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Notas antropológicas sobre o reino do Kaàphet

Existiu uma civilização, ao que tudo indica na América do Sul, que alguns pesquisadores denominaram de o grande Reino do Kaàphet. Tal nome parece fazer menção a um tipo de droga bastante utilizada pelos habitantes, com poderes estimulantes.

            Este reino era habitado por quatro clãs, cada um deles identificado por um animal totêmico, sendo o nome de cada animal metonimicamente trespassado para todos os componentes do clã. Eram eles: Lobo Guará, Arara Azul, Capivara e Tukhano.

            A estrutura de poder do reino era de base patriarcal, e as relações de parentesco, baseadas no casamento, só ocorriam no interior de cada clã.

            A sabedoria e as formas de dominação e autoridade do Reino do Kaàphet eram de monopólio dos mais velhos, que as herdavam de seus ancestrais, em obediência à cosmologia e aos princípios estabelecidos pelos heróis fundadores desta civilização, conhecidos como os terríveis Bandeiróthes.

            Um destes princípios estabeleceu a alternância do poder e do reinado de Kaàphet. Cada clã deveria governar por uma geração apenas e passar o trono para o clã subsequente, conforme a ordem estabelecida em sorteio pelos heróis fundadores: Porcão Tinha Dois Dente e seu capitão do mato, o bandeiróthe Sorta Gallo.

            Só que havia uma substância cultural muito peculiar em cada um dos clãs, que talvez não tenha sido observada pelos heróis fundadores, no momento de estabelecer os princípios de alternância do poder.

            Neste ponto, existem muitas divergências entre os pesquisadores. Uns apontam que o sorteio foi viciado, outros insistem na parcialidade de Porcão Tinha Dois Dente e do Sorta Gallo. A querela continua sem solução. O sorteio estabeleceu a seguinte ordem de alternância: Arara Azul, Capivara, Guará e Tukhano.

            O certo é que, por descuido ou por mutreta, a inobservância desta substância cultural resultou no fato de o clã Tukhano ter se eternizado no trono por mais de sete gerações!

            E o que era essa substância: de acordo com a cosmologia do grande reino do Kaàphet, cada clã deveria apresentar um tipo de comportamento, invariável e obrigatório, em todas as relações sociais, sejam elas familiares, entre amigos, políticas, guerreiras, no tempo do trabalho, do ócio etc., e isso no interior de cada clã e entre os demais.

            Ficou assim determinado que:

            Os membros do clã Guará só deveriam dizer sim, em toda e qualquer hipótese de contado.

            Os Arara Azul deveriam dizer não, sempre e sempre não.

            Os Capivara tinham por obrigação cosmológica sempre falar a verdade, sob qualquer condição.

            E aos Tukhano foi determinada a ancestral responsabilidade de sempre mentir, mentir e mentir para todo o sempre.

            De modo que tanto a estrutura linguística como a sociabilidade naquele reino eram as coisas mais complexas que a mente humana jamais criou novamente.

            Uma simples conversa entre um Arara Azul e um Guará constituía-se duma intrincada elaboração de frases, jogos de palavras, inversões de sentido, sempre conscientemente elaboradas para atingir determinado fim.

            Uma criança Guará, por exemplo, se quisesse usufruir do arco e flecha de um mulekote Arara Azul, dirigia-se a este mais ou menos nestes termos:

            CRIANÇA GUARÁ: Você é sempre proibido de emprestar seu arco e flecha?

            CRIANÇA ARARA AZUL: Não.

            CRIANÇA GUARÁ: E se eu pegar seu arco e flecha pra matar aquele Jacu ali você vai fica bravo e querer me bater?

            CRIANÇA ARARA AZUL: Não.

            E a coisa ia de simples inversões como estas até elaborações quase ininteligíveis para nós “modernos”, como aconteciam nas relações de conquista amorosa, no estabelecimento da divisão do trabalho, das tarefas do lar etc.

            Os Capivara sofriam bastante com a necessidade de sempre serem sinceros. Quase não se relacionavam com os demais clãs, e os casamentos e amizades via de regra duravam muito pouco tempo.

            Já os Tukhano eram os mais insondáveis e indeterminados seres que já existiram na face da terra.

            A necessidade ontológica de sempre dizerem a mentira fazia com que uma mulher Tukhano, por exemplo, utilizasse em média cerca de 600 nomes diferentes por semana, habitar em mais de 300 residências, ir ao rio pescar enquanto ia mesmo dar uma volta na floresta, fazer vigília quando na verdade ia dormir....

            Era simplesmente impossível para os demais clãs saber onde um Tukhano morava, se era casado, se tinha filhos, se estava indo ou se estava voltando. Até mesmo os próprios Tukhano viviam num eterno desconfiar de seus pares. Era uma grande comunidade onde ninguém sabia ao certo nada sobre ninguém.

            Dizem os pesquisadores que foi por causa desta substância que os Tukhano açambarcaram definitivamente o poder e o trono do grande reino do Kaàphet.

A cada geração que desaparecia, o último representante, normalmente o mais novo da geração, deveria passar o poder ao clã seguinte, na ordem do sorteio.

            Tudo tinha dado certo até o momento em que a geração do rei Tensó Labiá desapareceu, ficando a cargo do último representante Tukhano da geração, o príncipe Gógó Alekrim, passar o comando do reino para as mãos dos Arara Azul, para o ciclo de alternância do poder se reiniciar.

