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Capítulo II - Continuação

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Luana Silva era uma das representantes do homem médio vendido pela mídia, muito embora não fosse nada mediana. Uma, pois em um mundo com 5 bilhões de pessoas, não seria difícil encontrar ao menos mais uns 1 milhão com padrões semelhantes: QI alto, atlética, bela, deísta não fanática, compassiva, altamente qualificada, falava cinco idiomas (embora não houvesse necessidade, pois os apps dos chips implantados na cabeça faziam traduções simultâneas), além de tudo, não tinha raízes.

Como havia mais 1 milhão de pessoas como ela, não deixava de ser sorte o fato de ter sido selecionada para ser uma das colonizadoras dos assentamentos em Marte. Lá, segundo o contrato que havia assinado, teria direito, após a fase de construção, a uma casa, roupas, comida, medicamentos e um salário por toda a vida. Sua jornada de trabalho seria reduzida a 10h diárias e poderia praticar esportes juntamente com os outros colonos em suas horas vagas. Não teria que pagar nada por isso, apenas continuar a fazer o serviço que já fazia nesse mundo. Com o agravamento da violência decorrentes das péssimas condições sociais, inúmeras pessoas estavam pagando para ir à futura terra prometida. Muitos dos que possuíam algum patrimônio, chagavam a pagar mais do que o valor estabelecido inicialmente para embarcar. O comércio ilegal das vagas decorrentes do sorteio, provocou uma sobrevalorização de mais 10.000% do valor inicial. Mesmo dentro dos Exércitos não era incomum a compra de vagas. Muitos membros vindo de famílias endinheiradas chegaram a lhe oferecer uma quantia considerável, que certamente não juntaria em toda a sua vida de serviço militar prestada na Terra. Alguns de seus colegas chegaram a desistir e passaram sua vez para um dos qualificados não sorteados. Mas Luana não tinha raízes, ou motivos para permanecer aqui, então emitiu diversos e sonoros nãos.

Após a seleção e o sorteio, Luana passou a receber treinamento específico. Havia um campo de simulação das condições de vida em Marte. Nesse centro os aventureiros, simulavam a construção e montagem dos meios e equipamentos necessários à manutenção da vida. Seria necessário a instalação de simuladores de dia e noite em 24 horas, oxigênio, gravidade, diques condutores e transformadores de água suja em água potável, estufas e construção de laboratórios e mini-indústrias, a fim de que no futuro não houvesse tanta dependência da Terra. O centro de comunicação e segurança da informação, bem como os satélites, já haviam sido instalados, mas restava construir muita infra-estrutura. Alguns assentamento já existiam, mas eram poucos, assim, no início, todo deveriam trabalhar na ampliação do número de residência, locais de passeio, ginásios, escolas, universidades. Todos à exceção dos financiadores. Esses não iriam logo de cara, mas somente após o estabelecimento de condições mínimas de sobrevivência, o que para eles, significava a construção de uma cidade inteira. Pela quantidade de pessoas envolvidas na empreitada, recursos físicos e financeiros reservados e número de naves que iriam levar e trazer as coisas da Terra para Marte e Vice-Versa, calculava-se ao menos 10 anos. Os financiadores fariam visitas para checar o andamento do empreendimento e poderiam fixar residência definitiva, à medida que as etapas fossem concluídas.

A quantidade de recursos retirada da Terra para essa empreitada, implicou no encarecimento das matérias primas e de muitos bens de consumo para a população em geral, assim como dos materiais destinados às impressoras 3D individuais. Era necessário garantir os estoques para a construção dos assentamento, e de sua manutenção. Estoques estratégicos e até desnecessários, estavam sendo feitos em prol da colonização de Marte. A população sofria com a falta de bens disponíveis, ainda mais do que antes, mas ninguém parecia se importar. Em vez de procurar minimizar o sofrimento da população mundial, lançava-se mão de propagandas nas mais diversas mídias, e elaboravam-se roteiros de filmes e séries falando sobre os benefícios, que para a população pareciam inexistentes da colonização em Marte.

