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Funeral de um estagiário

Certa vez participei de um evento muito bem conceituado, num dos melhores centros de convenções do Brasil, onde foram esmirilhado os rumos do empreendedorismo nacional, as profissões do futuro, com palestras ultramotivacionais e conferencistas super magnéticos.

            A coisa parecia de outro mundo, pra mim, que era um dos 90 seguranças do evento.

            Dos três dias de trampo, passei uma manhã inteira na parte interna do complexo, cuidando da porta do salão nobre, de nome J. D. Rockefeller. Ali pude acompanhar palestras de vários caras importantes – somente caras –, alguns americanos inclusive, falando sobre sucesso, riqueza, liderança... e das coisas desse mundo sobrenatural.

            Um desses caras disse que depois que a gente consegue ganhar nosso primeiro milhão de dólares, a coisa vai que vai....

            Mas a conferência que mais me impressionou foi a de um brasileiro, muito rico, de muito sucesso no mundo business. Disse a certa altura que os ricos são cada vez mais ricos no Brasil por que sabem lidar bem com as frustrações.

            Foi uma verdadeira aula de sabedoria. Afirmou categoricamente que os pobres, e mais ainda os miseráveis, não sabem crescer com as frustrações, por isso não saem do lugar, além de não serem educados para liderar e fazer fortuna, mas sim para lutarem pela assistência do governo e quando muito passarem em concursos ou conseguirem um emprego com carteira assinada.

            Fiquei pensando o que seria do Brasil se os pobres resolvessem querer fazer fortuna, pra valer...

            No final da conferência, o grande empresário de sucesso preparou uma big surpresa – um case, como eles diziam – dirigindo-se para frente do palco e falando:

            – Gostaria de aproveitar a ocasião e parabenizar os estagiários que estão conosco no grupo há mais de um ano.

            (Aplausos.)

            Pediu para que os rapazes – só havia rapazes – levantassem.

            (Mais aplausos.)

            Os estagiários estavam com aquele sorriso amarelo de quem é pego de calças curtas...

            O empresário conferencista anunciou, para mais surpresa, que um dos estagiários seria promovido, ali mesmo. E foi justamente o mais simplesinho deles, que havia pagado boa parte da faculdade com a grana que recebia como funcionário do McDonalds.

            O cara disse que o jovem teria muito futuro, que seria um líder de muito sucesso, pois sabia lidar com as frustrações e que, apesar de ser pobre e de ainda morar na periferia, tinha ambições de ganhar dinheiro e ficar muito rico, milionário, no mundo dos negócios.

            Chamou o jovem talento para subir ao palco e pediu mais uma salva de palmas.

            Nisso, entraram duas moças muito bem vestidas nos trajes sociais femininos e começaram a despir o rapaz, que, apesar da vergonha e do constrangimento, permaneceu lá e deixou a coisa rolar. Deixaram o estagiário só de cuecas, no meio do palco.

            Na sequência entrou um homem, alinhado como se fosse participar da festa de entrega do Oscar, e deu uma roupa para o jovem. O conferencista ajudou-o a se vestir, dizendo que aquele seria o novo traje que o jovem usaria na empresa.

            A roupa era gigante, umas dez vezes o número do estagiário, que ficou parado lá no meio do palco, parecendo um espantalho, e a plateia caiu numa gargalhada de show de stand up.

            O super empresário foi pedindo silêncio a todos, num movimento calculado que parecia perpetrar aquela situação. Foi lá e deu um abraço no rapaz, dizendo se sentir emocionado e aproveitando para fazer mais uma surpresa.

            – E, finalizando esta manhã inesquecível, principalmente para o nosso mais novo colaborador, gostaria de convidar a todos para se deleitarem com nosso convidado muito mais que especial: com vocês, Chico Buarque de Holanda!

            O Chico entrou, junto com um coro composto por vinte advogados que defendiam os interesses da corporação, sentou em seu banquinho, pegou o violão e começou cantar:

           

Este terno em que estais

            É sob medida

            Pra você aprender a crescer na vida

            "pra você aprender a crescer na vida" (coro dos advogados)

            Não é seu tamanho

            Mais largo e mais fundo

            É a parte que te cabe deste nosso mundo

            "é a parte que te cabe deste nosso mundo"

            Sei que é um pouco grande

            Pra tua medida

            É o terno que querias vestir um dia

            "é o terno que querias vestir um dia"

            É um terno grande

            Pra teu corpo enxuto

            E ficarás mais grave se fumar charuto

            "ficarás mais grave se fumar charuto"

            É um terno grande

            Pra teu corpinho magro

            Porém é só com ele que terás seu cargo

            "porém é só com ele que terás seu cargo"

            É um terno grande

            Pra teu corpo de mosca

            Mas pra terno dado não se abre a boca

            É o terno melhor que terás em vida

            É a parte que te cabe deste nosso grupo

            É o terno que querias vestir um dia

            Ficarás mais grave se fumar charuto

            Mas pra terno dado não se abre a boca...

           

O músico foi ovacionado. Saiu em comboio com o coro dos advogados. As luzes da ribalta foram acesas. Um burburinho enorme e crescente tomou conta da plateia. Foi preciso que alguns assistentes entrassem no palco pra retirar o rapaz, que parecia petrificado, ficando ainda mais parecido com um espantalho.

E eu fiquei pensando de mim para mim: "meu deus do céu, se for ter que passar por um negócio desses pra melhorar de vida, eu prefiro morrer trabalhando de segurança lá no mercadinho da vila, ou aderir a uma Revolução".

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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