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2100: uma distopia

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Capítulo I – Pré-guerra

Na prática não havia mais Estados. Para quem estudou ciências sócias isso significa dizer que a forma de organização social que começou a ser formulada na Baixa Idade Média junto com as primeiras universidades por necessidade empírica e teve seu auge no início do século XX, constituída por um território, sistema jurídico e governada por um rei ou presidente e um parlamento, aos poucos começou a ser desmontada.

O desmonte dos Estados começaram após o fim da II Guerra Mundial em 1945. Muitos achavam que uma organização supranacional denominada ONU – Organização das Nações Unidas seria quem assumiria o papel de um Estado Mundial e determinaria as regras que regeriam o mundo, assim como fizera a Igreja durante mais um milênio. Entretanto, enquanto os Estados degladiavam-se para determinar quais regras seriam as aplicáveis a seus países em infindáveis conferências da ONU e de seus braços, outras instituições, as empresas e os bancos multinacionais, cada dia ganhavam mais poder e agiam usando a força do poder econômico, dentro e fora da lei, interna e externamente. Não faltavam subornos, propinas e transferências de capitais, da produção e dos postos de trabalho de um canto para outro do mundo. Tudo em nome da sobrevivência, competitividade e, especialmente, rentabilidade. Se antes a estratégia era restrita a empresas multinacionais, grandes e médias empresas nacionais, passaram a fazer o mesmo. As empresas já não tinham mais nacionalidade. Também pessoas comuns, mas detentoras de fortunas consideráveis, utilizavam-se dos mesmos expedientes, auxiliadas pelos sistemas de comunicação, os quais permitiam acompanhar suas aplicações financeiras a qualquer hora e lugar. Como em regra as pessoas eram obrigadas a pagar mais impostos que as empresas, não raro, pessoas que não produziam absolutamente nada abriam negócios em paraísos fiscais apenas para pagar menos tributos sobre seus rendimentos. Cada dia os Estados arrecadavam menos dinheiro e viam-se reféns dos corruptos, os quais desejavam funções públicas apenas para obter vantagens devidas e indevidas; dos detentores dos meios de produção; e do dinheiro puro e simples.

As pessoas comuns aos poucos se tornavam cientes dos direitos assegurados pelas Constituições de seus Estados, e cobravam saúde, educação, segurança. Mas elas não sabiam que o documento que assegurava seus direitos constituía um resumo, a materialização, do pacto firmado entre o estado e a sociedade na época em que o estado tinha poderes absolutos e podia a qualquer momento determinar o confisco dos bens. O documento tornava-se anacrônico. Alguns poucos falavam claramente o que isso significava: “a constituição não cabe no orçamento”.

Infelizmente essa era a verdade. Com a arrecadação em queda, era impossível aos Estados garantir saúde, educação, segurança e tantas outras necessidades criadas pelo desenvolvimento tecnológico. Para que não sangrasse imediatamente, o FMI – Fundo Monetário Internacional - propunha reformas, a fim de diminuir o tamanho do Estado e assegurar o livre trânsito desonerado de impostos do capital financeiro mundial. Era a fórmula encontrada para se garantir os investimentos a longo prazo. A aplicação da receita de sucesso do FMI podia ser sentida nas bolsas de valores. Cada gasto cortado pelo Estado, ou seja, cada direito cortado da Constituição, implicava maior entrada de dinheiro no país, e, consequentemente, alta na bolsa de valores.  

            Com os Estados deixando de aplicar a verbas saúde, aos poucos via-se surgir castas dentro da população. Os que não tinham dinheiro para os cuidados básicos viviam em média até os 50, em alguns países nem isso. Os que possuíam algum dinheiro, viviam até os 75. E os que tinham acesso aos tratamentos mais modernos, ultrapassavam facilmente os 100 anos. Além disso, havia uma epidemia de transtornos mentais. Sem dinheiro para uma internação ou para pagar a medicação, esquizofrênicos, bipolares, depressivos e dependentes químicos vagavam feitos zumbis pelas ruas das cidades.            A questão da saúde era agravada pelo fator tempo: mesmo os que tinham algum dinheiro para investir, não tinham tempo para ir ao médico. Com uma jornada de 14h diárias em média, de segunda à sábado, só restava ao trabalhador ir aos hospitais durante a madrugada. Muitos só passavam a se preocupar, depois de infartos fulminantes, ou crises psicóticas quase irreversíveis. Não era incomum que muitos fossem acometidos de Arigata-meiwaku, melhor dizendo, morriam de tanto trabalhar.