Mas Luana não fora educada para questionar nada disso. A oportunidade de ser uma das pioneiras a colonizar Marte batera à sua porta e isso é o que ela faria. Finalmente teria uma casa e depois dos dez primeiros anos poderia até constituir uma família. Como todos receberiam valores muito parecidos e todos diziam que haveria, comida, medicamentos e um teto assegurado as todos, não existiriam mendigos vagando nas ruas, pessoas doentes, salvo quem eventualmente viesse a adoecer. Esses assentamentos construídos em Marte seriam a reprodução do ideal que alguns tinham de Estado. Lá a haveria uma sociedade praticamente igualitária, formada por pessoas inteligentes, atléticas, saudáveis, altamente escolarizadas e que receberiam rendimentos semelhantes. Essas pessoas ajudariam a fundar e governar a cidades, assim como também a Terra. O alto comando de Marte teria controle sobre os equipamentos militares, os quais poderiam ser operados no novo planeta. A ideia era que a central de controle dos equipamentos militares da Terra fosse transferida para Marte, já que o arsenal podia ser acionado e direcionado ao alvo por meio de comandos transmitidos por satélites. Muitas empresas multinacionais também teriam suas sedes transferidas para Marte, assim como alguns bancos. Como ninguém desejava lidar com os problemas que aconteciam na Terra, Marte seria construído com uma concepção diferente, mais igualitária para os moradores, no entanto, elitista e excludente. Apenas os escolhidos poderiam habitar e fazer parte dessa nova fase da história.

Luana acordara às 5h da manhá como de costume. Praticara seus exercícios matinais e preparava-se para mais um dia de trabalho. Mas o trabalho era novo. Após passar grande parte dos meses, checando, controlando e embalando os medicamentos e suplementos alimentares que seriam necessários para embarcar, finalmente chegara o dia. Preparou sua mala como os poucos pertences que tinha. E saiu do alojamento que fora sua casa nos últimos 4 anos, desde que engressara no programa de mestrado, seguido do doutorado. Despediu-se certa de que sentiria saudades, mas que sobreviveria, assim como vinha fazendo desde pequena.

Malas nas costas, muito esperançosa e grata por integrar essa nova fase que seria a colonização de Marte, Luana embarcou em um dos caminhões do exército e se encontraria com o Comando da Expedição em breve. Seu horário de embarque seria às 14h. Pegou um dos ônibus juntamente com seus companheiros da área de biotecnologia que lhes levariam até um dos postos de lançamento dos ônibus espaciais espalhados pelo mundo. Lá embarcaria juntamente com seus companheiros já agrupados por área de conhecimento. Depois seriam separados, mas inicialmente foram postos juntos a fim de facilitar a identificação, sem contar que trabalhariam em conjunto por um bom tempo em Marte. No seu caso, ficaria responsável pelo controle das doenças que surgiriam lá, desenvolvimento de possíveis vacinas, além é claro da elaboração de armas biológicas para a segurança de Marte e da Terra. O comboio seguia entoando canções em inglês, de conhecimento de todos, já que havia pessoas dos mais diversos lugares do mundo. Era uma forma de integrar a todos e mostrar que possuíam uma identidade. Não que isso fosse necessário, pois além da língua, a educação e o treinamento que receberam desde pequenos, ou, ao menos, a partir dos 18 anos era suficiente para uni-los. Além disso, passaram um grande tempo aprimorando seus conhecimento, em especial as técnicas de sobrevivência conjuntamente e todos dividiam o sonho de uma vida melhor em Marte. Seus companheiros eram metade de cada sexo, com idade entre 24 e 35 anos, saudáveis, atléticos, inteligentes e altamente qualificados, nas mais diversas áreas, sobretudo em engenharia, física, química, medicina e biotecnologia. Os especialistas em ciências sociais, filosofia, direito, letras e música iriam depois e teriam a obrigação de ajudar na formulação das leis e administração da cidade e, no caso dos músicos, proporcionar algum entretenimento.

O comboio se aproximava da estação de lançamento que ficava em uma região plana e semi-árida, pouco habitada. Existiam outros comboios que iriam embarcar no mesmo horário espalhados pelo mundo.   Quando de repente todos os equipamentos de transmissão de dados, incluindo os acoplados ao cérebro e às roupas, sofreram interferência e tiveram o sinal cortado. Os robôs e os drones-seguranças que acompanhavam os futuros astronautas perderam a direção e desviaram de sua rota invadindo as terras além da estrada. Os co-pilotos humanos foram obrigados a assumir a direção dos veículos. Do nada surgiam tanques envoltos em campos de força e pessoas montadas em drones igulamente envoltos em campos de força, armadas com lasers de elétron-livres, lançadores de granadas, corner-shots e armas de energia direta, além de bombas dos mais diversos tipos, inclusive de efeito moral. Embora todos usassem máscara, as roupas não seguissem um padrão, os círculos com as cores do arco-íris em dégradé, indicavam quem eram os líderes do ataque: a OMJ – Organização Mundial dos Justiceiros. Mais conhecidos como terroristas pelos exércitos.

