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O discurso de Jessé Thutan Calmon

O excelentíssimo senhor Jessé Thutan Calmon iniciou mais um dia de seu vigésimo oitavo mandato como senador da República com o mesmo vigor de sempre: passou todo o período da manhã em seu gabinete, apontando e desfazendo a ponta do lápis.

            É coisa que merece as 21 salvas de tiro de canhão. A história da contribuição deste homem para a grandeza da pátria ainda está por ser escrita. Ele mesmo já deu sinais de que em breve iniciará sua biografia, prevista para ser escrita em 76 volumes.

            A admiração pelo Senador Thutan Calmon só faz crescer a cada legislatura. Último representante vivo da vitoriosa geração que criou nos estados do Nordeste do país a chamada Confederação do Melaço, este homem viçoso ainda consegue comover a nação com seus discursos e análises conjeturais acuradas.

            Homem ilustrado, por que não, poeta segundo ele próprio, Thutan Calmon é membro da Academia Brasileira de Letras e escreve em cerca de 39 jornais, 14 revistas, 8 blogs, além de tascar na rede, diariamente, cerca de 116 tuitadas, sobre os mais variados assuntos.

            Os ensaios de Thutan Calmon, comentou esses dias o historiador Marco Antônio Villa, são “dignos de um Montaigne”, e não raro começam por um “Sthendal observou em….” ou “Montesquieu assegura que...”, ou ainda “Homero, Horácio, Virgílio, Dante e até mesmo Petrarca são uníssonos em nos ensinar que….”, e por ai vai.

            Convocado para discursar sobre a atual crise política que se abateu sobre o país, o Senador não se fez de rogado. Postou-se na tribuna e lançou um tsunâmi de luz sobre toda a classe política da nação.

            Dizem alguns analistas que após o discurso do Senador Jessé Thutan Calmon, comparável na História apenas ao “Discurso fúnebre de Péricles” e muito superior à “Defesa do Poeta Árquias” e às “Catilinárias”, o Brasil encontrará um remédio para seus males e um conforto para esta crise que tanto mal-estar nos vem causando.

            Quem ainda não teve oportunidade de assistir a tal discurso, segue-o na íntegra:

           

            POR QUEM SOMOS, COMO E QUANDO ERRAMOS, PARA ONDE VAMOS

            É mister iniciar estas palavras com a nunca enganadora lição da História! Pois Hegel já asseverara ser ela, a História, o grande tribunal da Humanidade… Somos uma nação de fibra, constituída por bravios homens de ideias avançadas que souberam conduzir um povo de sua minoridade ao estágio elevado da razão e do bom senso!

            Senhores, não desdenhemos nossa história! Neste grave momento em que nos encontramos, mais um em nossa cavalgada sempre infrene em direção a um futuro grandioso, neste grave momento eu dizia, não fujamos de nossa missão histórica de construirmos uma grande nação: justa, educada e sempre vencedora.

            Hora de unirmos forças e enfrentarmos estes fantasmas que nos amedrontam. Voltemos nossa fronte para o ontem, encaremos o hoje como Aquiles a Heitor, e projetemos no futuro a grande nação, que sempre fomos, mas teimamos em não admitir.

            Coragem, meus compatriotas, é o que vos peço. Esta coragem de vossos ancestrais, de vossos descobridores, de vossos bandeirantes e de vossos republicanos de 1889! É característico do brasileiro, infelizmente, o não saber o que fazer em momentos críticos e decisivos. Não raro e às vésperas duma resolução imprescindível, inadiável e restauradora, cai o cidadão adoecido, com graves intempéries estômaco-intestinais.

            Mais uma vez reitero, senhores, coragem!

            Assim, nobres compatriotas, encerro este meu simplório aparte evocando a figura daquele que nos trouxe a chama da liberdade, ainda na qualidade de Príncipe Regente Constitucional, e Defensor perpétuo do Reino do Brazil.

BRAZILEIROS

            “Está acabado o tempo de enganar os homens. Os Governos, que ainda querem fundar o seu poder sobre a pretendida ignorância dos Povos, ou sobre antigos erros e abusos, têm de ver o colosso da sua grandeza tombar da frágil base, sobre que se erguera outrora”. (Do Manifesto de Sua Alteza Real o Príncipe Regente dom Pedro de Alcântara de Bragança.)

            O Senador Jessé Thutan Calmon foi ovacionado por cerca de dezessete minutos, e o presidente do Senado teve que pedir um recesso de quarenta minutos para os homens da casa se recomporem.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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