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Capítulo II – O início da guerra dos sete anos - primeira parte

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Luana tinha 24 anos, um QI 150, nenhuma história de doenças psíquicas na família, ou genes indicativos de que pudesse vir a desenvolvê-las. Era imune ao RBV, consoante demonstraram seus testes laboratoriais e a prática, uma vez que sobrevivera a morte de seus pais, avós, tias, e tios contaminados pelo vírus. Fora criada em um dos orfanatos feitos em regime de urgência pelo Estado em que nascera após a pandemia de RBV que se disseminara por todo o mundo. Aprendia rápido e era boa em esportes coletivos.

Aos sete anos aplicaram um teste de aptidões e descobriram que se tratava de uma das crianças com habilidades especiais e que poderia ser treinada para servir a um dos exércitos dos Estados mundiais. Além da grade normal de ensino, passou a ter aulas intensivas de matemática, programação, ciências, línguas, normas gerais de conduta e condicionamento militar, para ver se aguentaria a pressão quando assumisse o posto. Aos 16 anos terminou todo o ensino regular. Aos 20 concluíra a graduação básica em biotecnologia e aos 24 anos atingira o grau de doutora em biotecnologia. Era especialista em desativação e montagem de armas biológicas e fora convidada para integrar o Alto Comando Mundial de Armas do Exército – ACMAE. Seria uma das responsáveis pela, montagem, controle e desativação das armas em Marte e na Terra. Estava na lista das primeiras 200 mil pessoas que iriam colonizar Marte de modo definitivo, com data marcada para embarcar em 14 de fevereiro de 2093.

            Sem raízes: filhos, pais, parentes, ou um grande amor que a pudesse prender em um determinado lugar, já havia mudado de países de algumas vezes no decorrer da vida. Conforme seu desempenho acadêmico melhorava, era transferida para outro Estado que eventualmente viesse a ter um pouco mais de condições na manutenção de seus exércitos e que oferecesse alguma bolsa para seus estudos e manutenção durante o período necessário. Justamente por não ter raízes, e em razão do grande número de desempregados e miseráveis, sentia-se sortuda, uma verdadeira vencedora e seguia agarrando-se às oportunidades apresentadas com muito orgulho, dedicação e alguma altivez que lhe era intrínseca. Não se casara não por causa de sua falta de beleza. Era bonita. Olhos castanhos, cabelos cumpridos e encaracolados, que raramente eram vistos, pois estavam sempre presos. Básica e com pouco dinheiro para gastar, usava sempre roupas esportivas e tênis. Ou o uniforme comum do dia-dia. Nos dias de festa, sacava de seu guarda-roupas um dos 5 vestidos que acumulara ao longo de sua vida e uma sandália de salto alto. Isso só acontecia em datas comemorativas, como suas formaturas, e nas festas de fim de ano. Nessas ocasiões, permitia-se soltar o cabelo e passar um pouco de maquiagem, ressaltando o potencial de sua beleza.

            Compassiva. Não era de questionar as ordens. Seu temperamento calmo e o treinamento que lhe fora dado ensinara a não desobedecer às ordens e aceitar qualquer coisa que pudesse vir a lhe acontecer. Sabia que o seu dever era assegurar o bom funcionamento da sociedade, a segurança dos cidadãos e das empresas e nunca questionar seus superiores. No seu caso, em especial, combater o crime organizado, o terrorismo contra os Estados e as entidades privadas, o contrabando, e a disseminação das armas biológicas. No pouco tempo que lhe sobrava, fazia questão de dar palestras em orfanatos e escolas para alunos com habilidades especiais a fim de estimular os estudos, as oportunidades oferecidas pelos exércitos a fim de que sigam retas em seu dever de servir.

            Gostava de ler, mas lia apenas o que era recomendado em suas escolas e na mídia. Após uma tentativa de revolução em nível mundial que acontecera em 2050, na qual morreram aproximadamente 50 milhões de pessoas, do eixo dos países ocidentais (no qual ela morava), que à época ainda tinham algum domínio sobre o mundo, muitos livros, séries, filmes, novelas e sites da internet passaram a ter seu conteúdo vigiado. Foi criado o Centro de Controle da Informação Mundial – CCIM. Por meio da colaboração de pessoas e programas especializados em buscas, o conteúdo da internet passou a ser vigiado. Se antes, qualquer pessoa podia publicar textos, músicas, e vídeos de sua própria casa, e sofreria eventual censura posteriormente, agora tudo passava pela CCIM. As informações publicadas antigamente eram filtradas, republicadas ou tiradas do ar. Qualquer conteúdo considerado subversivo era rapidamente eliminado. Isso não impedia, entretanto, que textos de “blogueiros sujos”, ou mesmo informações antigas, guardadas em livros, pen drives, ou CDs, ou hackeados da “nuvem” fossem divulgados em redes independentes e ilegais.

            Acessar essas informações era muito perigoso, muito embora todos soubessem onde encontrá-las, pois o mercado negro não deixou de existir, apenas alguns se arriscavam em obtê-las. Ser pego com essas informações poderia resultar em 20 anos de prisão em regime fechado. Quem comerciava era sentenciado com a prisão perpétua. Assim as pessoas se informavam apenas pelos meios oficiais. E liam os livros recomendados. Em papel, ou na internet. Os filmes em regra exaltavam pessoas comuns que venciam todas as dificuldades: a fome, o RBV, a guerra dos 50 (50 anos e cinquenta milhões de pessoas), o desemprego. Falavam sobre a importância da religião Deísta, única correta e comum a todos. Ela viera a substituir o Hinduísmo, Budismo, Cristianismo e a Mulçumana entre outras, as quais causaram muita morte e desgraça, por quase 2000 anos.   Falava como o Deísmo era importante para a doutrinação do espírito, aceitação e superação das dificuldades e de como todos seriam retribuídos futuramente, seja na Terra, seja no Céu, por sua resiliência. Teólogos de todo o mundo, foram convocados para criar as liturgias do Deísmo. Ficaram responsáveis por encontrar os pontos comuns, verificar se se adequavam aos novos padrões estabelecidos pela sociedade e a firmar um consenso. A cada cinco anos eles se reuniam para debater sobre os resultados, e o número de adeptos. (era permitido ser deísta, agnóstico ou ateu, nada além). Após o fim, proclamavam a vontade, de Deus, ou melhor, o resultado da reunião, e tratavam de lançar notas oficias à imprensa e ministrar cultos aos formadores de fíéis. Luana, muito embora tivesse formação científica e uma tendência natural para ser atéia, frequentava as reuniões do deísmo, por costume, já que durante os 9 anos em que vivera no orfanato, ia todos os Domingos às reuniões. Além disso, à noite, rezava uma das preces contidas no livro do Deísmo e adormecia em seguida.

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Patrícia Souza Ribeiro

Nascida em São Paulo em 1983. Leu seu primeiro livro aos 5 anos de idade, “A Bela Borboleta”, do Ziraldo, e não parou mais. Em razão do destino, quase virou engenheira. Desistiu, pensou em ser médica e como não sabia exatamente o que queria, foi estudar Direito no Largo do São Francisco. Saiu mais perdida do que entrou. Então seguiu a vida de trabalhadora concurseira entediada. Como jogador de futebol, descansa fazendo o que sabe: ler e escrever. Nessa ordem. Mestranda em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP, funcionária pública, escritora amadora, curiosa e pesquisadora por natureza e necessidade.

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