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O Anjo-pilintra do capitalismo

O Théo me conhece há mais de vinte anos e é meu melhor amigo. Ele podia ser um grande escritor, pois passa 90% do dia pensando em coisas que não têm nenhuma serventia para a vida prática dos homens. Sabe o que se passa comigo só de bater o olho. Tomando café da manhã numa padoca um dia desses, quis logo saber o que tava pegando... de onde essa tristeza, meu amigo...?

            – Essa tristeza, Théo.... sei lá

            – É aquela de sempre?

            – Sim.... a de sempre. Engraçado, ontem tão bem, feliz, confiante, e hoje... infelizmente

            – Alguém deve ter travestido sua alma enquanto você dormia...

            – Travestido alma? Como assim, Théo?

            – Vou te explicar: eu tenho um amigo, trampa comigo na Justiça, acho que já te falei dele, o Belmiro, ele me contou certa vez que nossa alma veste roupas, e que as roupas de nossa alma condicionam nosso humor. Por exemplo: se acordamos e nossa alma veste roupas leves, coloridas, bermuda, regata, ou saia, shortinho, vestidinho florido – pois nossa alma não tem gênero, não é mesmo? –, se isso acontece, meu amigo, com certeza nosso humor vai estar bom, vivaz, sentiremos leveza e alegria ao longo do dia... entendeu? E isso independentemente das estações do ano.

            – Sei... acho que entendi. Então minha alma amanheceu ontem com sainha de frevo e shortinho da Carla Perez...

            – Isso mesmo. Acho que você entendeu! Mas tem um lance também nessa história. Às vezes , vem um Anjo-pilintra e saqueia o guarda-roupas de nossa alma e troca a roupa dela. Pode ser isso que aconteceu com você. Ele trocou sua sainha de frevo e shortinho da Carla Perez por um terno marrom, pesadão, comprado num sebo....

            – Que safadinho!

            – A coisa é muito séria, meu amigo. Não tem muito o que fazer, o pior é isso. O único remédio é ter consciência da roupa que nossa alma está vestindo no dia-a-dia e conviver de boa com isso. O Belmiro me disse que antigamente as trocas de roupa da alma eram feitas para fortalecer o caráter do indivíduo, colocando-o à prova em diversas condições de humor, mas que hoje muitos anjos foram corrompidos pelo capitalismo, praticamente todos, pois existe uma correlação positiva entre o estado de ânimo do indivíduo e o consumo. Se você tá alegre, compra-se na euforia; se triste está, compras para melhorar... e fez-se o círculo vicioso.

            – Eita... que viagem tudo isso. Esse Belmiro não é aquele que lê Karl Marx.. que votou na Dilma e no Haddad...?

            – É... ele mesmo... anda meio desiludido com a situação do partido...

            – Quem não está, não é mesmo?

            – A Marilena Açaí... O Chico Duarte..., parece que tão confiantes ainda... Mas o Belmiro parece que deu uma balançada.... mas ele é bom.... diz coisas muito interessantes...

            – Ele deve ser mesmo um cara interessante... um marxista que acredita em alma... espírito...

            – Não é um cara radical... e fala muito por metáforas também. Às vezes, não entendo muito as coisas que ele fala. Eu sou o único lá na repartição que dá trela pra ele. E essa variação constante no seu humor, meu amigo, pode ser que tenha a ver com o fato de você não ser consumista. Nunca conheci ninguém como você. Moramos cinco anos juntos e nunca vi você dizer "Olha, Théo, a camiseta que comprei..." Você só compra livro, e livro velho, de sebo...

            – Pode ser.... realmente, Théo, não me lembro da última vez em que comprei uma camiseta...

            – Pensa bem, meu amigo, suas roupas e bolsas são todas desbotadas, você não tem carro, casa, seu celular é 2G e tem mais de dez anos, seu computador é aquele trambolhão lá, que vai sair da sua casa direto pro museu da IBM, você assiste a filmes no vídeo-cassete, sua TV deve pesar umas três arrobas, você ouve vinil, e não porque tá na moda... vai lá no varal da sua casa e observa suas cuecas e meias... deve existir uma confraria de Anjos-pilintra, todos corrompidos, que fazem rodízio pra trocar a roupa de sua alma, esperando a comissão...

            – Putz... então, se o seu amigo Belmiro tiver razão... eu preciso fazer umas comprinhas....

            – É... talvez sim. Mas só em casos extremos, como naquela semana em que você andava pensando em suicídio e lendo aquele desgraçado do Augusto dos Anjos...

            – Bem, agora fiquei confuso... em todo caso, eu tenho um encontrinho hoje, com uma amiga que escreveu um conto e quer me mostrar.... não seria legal eu me apresentar nessa tristeza toda, não é mesmo? Precisava melhorar pelo menos um pouquinho. O que você acha que eu poderia comprar, Théo...?

            – Você pode ir à C&A comprar umas cuecas novas, meu amigo... vai que esse encontrinho vire um encontro amoroso....

            – Boa, Théo! Farei isso meu amigo!

            – Às compras cidadão!

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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