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De como um Dinamarquês soube tirar proveito da atual crise política do Brasil

… de modo que, vamos pensar pelo lado bom da coisa: a polarização político-ideológica fez rebrotar nossa estupidez ancestral….

            MEU AMIGO: – E isso é bom?

            EU: – Oxi! Como não? Pensa nas relações dos seres humanos entre si, entre humanos e mercadorias, entre humanos e natureza… estas relações não são mediadas por algum tipo de ilusão?

            MEU AMIGO: – É…. acho que sim….

            EU: – E esta ilusão não é deleitável?

            MEU AMIGO: – Muito! – não consigo imaginar o mundo sem ela….

            EU: – Consegue prever um mundo sem esse tipo de ilusão?

            MEU AMIGO: – Difícil…

            EU: – Pois é. E o que dizer se começarmos a olhar as pessoas do jeito que elas são fora e não dentro de nós?

            MEU AMIGO: – Vixe…. acredito que muito namoro e casamento irão ruir, sociedades inteiras deixarão de existir, supostas amizades, igrejas e partidos serão abandonados, patrões e patroas deixaram de ser admirados, padres, pastores e políticos morrerão sem que ninguém vá a seus velórios e enterros….

            EU: – E a atual “crise” não está prestando esse favorzinho pra gente? As pessoas não estão aparecendo cada vez mais coerentes consigo mesmas? Como eu andava te dizendo há um tempão, não estamos a anos-luz da Suécia, da Dinamarca ou da Finlândia?

            MEU AMIGO: – Sim. Agora parece que estou começando a te entender. Conte um pouco sobre seus estudos sobre os países do Norte europeu, pois ainda tenho fé de que….

            EU: – Claro. Como já tinha te falado, por motivos que não vêm ao caso serem arrolados aqui, nos últimos três ou quatro anos dei pra estudar a fundo a história da Dinamarca, da Suécia, da Noruega e da Finlândia. Não só a história, mas a filosofia, a literatura, a política, a pedagogia, a organização sociocultural, as ciências, as artes em geral, os costumes e por aí afora.

            Bom, não é prudente deixar você curioso, aliás não é bom deixar ninguém curioso hoje em dia: vamos lá; um dos motivos que me levaram a tais estudos foi a necessidade de trocar velhos vícios por novos.

            Troquei as horas que passava na internet assistindo pornografia, séries americanas, vídeos do porta dos fundos e similares, além de xeretar a vida dos outros no facebook… troquei tudo isso pelo estudo sistemático dos países do Norte europeu, o que logo se tornou um vício pra mim…

            MEU AMIGO: – O vício é a fraqueza dos fortes…

            Outro motivo para esse meu novo empreendimento surgiu como consequência do fato de estarem chegando por aqui, não sempre mas com certa regularidade, muitas reportagens sobre o avançado estado de desenvolvimento sócio-econômico destes países, algo que deveria ser tomado como um exemplo para o Brasil-sil-sil….

            MEU AMIGO: – Você é engraçado…

            Então decidi investigar os fundamentos que permitiram a estas nações alcançarem notas tão expressivas no IDH, bem como a possibilidade de estes fundamentos serem copidescados aqui por nós, pra ver se conseguimos dar um jeito nessa bodega.

            Umas das características que pude constatar ao longo das minhas investigações é que nestes países não existem safadões pra roubar a ideia alheia e ganhar dinheiro com isso. Neste ponto, somos uma nação diametralmente oposta àquelas, e por conta disso prefiro ficar na moita por enquanto acerca de minhas descobertas.

            MEU AMIGO: – Isso é prudente…

            Outra característica peculiar destas nações – da qual posso falar sem ser lesado em meu bolso –, especialmente da Dinamarca e da Finlândia, é o fato de haver nestes países uma distribuição praticamente equânime das possibilidades de acesso ao conhecimento, em todas as suas direções.

            Isso resultou num fato curioso: os indivíduos destes países não são nem muito excepcionais, nem muito desgraçados, no que diz respeito às manifestações da inteligência. As possibilidades de acesso aos bens do conhecimento, por serem igualmente partilhadas, resultou num nível de igualdade e bom senso bastante admiráveis para um sobrevivente da América Latina.

