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Camiseta amarela, bala & Drum and Base

Quem não aspira pelo momento Único em sua vida ainda não se deu conta de que está vivo – “Quis non adfectant tempus in vita vivat et non intellexit”: frase feita que circulava entre os monges nas abadias medievais. E diziam mais: assim como o nascimento e a morte, o Único acontece uma única vez na vida.

CATEDRÁTICO MEDIEVALISTA: Mas, meu Caro Autor, esta citação em latim está completamente sem pé nem cabeça!

CARO AUTOR: Mas, meu digníssimo Catedrático Medievalista, eu não tenho nada a ver com isso, pois quem traduziu a frase “Quem não aspira pelo momento Único em sua vida ainda não se deu conta de que está vivo”, que é de minha autoria, não fui eu e sim o Google. Sugiro que vá reclamar com ele…

            Continuando,

            … deitar a cabeça no travesseiro, olhar a vida em retrospecto e chegar à triste conclusão de que “não, ainda não aconteceu” é o mesmo que dizer: vivi em vão todo esse tempo.

            É uma espécie de plenitude, um derretimento da matéria corpórea no fluxo de todas as coisas. Momento que Santo Agostinho reservava apenas para as relações de diluição (ou elevação) do Ser em Deus.

            Mas o Santo Agostinho já foi pro saco e a nossa época, se não teve a capacidade de matar Deus, descobriu a palavra fruição, que, assim como a divindade, é muito boa para o moral, conforme já notara com muita felicidade a nossa Rita Cadillac.

            Ontem fiquei pensando nestas questões de elevadíssima necessidade quando revi uma foto do amigo Luiz Paulo.

            Confesso que não dei muita bola quando ele começou a me dizer que andava sentindo que alguma coisa que ele não sabia direito o que era parecia que queria acontecer com ele...

            Tava mais ou menos com quarentão o Luiz e, em nome de sua biografia, podemos dizer que era católico não praticante (batizado, crismado e primeiro-comunhado), casou na igreja, dois filhos praticamente criados, casa própria, carro novo, emprego estável – trabalhava há mais de vinte anos na prefeitura de Diadema. Casou-se com a primeira e única namorada, nunca foi de frequentar baladas ou festas e contabilizava apenas dois amigos, eu e o Batata. Tinha como grande paixão o samba de raiz e sua coleção de discos.

            A partir de determinado momento, que consigo precisar mais ou menos, sempre que a gente se encontrava, ele dava um jeito de me falar sobre essa sensação que vinha tendo nos últimos tempos. Mas era coisa indefinida, estranha, quase mística…

            Certa vez fui almoçar na casa dele e encontrei meu amigo um tanto quanto eufórico. Disse que tinha sonhado com a tal da coisa misteriosa e que no sonho ele tava de camiseta amarela. Me levou até o quarto e mostrou umas quatro que ele tinha comprado na Hering.

            Desde esse dia, por várias vezes que nos encontramos o bicho tava lá com sua camiseta amarela, básica, e conversa vai conversa vem arranjava um jeito de falar sobre esse sentimento cada vez mais próximo... essa coisa que não sabia direito o que era.

            Certa mão, a esposa dele me telefonou, eram umas duas da manhã, dizendo que o marido tava passando muito mal, gemendo de dor na cama e que não conseguia levantá-lo para levar no hospital. Corri lá pra acudir.

            Era uma crise renal, pedra nos rins. Quem já teve sabe o que é isso. Dizem ser a dor de parto do homem. Arrastei meu amigo até o carro e corri para o pronto socorro do Piraporinha. No caminho, tive que parar em um farol. Encostou ao nosso lado um carro, com música eletrônica no talo.

            Meu amigo, que estava agonizando no banco traseiro, imediatamente se levantou, como se tivesse curado ali mesmo, e me perguntou: “Que música é essa, Alexandre?” Eu disse que achava que era Drum and Base, mas não tinha certeza…

            Parecia hipnotizado, o Luiz. Farol abriu, o cara do som rasgou, música ficando longe, longe… e meu amigo novamente agônico. Noite toda no hospital e no dia seguinte liberado, após explodirem as pedras e tascarem nele doses cavalares de Tramal.

