A+ A A-

A política do carvão

O grande latifundiário Algisdras Carrapato aproveitou a grave crise hídrica do país para se aventurar na política. E como sofria de megalomania, decidiu logo virar senador dessa bodega.

            Filiou-se a um partido qualquer, cujo nome nem ele mesmo sabia, mas que tinha alguma representatividade no congresso nacional, além de algumas rubricas bem fortes na chamada bancada do Agrotóxico.

            E como se deu essa virada na vida de Carrapato: O “seu” Algisdras, que havia comprado nos Estados Unidos uma caminhonete Monster Truck para circular pelas suas propriedades, decidiu plantar eucaliptos nos 6.000.000 de hectares de terras que possuía, para se livrar das acusações de improdutividade e evitar ocupações do MST.

            A Monster Truck passeava pelas propriedades apinhadas de capangas, com garruchas e carabinas a tiracolo, para impor respeito e demonstrar o poder do grande latifundiário.

            Quando a crise hídrica chegou, um de seus conselheiros, que sempre passeava com ele na cabine da Monster Truck, lhe disse que poderia produzir carvão com os eucaliptos, negociar com o governo e fornecer o material para abastecer as usinas termoelétricas.

            “Seu” Algisdras achou ótimo o alvitre e num átimo já imaginou tudo: O senado, as comissões, as viagens, as indicações, as verbas de gabinete, as licenças ambientais… e decidiu fazer sua campanha: “O Carvão pelo bem do Brasil”.

            Mandou construir 10.000 fornos para produzir carvão e contratou, em regime de semiescravidão, duas mil famílias – inclusive crianças e idosos – para trabalhar cerca de 18 horas por dia na produção de sua promessa de campanha.

            Só que, na primeira safra de carvão que saiu, algo deu errado – o tal carvão não queimava, nem com reza brava.

            Técnicos da Embrapa foram contratados para examinar o que havia ocorrido e diagnosticaram que aquele tipo de eucalipto das fazendas do “seu” Algisdras Carrapato não servia para carvão, que seria bom tentar a celulose… o papel.

            O latifundiário mandou seus capangas darem um sumiço nos técnicos e continuou sua grande produção carvoeira. Mas o carvão insistia em não queimar.

            Foi então que um outro assessor do “seu” Algisdras teve a brilhante ideia de continuar a produção a todo vapor, e ir estocando o danado. Aconselhou ainda para que o grande latifundiário alugasse um quarto do espaço destinado a estoque no porto da cidade. Tudo foi realizado na plena certeza de que aquela vaga no senado seria dele.

            E a campanha do “seu” Algisdras Carrapato, depois de já ter estocado 245.000 toneladas de carvão no porto, passou a ser veiculada sob a promessa de “Se eu ganhar a vaga no senado, dou meu carvão de graça para o Brasil”

            Com quase dois milhões de toneladas de carvão estocado, não foi difícil para o latifundiário vencer as eleições, ainda mais que seus capangas, que viraram cabos eleitorais, prometeram para as famílias pobres dois sacos de carvão toda sexta-feira, pra fazerem o sagrado churrasquinho do final de semana.

            E essa promessa de campanha, asseguravam os cabos eleitorais, durará pelo tempo que nosso coroné “seu” Algisdras for senador, menos nas sextas-feiras santas, quando o carvão será 'entregado' no sábado de aleluia. O povo enxergou neste detalhe uma prova da religiosidade do latifundiário, e depositou nele o sagrado sufrágio democrático, que tanto sangue custou para ser assegurado em nosso país.

            Uma semana após a posse do senador Carrapato, ele estava já preparando os termos para a doação do carvão, aconteceu uma grande explosão no porto. Um incêndio nunca antes visto na história do Brasil.

            Foram duas semanas de árduo trabalho por parte das equipes do corpo de bombeiros. Após controlarem as chamas e durante os trabalhos de rescaldo, numa entrevista concedia aos telejornais, o comandante dos bombeiros afirmou que o porto havia sido completamente destruído e aquilo que sobrou de edificação deveria ser demolido.

            Disse ainda o comandante dos bombeiros que a única coisa que não pegou fogo durante o incêndio foi uma montanha gigantesca de carvão, que ocupa cerca de um quarto da área destinada a estoque no porto, e não queimou mesmo estando fora dos contêineres.

            O senador Agisdras Carrapato foi procurado pela imprensa. Uma repórter conseguiu entrevistá-lo e perguntou o que ele tinha a dizer sobre o ocorrido, se tinha alguma ideia sobre o porque de o carvão não ter queimado. Sua excelência o Senador Algisdras Carrapato apenas disse:

            – Eu sempre asseverei ao povo desta nação que meu carvão era bom! Taí essa tragédia que só faz abonar aquilo que afirmei ao longo de minha campanha republicana, meu carvão é tão bom que nem o fogo de duas semanas o destruiu!!

Avalie este item
(2 votos)
Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

voltar ao topo