da identidade visual friamente calculada em escritórios de comunicação para maquiar a realidade. Tem pra todo mundo, todo mundo ganha, menos as menores células mais vitais.

Do lado de dentro, os ossos são compostos pela infraestrutura, outra área em que montantes titânicos de dinheiro circulam dos cofres públicos para empreiteiras que financiaram, e financiarão, campanhas; políticos que serão recompensados após seu trabalho de abrir concessões para obras super faturadas em locais de proteção ambiental, sem estudo de impacto ou sem fiscalização efetiva. As olimpíadas demandam, como regra, a criação de obras faraônicas, pois em seu cálculo predatório não é viável a sua realização como mega evento sem que movimente bilhões dos cofres públicos para o setor privado. Quando os jogos olímpicos chegam à cidade sede é preciso levantar a sustentação que carrega corpo tão gigante e mórbido, maquiado pela carne colorida que ostenta a tatuagem de um mascote.

Já o espírito é composto de material cínico. Enquanto tudo fala do espirito olímpico como simbolo da superação e potência humana, da harmonia entre os povos, da fraternidade, da responsabilidade social, seus atos são diretamente opostos. É predatório, corrupto, explorador e como uma praga de grilos enviada por deus, suga o viço da terra e parte para um novo alvo, uma nova vítima.

Templários, vos digo! Já não é secreta a tua seita. Às ruas saiu um corpo que já não pode ser hipnotizado pelos seus anéis e que reconhece os jogos olímpicos como um golpe, um embuste. Um modelo vicioso de exploração e corrupção, fantasiado e vendido como um espaço tempo virtuoso. Durante as olimpíadas, os recursos públicos brotam da terra. Não são recursos, pura e simplesmente, mas investimento criminoso. No fim do ciclo as máfias lucrarão e os verdadeiros donos e produtores dos recursos estarão, mais uma, vez lesados.

Não precisamos de olimpíadas! Não precisamos de mais exploração, mais golpes, mais embustes, mais corrupção. As olimpíadas poderiam ser uma boa desculpa (já que parece que “ter um bom motivo” para atender às necessidades da população é parte da burocracia seletiva do Estado) para conduzir o dinheiro público para seu local de origem, a população carente. Não existe interesse do comitê olímpico de ser verdadeiramente transformador para as cidades que sediam os jogos. Isso porque transformação social não traz lucros hediondos, não desvia dinheiro ou permite exploração dos bens públicos. Transformação social não é lucrativo quando o interesse privado é parasitário, e os jogos olímpicos se revelam, por isso, um monstro, um titã colossal da fome voraz do mercado de vampirizar a vida de uma cidade: os jogos olímpicos é uma fenda no espaço tempo democrático para assaltar os recursos sociais, ambientais, políticos e econômicos com direito a transmissão global das imagens.

Em tempo, vale dizer que somos loucos. Celebramos os mais rápidos, os mais fortes, os mais resistentes, os mais precisos, os que possuem os melhores recursos e patrocinadores, os que possuem os melhores equipamentos, os que possuem as melhores oportunidades: os jogos olímpicos são uma patologia social e nos mostra, cínica, fantástica e hipocritamente, que tanta superação nas pistas, na água e nas quadras apenas atesta a supremacia humana de ignorar os explorados. Eu sou um dos tantos chatos, estraga prazer, que falam que essa festa não é linda, não é colorida, não é fraternal, não é uma conquista e não é uma vitória, pois a conta não fecha. É uma festa cinza, vermelha de sangue. Uma festa que só se mantém com repressão e militares a cada esquina. Com um trabalho antecipado de mortes nos morros. Os jogos olímpicos se tornaram uma maldição. Uma oportunidade para matar mais negros, marginalizar ainda mais os periféricos, exercer a gentrificação e segregar a população injustiçada. Fomos vestidos com um traje de baile que esconde um corpo podre, decomposto e que não vive sem a energia do bem público. Olimpíadas para quê? Para quem? Quem ganha com isso? A população? Qual o sentido de realizar um evento que necessita de um exército nas ruas e somas tão volumosas de dinheiro público? Isso não pode ser benéfico, não se aproxima de forma alguma da necessidade global de ações e modelos sustentáveis de projetos, eventos e transformações urbanas.

Por isso, os jogos olímpicos são antissociais: uma sociopatia aguda e crônica, nada sustentável, que explora e expropria recursos econômicos, sociais e ambientais, em troca do quê, de uma festa do esporte? Não há sentido nos jogos olímpicos na forma com que seu modelo de existência se dá hoje. Os jogos são cínicos, são um esquema, um golpe, e valoriza o que há de pior em nós: a corrupção; a destruição; a morte; o prazer raso da luxúria; a competição e a vitória a todo o custo. Os jogos olímpicos são uma loucura, um delírio popular e um esquema privado.

Proponho, então, uma revolução. Os atletas não podem fechar os olhos e fingir que seus corpos, sua habilidades, seus talentos, seu trabalho, estão imaculados dentro deste jogo sujo. Se querem honrar seu próprio trabalho e a superação de seus limites, precisam ser os principais atores deste evento que só existe pelo trabalho deles. De que adianta superarem os limites humanos, baterem novos recordes se a vida, no processo, é abatida? Seu trabalho é utilizado para os piores propósitos e o verdadeiro espirito do esporte não pode confluir com esse esquema trilhardário chamado Jogos Olímpicos. Os atletas devem encabeçar um novo modelo de competição que seja sustentável e socialmente justo e transformador. É preciso atrelar os jogos à transformação efetiva dos espaços e não ao saque, à pirataria.

***

Ao fim, chegará a quarta-feira de cinzas deste carnaval. Os turistas partirão sorrindo ou traumatizados, os patrocinadores sairão mais ricos, assim como os investidores. O meio ambiente ficará depredado, as favelas receberão novos moradores, a vila olímpica será vendida pra quem já tem moradia e o cofre público terá um rombo ainda maior. A TV falará de como foi importante sediar os jogos, de como foi linda a festa de abertura e encerramento. De como alguns atletas nascidos nas favelas chegaram ao topo para receber medalhas de ouro. E nada se falará da chaga, da carcaça que restará de uma cidade saqueada pela pirataria institucionalizada e oficial chamada Jogos Olímpicos.  

Este escrito histérico e desesperado é uma singela lembrança ao bravos brasileiros que tentaram apagar a tocha olímpica por onde passou, e que entendo como uma necessidade absoluta de se levantar e existir simbolicamente contra este colosso oficial do saque, repousado como presente em praias cariocas.

As chamas olímpicas representam a pureza e a coragem humana. É preciso, com estas chamas e por estes valores atear fogo ao cavalo de troia, e em belíssima cerimonia, distribuir suas cinzas pelos mangues da maré.

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Rafael Sasso

Auto retratado como um cão perdido que não sabe atravessar avenidas movimentadas, é graduado em Ciências Sociais pela FESP-SP. Manipula posologias audiovisuais pelo Coletivo Pílula Vermelha e busca nas palavras e imagens pistas para desvendar um absurdo chamado “a vida existe”. Ainda sobre sua necessidade investigativa, se dedica a uma formação em psicanálise para a interpretação das angústias, peça chave de qualquer mistério. Acredita na revolução popular como única luta digna e possível para a libertação da potência humana. Fisgado pelo materialismo crítico de Marx e cúmplice da dialética irônica de Groucho Marx: é marxista.

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