            Daí eu ter encontrado não muitos exemplares de grande genialidade nestes países e praticamente uma massa mediana (aristotelicamente falando) e satisfeita com o tipo de vida que levam.

            Nosso caso, aqui no Brasil, eu já tinha te falado sobre isso, é também de uma completa oposição. Aqui, ou o bicho pretende ser um grande gênio (sendo que alguns conseguem) ou torna-se um arquijumento – com todo o respeito a esse dócil animal.

            Não existe praticamente casos intermediários entre nós.

            MEU AMIGO: – Este foi o nosso ponto de discórdia…

            Sim. Este fato ficou um tanto quanto encoberto nos últimos anos, principalmente no final da era FHC e ao longo do governo do PT, com o crescimento considerável da economia, a ascensão da nova classe média, a consolidação da classe média tradicional que andava na corda bamba, além da melhoria, ou pelo menos da manutenção da boa vida dos mais abastados.

            De forma que, aquele bom senso que você acreditava que iria finalmente reinar entre nós, que poderia nos aproximar dos países do Norte europeu, não passava de um engodo, um truque mesmo que a massa da classe média e da elite sustentou por algum tempo unicamente pra afetar um conhecimento e um entendimento do mundo que na verdade nunca tiveram, e que nunca vão ter.

            MEU AMIGO: – Putz….

            Agora esses extremos estão voltando, meu amigo, com uma força tsunâmica. Muita gente posando de gênio e muito mais gente ainda ostentando sem a menor sem cerimônia sua arquijumentisse. Adeus, bom senso. Adeus, ilusão. A estupidez voltará a reinar em nossa pátria mãe gentil. E isso acredito que por anos a fio.

            MEU AMIGO: – É bom colocarmos nossas barbas de molho…

            Eu já coloquei a minha, pois fui vítima dum achaque e acabei fazendo bobagem.

            MEU AMIGO: – Jura?

            Te conto a coisa.

            Tem uma padaria muito da chique aqui perto de casa que vende uma broa de milho que é hors concours… e você sabe que eu troco qualquer iguaria da mais refinada que seja por um teco de broa de milho com café…

            Então fui lá domingo passado pela manhã comprar minha broa de milho, pra tomar meu café da manhã especial. Não tenho o costume de escolher as roupas que uso e pego a que está mais à mão, inclusive em ocasiões solenes, algo que resulta em admoestações por parte de minha companheira….

            MEU AMIGO: – Hahaha…. Acho que você já me falou sobre isso.

            Pois é. Quando estou lá junto ao balcão da padaria, esperando ser atendido, passa a meu lado um senhor de seus cinquenta e cinco anos, grave e circunspecto, com camiseta da seleção brasileira e na maior cara de pau do mundo comenta com o atendente “não sei como tem gente que ainda sai de casa com roupa vermelha depois de tudo isso que tá acontecendo com nosso país”.

            Só aí fui me dar conta de que eu estava com uma camiseta vermelha… e só depois fui tecer a rede de significados daquele comentário – camiseta_vermelha-PT-derrota_do_Aécio-lava_jato-Rede_Globo-Dilma-impeachment…

            Se eu fosse um dinamarquês ou um finlandês, o que que eu deveria fazer?

            MEU AMIGO: – Mandar um “passar bem” ao senhor e voltar pra sua casa com sua broa de milho…

            Isso!

            Só que não.

            Fui tomado de assalto pela estupidez.

            O cidadão me disse aquilo e saiu andando patrioticamente para sentar-se junto de sua família e tomar o café da manhã dominical, que não deve ter saído por menos de 200 reais, todos vestidos de verde e amarelo… acho que eles foram depois à passeata da Paulista…

            Então eu chamei um dos rapazes que atendem as mesas e disse pra ele: “tá vendo aquele senhor ali?, é meu patrão, e hoje é aniversário dele…” Então perguntei se ele não poderia me fazer a gentileza de “levar para meu patrãozinho uma deliciosa coxa creme.”