            Era possível ouvir algumas vozes dizendo:

            - Poupem o máximo de vida que puderem, mas matem os líderes, em especial os que reagirem. Eles são mais velhos, não nos servirão.

            Praticamente desarmados, e sem os robôs e os drones de apoio, os ônibus foram facilmente abatidos pelos lasers de elétrons livres. Os Justiceiros atiravam nos pneus e matavam sem piedade aqueles que ousavam sacar uma arma. Alguns dos militares que tiveram seus ônibus abatidos e que não foram arremessados ou morreram na batida, esboçavam reação, usavam o ônibus como parede e atiravam em conjunto a fim de impedir que o pessoal da OMJ se aproximasse, outros tentavam fugir pelo descampado, fora da estrada. Os que fugiam era paralisados com as armas de energia direta e imediatamente recolhidos por um dos Justiceiros. As armas dos soldados abatidos eram arremessadas, pois possuíam identificador e localizador, os membros da OMJ queriam apenas as pessoas. Os soldados do exército de Luana estavam perplexos e não entendiam o motivo da ofensiva, salvo o fato de haver mais de 200 mil pessoas que embarcariam para Marte nos próximos dias, a maior parte soldados de Estados e soldados de Empresas. Era comum que as empresas de grande porte na época tivessem seus próprios exércitos, a fim de garantir o seu patrimônio. Não bastava apenas os exércitos de Estados e o Exército Mundial. Como em muitas localidades não havia dinheiro suficiente para garantir a segurança da região, o jeito era que cada um garantisse sua segurança como fosse possível então não era incomum encontrar empresas com verdadeiros exércitos. O exército de Luana era o Mundial, mas no caso, pouco importava, pois comunicação com o respectivo comando, ou com ninguém, restava apenas tentar repelir em vão aos ataques, ou ser feito prisioneiro pela OMJ.

O ônibus de Luana não teve melhor sorte. Sem piloto automático, o sargento de seu ônibus tentou substituí-lo a fim de evitar que o ônibus saísse desgovernado, mas foi morto antes que conseguisse alcançar o volante. Vendo-se sem saída e sem saber o que lhe aconteceria, Luana logo assumiu a liderança e pediu para que todos pulassem do ônibus. Ao pularem, o ônibus capotou diversas vezes. Alguns não conseguiram sobreviver a queda, mas Luana, conseguiu sobreviver com alguns arranhões. De arma em punho, tratou de se unir com outros militares e organizar um pequeno contra-ataque. Por detrás de alguns dos ônibus que se entulharam, elas e seus colegas conseguiram abater alguns dos Justiceiros. Ela própria, usando uma arma anti-campo, derrubou um dos terroristas que montava um drone e tratou de montá-lo ela própria. Com ele, conseguiu ter uma visão um pouco melhor, sobrevoando até o limite do paredão formado pelos ônibus empilhados. Conseguiu derrubar alguns “terroristas” de seus drones, mas nada que alterasse o curso da batalha. Viu-se cercada, presa e algemada com uma algema de campo junto com algumas centenas de outros sobreviventes. O que seria de suas vidas agora?

Se antes o futuro parecia certo para Luana, agora tudo mudara. Ela não sabia o que de fato aconteceria. Não sabia se sobreviveria, e se sobrevivesse em quais condições seriam. Era de conhecimento público que pessoas quando pegas pela OMJ não voltavam a ser as mesmas. Jamais integravam um exército novamente, muitos viravam mendigos, e outros passavam a integrar a OMJ. Ela, sendo órfã, não teria muito escolha: ou viraria mendiga ou seria um novo membro da OMJ.

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Patrícia Souza Ribeiro

Nascida em São Paulo em 1983. Leu seu primeiro livro aos 5 anos de idade, “A Bela Borboleta”, do Ziraldo, e não parou mais. Em razão do destino, quase virou engenheira. Desistiu, pensou em ser médica e como não sabia exatamente o que queria, foi estudar Direito no Largo do São Francisco. Saiu mais perdida do que entrou. Então seguiu a vida de trabalhadora concurseira entediada. Como jogador de futebol, descansa fazendo o que sabe: ler e escrever. Nessa ordem. Mestranda em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP, funcionária pública, escritora amadora, curiosa e pesquisadora por natureza e necessidade.

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