            Morrer de tanto trabalhar era comum. Com a possibilidade de transferência dos meios de produção para qualquer parte do mundo, todos os países desejavam ser o mais competitivo. Isso também implicava em normas trabalhistas mais flexíveis: jornadas de mais de 14h sem obrigatoriedade de paradas para almoço e descanso, possibilidade de terceirização da mão-de-obra, ou melhor, de transferência de eventuais custos trabalhistas para outras empresas, ou para o próprio trabalhador, inexistência de sindicatos, salário baixos, quase sem reajuste, entre outras coisas. O que antes era comum em países “em desenvolvimento”, especialmente da Ásia,   foi “socializado” para todos os cantos do mundo. A única vantagem é que o nível de estafa da população era tão grande que não havia mais como socializar a miserável condição a que foi reduzido o trabalhador.

            Enquanto no bolso de alguns milhares de pessoas tudo corria bem, a população mundial, reduzida de 6 para 5 bilhões de habitantes, (graças à diminuição dos níveis de fecundidade e à disseminação do RBV, um vírus, transmitidos por cachorros e gatos a seus donos, que embora uma grande empresa farmacêutica tenha comprado a patente de uma universidade do Governo Americano, recusou-se terminantemente a vender a preços populares) sofria ciclicamente com as crises da economia mundial. Os humanos trabalhavam muito e tentavam inutilmente concorrer com as máquinas, mais produtivas, e muitas vezes empáticas. Os empregos que restavam eram poucos e disputados por pessoas que teimavam em conseguir certificados e a se qualificar a fim de gourmetizarem seus currículos. O custo de estar no mercado trabalho era alto e nem sempre compensava o investimento. O fim da educação pública aumentava ainda mais o custo. Muitas pessoas simplesmente não estudavam por falta de condições financeiras. O desemprego era alto e o consumo de bens relativamente baixo. O consumo de serviços, em compensação era alto, afinal, tudo era pago: saúde, educação e transporte.

            Em razão da diminuição da população mundial, a venda de bens diminuíra. Inclusive de imóveis. A oferta aumentou, mas não para o povo. Não havia dinheiro disponível para a população comprá-los, seja por causa dos baixos salário, seja por conta do desemprego. Os imóveis continuavam concentrados na mão de algumas pessoas. Dono só quem herdava da época em que ainda era possível comprar algo financiado. Não era comum ver prédios antigos, ou até novos serem ocupados por aqueles que consideram absurdo não ter um teto. Os confrontos policiais e até a utilização do exército, eram frequentes.

            A segurança não havia melhorado com o passar dos anos, muito embora fosse a única área em que o Governo aumentara sistematicamente seus investimentos. Pessoas de todas as idades, doentes e famintas, abandonadas pela sociedade, vagavam pelas ruas. Muitas pediam algum dinheiro para aliviar seu sofrimento, outras tentavam vender artesanato, facilmente copiado por meio de câmeras e impresso por impressoras 3D e outras roubavam. Já o crime organizado muitas vezes rivalizava com o status quo. Quadrilhas dominavam tecnologia de toda as áreas: química, biológica, farmacêutica, mecânica, informática. Mini-bombas nucleares, biológicas, para quem possuía dinheiro, eram facilmente compradas no mercado negro. Remédios falsificados eram vendidos a preços mais baratos, para quem quisesse se arriscar a ter um tratamento alternativo, assim como aparelhos que escaneavam o corpo a procura de doenças e davam os diagnósticos, que se não substituíam, ao menos diminuíam o custo com convênios médicos, entre outros equipamentos. Mas a modo era entrar nos aparelhados sistemas dos grandes bancos a fim de transferir capitais para contas indetectáveis de banco ilegais.  

            Uma parte dos milhares de bilhonários e milhonários do mundo cansados de viver em bunkers e cercados de seguranças por todos os lados, resolverem entrar e uma aventura e colonizar Marte. Levaram consigo suas famílias e os bens necessários à acomodação. Uma dezena de milhares de naves foram construídas e demandaram a contração temporária de uma centena de milhar de pessoas, as quais foram bem remuneradas por um período. Outro milhão, escolhidos a dedo, entre os de QI, QE e alto desempenho em esportes para embarcar e servirem de construtores e empregados da tropa aventureira.

            Foi no dia do embarque para Marte, 14 de fevereiro de 2093, que entra nossa protagonista: Luana.

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Patrícia Souza Ribeiro

Nascida em São Paulo em 1983. Leu seu primeiro livro aos 5 anos de idade, “A Bela Borboleta”, do Ziraldo, e não parou mais. Em razão do destino, quase virou engenheira. Desistiu, pensou em ser médica e como não sabia exatamente o que queria, foi estudar Direito no Largo do São Francisco. Saiu mais perdida do que entrou. Então seguiu a vida de trabalhadora concurseira entediada. Como jogador de futebol, descansa fazendo o que sabe: ler e escrever. Nessa ordem. Mestranda em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP, funcionária pública, escritora amadora, curiosa e pesquisadora por natureza e necessidade.

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