A+ A A-

Patos Mandarins

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

Há uma passagem bela e emocionante no escrito de Nichiren Daishonin, As Quatorze Calúnias, uma carta do século 13 em resposta ao seguidor leigo Matsuno Rokuro Saemon. Nichiren é o buda japonês que revolucionou o budismo com uma visão iluminada do Sutra do Lótus, o texto final e definitivo pregado pelo buda histórico Shakyamuni, o famoso Sidharta Gautama. Nela, ele diz:

Este mundo melancólico é fugaz como o clarão de um raio, como o orvalho da manhã que desvanece sob o Sol, como uma lamparina que o vento apaga com um sopro, ou como as frágeis folhas da bananeira, tão fáceis de quebrar. Ninguém pode escapar dessa transitoriedade. No final, todos deverão realizar a jornada para as Fontes Amarelas, a terra da escuridão. Quando visualizamos a viagem ao outro mundo, imaginamos o breu, onde não existe luz do Sol, da Lua ou dos astros e nem sequer uma chama para acender uma tocha. Ao longo dessa estrada escura, não há ninguém que nos faça companhia. Enquanto estamos no mundo saha, vivemos rodeados por nossos pais, familiares, irmãos e irmãs, esposa e filhos e parentes. Os pais podem nos brindar com benevolência, e as mães com um profundo e terno afeto. Quiçá marido e mulher sejam tão fiéis como dois camarões que juram compartilhar o mesmo buraco e jamais se separar na vida. Não obstante, ainda que ponham seus travesseiros lado a lado e se divirtam debaixo de colchas bordadas com patos mandarins, jamais poderão seguir juntos na travessia que conduz à terra da escuridão. Nesse percurso solitário e obscuro, quem aparecerá para nos encorajar?

Nesta carta, em pequenas pinceladas, resume-se a questão essencial da existência: a transitoriedade e fugacidade de todas as coisas; a percepção de que vivemos em um mundo de sofrimento e de perdas (o mundo saha); e o inevitável, inescapável e solitário encontro com a morte (a jornada para as Fontes Amarelas).

Mas tudo é dito de uma forma sublime e imagética.

Patos mandarins, além de serem belos e coloridos espécimes, são símbolos chineses da felicidade conjugal. Acredita-se que essa espécie de patos se mantenha fiel a seu parceiro durante toda a vida.

O estilo de Nichiren Daishonin, com metáforas e símiles sofisticadas, e um jeito só dele de dizer as coisas mais profundas, me inspirou entre tantos, este poema:

     PATOS MANDARINS
    Um casal colorido, duas asas

    a desenhar o voo de uma só ave.

    Camarões fidelíssimos

    a compartilhar das delícias da lama

   e do caos.

    Nós, humanos, cunhamos palavras

   para nomear o mais amplo

   e misterioso sentimento

    do universo.

    Fiquemos com a mais bela,

   a mais incompreendida delas:

   o ‘Amor’.

    Por muitos e muitos anos

    compartilhamos camas, contas
   e travesseiros.

    Regozijamo-nos debaixo de cobertores
   com delicados bordados

   de patos mandarins.

    Festejamos muitos aniversários,

    saudamos variados pores-do-sol,

    fotografamos flores, luas e bebês.

   Bem-aventurados os que encontram
   alguém para compartir o caminho.

    No entanto,

   a travessia pós vida se faz
   inevitável. 

   
   Jamais poderá ser compartilhada.

    Neste percurso solitário,

   que é a morte,

    o que poderia nos confortar?

Avalie este item
(3 votos)
Edson Cruz

É poeta e prosador, editor do site Musa Rara (www.musarara.com.br) e coordenador de Oficinas Literárias. Graduado em Letras pela Universidade de São Paulo - USP. Lançou, em 2016, O canto verde das maritacas (poesia, Editora Patuá). Seu livro Ilhéu (Poesia, Editora Patuá, 2013) foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom de 2014. Antes, lançou Sortilégio (poesia), em 2007, pelo selo Demônio Negro; e, como organizador, O que é poesia?, pela Confraria do Vento. Em 2010, lançou uma adaptação do épico indiano, Mahâbhârata, pela Paulinas Editora. Em 2011, ganhou Bolsa de Criação da Petrobras Cultural e editou livro Sambaqui, pela Crisálida Editora.

voltar ao topo