            Marquei a coxa em minha comanda e zarpei pra casa. Não quis ficar pra ver o resultado de minha insensatez. Digo que estou muito arrependido de ter me rebaixado tanto, além de ter torrado 11,50 numa coxinha….

            Saí da padaria meio puto da vida e aproveitei pra comprar umas maçãs na quitanda do dinamarquês, que é quem tá faturando horrores com essa crise toda.

            MEU AMIGO: – Que dinamarquês?

            EU: – Aquele que tem uma quitandinha na Cipriano Barata, do lado da Farmácia…

            MEU AMIGO: – Ah… o Alemão! Não sabia que ele é dinamarquês…

            Porra velho! Ele é um baita filósofo. O nome dele é Soren e veio pra cá com quinze anos. Os pais eram os donos da quitanda e depois que morreram ele assumiu. Ele deve ter por volta duns quarenta, converso muito com ele.

            Depois que contei pra ele sobre meus estudos, ele se afeiçoou muito por mim. Me deu vários livros, várias dicas de sites. Ele tem uma bela biblioteca lá. Além de ter confirmado minhas investigações sobre o caráter mediano do povo de lá. É um rapaz de muito bom senso, verdadeiramente.

            E foi por causa desse bom senso que a quitanda deixou de fechar. Pois não há comércio pequeno que resista a um Extra por perto. Soren observou que os ânimos começaram a se exaltar por aqui depois das últimas eleições presidenciais e que as ideias de pátria, nação, justiça, ordem e progresso estavam à flor da pele de alguns de seus clientes.

            E ele foi me contando a história dele e da revolução que aconteceu nos rumos da Quitanda…

            MEU AMIGO: – Poxa… quero saber dessa história!

            Um cidadão que era apenas um cliente avulso, que comprava uma coisinha ou outra emergencial, passou a frequentar a quitanda do Soren quase todo dia, depois que o dinamarquês colocou uma revista Veja lá numa bancada.

            Outro, também emergencial, encontrou com aquele um e juntos começaram a lascar o pau na ciclovia que foi construída ali. Chamaram Soren para opinar e em nome do bom senso ele não quis contradizer os caras, dizendo que a ciclofaixa “atrapalha as carros de estacionar, é ruim para as moradores da prédio...”

            Pronto. Os dois senhores fizeram-se clientes cativos. Soren percebeu que ali estava a chave para não fechar a quitanda. E começou a dar milho aos bodes. Além da Veja, Soren assinou a Época e o Estado de São Paulo, e sempre que se enfiava numa conversa não deixava de citar “segundo a Luis Felipe Pondé….”, ou “de acordo com a Reinalda Azevedo...” e, ainda “hoje pelo manhã, ouvindo a Marco Antonia Villa...”

            Em pouco tempo a Quitanda do Soren virou uma espécie de confraria política. Começou aparecer gente de tudo que é lado. O coitado teve que esticar o expediente, pois teve a brilhante ideia de abrir mais cedo, às 6h, e sintonizar o rádio na Jovem Pan, no programa Jornal da Manhã, e também passou a fechar mais tarde, pois coloca no rádio o programa Os Pingos nos Is, também da Jovem Pan, que vai das 18h às 19h.

            De modo que o rapaz está com dificuldades de suprir algumas demandas, tamanho afluxo de gente que tá indo lá…

            MEU AMIGO: – Que coisa, hein?… Bem que eu percebi o quanto aquela Quitanda tá movimentada….

            É, meu amigo, pra você ver só como são as coisas. Aquela velha história: é preciso criatividade pra contornar a crise. Meio que sem querer, acho que o Soren inventou uma nova lei econômica – mesmo que somente brasileira e válida apenas em nosso bairro.

            MEU AMIGO: – Que lei?

            EU: – Algo do tipo “O comerciante que der corda às inquietações políticas de seus clientes receberá em troca uma fidelidade canina”.

            MEU AMIGO: – Ele poderia ganhar o Nobel de economia…

            Acho que sim. Mas ele é muito mediano, não sonha com essas coisas. Agora se fosse um brasileiro…

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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