            Fiquei algum tempo sem visitá-lo e quando lá fui, num começo de noite de um sábado, encontrei meu bom amigo com sua camiseta amarela, deitado no sofá e ouvindo música eletrônica. Contou com muita alegria ter encontrado esse programa, o “Terremoto”, na rádio Energia 97, apresentado pelo DJ Mark.

            Achei meio bizarra a cena, pois que meu amigo só gostava de samba de raiz, que ouvia em vinil, duma coleção de mais de trezentos exemplares. Realmente ele tinha dado uma boa mudada. Tava mais falador, mais sorridente. E me confessou estar cada vez mais sentindo a coisa estranha… e que queria ir numa balada de música eletrônica.

            Combinamos a balada. A Vânia, esposa do Luiz, disse estar achando tudo muito estranho ultimamente, essa história de camiseta amarela e música eletrônica. Mas concedeu o habeas corpus e lá fomos os dois pra night.

            No carro eu ia reparando o Luiz com sua camiseta amarela, balançando a cabeça ao som do Drum and Base, parecendo um mulecote de vinte anos. Chegamos na balada, que era ali na região da Vila Olímpia. Eu sempre me comporto como um cachorro perdido nesse tipo de ambiente, mas o meu amigo parecia um habitué do pico, de longa data.

            Eu na fila pra comprar um suco, Luiz desaparece lá pro meio da pista. Só via ele lá no meio, no maior bate-estaca da paróquia. Feliz.

            Voltou uma meia hora depois, todo suado. Encostou ao meu lado e me mostrou dois comprimidos:

            – Que isso Luiz?

            – É bala!, comprei de um cara lá na prefeitura, toma uma aí…

            Como nessa época eu andava meio careta, agradeci a gentileza e recusei a parada. Então ele mandou as duas e voltou lá pra pista. De vez em quando eu ia lá e dava uma dançadinha também, mas o Luiz parecia estar em outro mundo.

            Quando me viu, chegou perto e me tascou um baita abraço, dizendo “É isso meu amigo! Era disso que eu tava falando! Era isso que eu tava sentindo!”. Nunca vi em minha vida uma pessoa num estado tão grande de felicidade, nem quando fui a uma micareta.

            Injuriei daquele lugar e fui chamar o Luiz pra gente zarpar. Não teve jeito. Fiquei mais um pouco ainda. Depois fui pro carro dormir. Acordei o dia claro já, com barulho de sirenes. Uma ambulância do SAMU e uma viatura da polícia estacionaram na frente da balada. Tive um mal pressentimento.

            Corri lá pra ver. Foi horrível. Ninguém podia entrar. O pessoal do SAMU foi embora e só ficou a polícia. Grupos de gente conversavam sobre o ocorrido. Maior burburinho. Parecia que todo mundo tinha saído da balada, mas ninguém tinha ido embora.

            Perguntei prum segurança o que tinha acontecido. “Um rapaz teve um treco e caiu desfalecido no meio da pista”. Perguntei se ele sabia o nome do rapaz. Disse que não, que o negócio tava meio estranho…

            Testemunhas disseram que aparentava ter uns quarenta anos e usava uma camiseta amarela. Quando caiu na pista, abriu bem as mãos e os pés, como se fosse uma estrela do mar. Depois o corpo todo começou estilhaçar, parecendo de vidro. E os estilhaços se confundiram com as luzes do estrobo… e todo seu corpo se desintegrou numa explosão de luzes.

As pessoas que lá estavam juram até hoje de pé junto que foi isso que aconteceu. No chão só restou a camiseta amarela, que a Vânia reconheceu como pertencente ao Luiz. O caso foi investigado como desaparecimento. Prestei vários depoimentos. As câmeras da balada gravaram a nossa entrada. Depois somente a minha saída. E nada de Luiz. Passou uma reportagem no programa do Ratinho e depois nunca mais se tocou no assunto.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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