            A cerimônia era simples: O encarregado de passar o reino convocava os chefes dos demais clãs para um ritual. Todos sentados no chão assistiam à cerimônia, que ocorria numa espécie de palco.

            Quem passava o comando do reino deveria apenas se levantar do trono, oferecê-lo ao sucessor, fazer uma mesura e se dirigir para o convívio com os demais chefes de clã. Pronto.

            Gógó Alekrim cumpriu todo o ritual, levantou-se cerimoniosamente para passar o trono ao sucessor Arara Azul, o chefe Eithá Ki Thombasso. Quando o chefe Eithá foi se sentar, Gógó Alekrim deu uma volta por trás e puxou o trono. Eithá Ki Thombasso se espatifou no chão. Gógó Alekrim deu uma baita gargalhada e disse:

– Há, há, há, há... É mentira! Vou entregar trono coisa nenhuma!!

Os líderes do outros clãs, instigados por Eithá Ki Thombasso, tentaram se rebelar contra o golpe. Mas Gógó Alekrim já havia preparado tudo. Escolheu os melhores entre os melhores de seus guerreiros para 'abafar' qualquer tipo de reação. Surgiram de detrás das árvores com arcos, flechas e tacapes e exterminaram todos os chefes dos outros clãs, fazendo em seguida um grande churrascão antropofágico.

Sem os chefes, os clãs se viram desnorteados e rapidamente sucumbiram ante o jugo implacável do rei, que se autoproclamou Gógó Alekrim I.

            A vida no grande reino do Kaàphet piorou muito durante o reinado dos Tukhano. E quem reclamava levava tacape na cabeça. Todos os demais sucessores tiveram que adotar o nome de Gógó Alekrim.

No reinado de Gógó Alekrim IV houve uma tentativa de subversão por parte dos Arara Azul e dos Guará, pelo fato de a vida ter se tornado quase insuportável. Faltava peixe, os rios estavam secos, as árvores não davam frutos.

Gógó Alekrim IV, que era de temperamento pacífico, convocou alguns chefes dos outros clãs pra uma conversa. Perguntou ao chefe Arara Azul se era verdade que estavam faltando essas coisas, no que o chefe, em conformidade com sua substância cultural, foi obrigado a dizer não.

Em seguida perguntou para o chefe Guará, que disse sim, está faltando quase tudo. A dúvida se instaurou. Foi convocado o chefe Capivara que, ancorado na ancestral sinceridade, confirmou a quase miséria que toda a população do reino estava enfrentando e reclamou do tratamento dado para os descontentes, que apanhavam muito de tacape.

Gógó Alekrim IV reconfortou a todos, dizendo que não sabia de nada disso, mas que iria providenciar melhorias. Tudo mentira. Os três chefes foram emboscados numa vereda e assassinados a golpes de tacape.

O reinado dos Tukhano durou até a geração de Gógó Alekrim VIII, isso por conta de uma maldição de que eles desdenharam e que acharam que nunca iria acontecer.

            De acordo com a cosmologia do grande reino do Kaàphet, aquele clã que desobedecesse aos princípios estabelecidos pelos heróis fundadores seria acometido por uma maldição. Se chegassem ao oitavo imperador, este iria nascer sem nariz, e a cada mentira que contasse a napa iria crescer dois centímetros.

Quando aquele que viria a ser Gógó Alekrim VIII nasceu, todos estranharam aquele enorme buraco no lugar de seu nariz. Como a criança demorou muito para aprender a falar, e pelo fato de ter sido mantida escondida por conta daquele defeito, o menino demorou a aprender o princípio regulador de seu clã, a mentira.

Só se lembraram dele quando já tinha por volta de 20 anos, pois uma grave epidemia havia exterminado Gógó Alekrim VII, bem como os demais sucessores. Entronaram Gógó Alekrim VIII e o colocaram no convívio da civilização do reino.

Em menos de um ano o nariz de Gógó Alekrim VIII já estava com cerca de dois metros e meio. Evitava sair do palácio. Não aparecia em público, pois nas raras vezes em que assim o fez, as crianças rapidamente gritavam: Olha o tamanhão do nariz dele!!!

            Gógó Alekrim VIII recebeu a visita de um sábio Capivara, que lhe contou da maldição, dizendo que só havia uma solução para o nariz dele parar de crescer: abdicar do trono e empossar um Arara Azul, conforme deveria ter sido feito há oito gerações.

            Acreditando na sinceridade ancestral dos Capivara, Gógó Alekrim VIII aceitou a solução, com uma enorme dor no peito, pois havia se afeiçoado ao e gostado do poder, mas sabia também que chegaria uma hora em que não conseguiria mais ficar de pé por causa do tamanho do nariz, e isso o impediria de fazer muitas coisas.

            O ritual foi realizado. Mas, por questão de prudência, os demais clãs enviaram apenas crianças para o dia do entronamento. O trono foi passado para o príncipe-mirim Arara Azul, que se chamava Caahdé Merenddá.

O grande reino do Kaàphet passou a ser governado pelas crianças, e durante mais de uma geração foi só alegria. Até o dia da invasão dos terríveis NACIREMA, que envenenaram a todos com um estranho líquido negro e um negócio chamado Hambuguer.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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