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O ex-domador de circo

Quando criança, um circo foi montado num descampado perto de casa. Algumas semanas depois, o Piloto, meu cachorro e melhor amigo, sumiu, desapareceu... e outros cães da vizinhança também tiveram o mesmo destino.

            Surgiu a hipótese de que os donos do circo compravam cachorros para darem de comida aos leões. Depois disso declarei guerra implacável à arte do picadeiro e jurei pra mim mesmo que um dia hei de sozinho derrubar um circo!

            Poderia muito bem incendiar um, com um galão de gasolina e uma caixa de fósforos. Mas a minha índole naturalmente boa e inofensiva sempre colocou freios neste tipo de fita, que pode envolver a vida de inocentes e dos animais.

            Realizei alguns atentados esporádicos até mais ou menos o início de minha puberdade, fase que nos retira a inocência e a espontaneidade para com a vida e nos coloca na Roda Viva dos desejos e frustrações.

            Certa vez fiquei sabendo que tinha um circo montado no Guacuri e fui lá ver. Tinha mesmo. Então pensei que poderia, de cima do morro, arremessar umas pedras bem boas na lona, pra furar e ver o circo murchar. As pedras até que foram bem atiradas, mas a lona devolvia tudo e nem sequer arranhava. Voltei triste pra casa.

            Tentei o mesmo procedimento contra outro circo na Praia Grande, quando lá estive em férias. Aproveitei uma tempestade de verão e me aproximei do maldito, tasquei várias pedradas e nada. Voltei triste e encharcado pra casa.

            Houve mais algumas tentativas cujos resultados foram sempre os mesmos. Então compreendi que um circo eu não poderia sozinho derrubar e muito menos com pedradas, e que seria necessário outro plano. Mas daí vieram a puberdade e meu primeiro emprego, escola à noite e as domingueiras... de modo que meu projeto de derrubar sozinho um circo foi caindo no esquecimento.

            Dizem que a maturidade é o doloroso processo que consiste em arrancarmos de nossas entranhas os preconceitos e as fantasias criadas durante a juventude. E foi durante um carnaval, justamente quando eu tava fantasiado de mulher e ainda cheirando em meus 35 anos, que a ideia de derrubar o circo voltou a todo vapor.

            Justamente o carnaval, momento em que costumamos esquecer tudo: as dores e o trabalho principalmente. Os adultos viram crianças maliciosas e surge uma grande bandeira branca acenando e clamando por paz, segura pelas mãos invisíveis das Hostilidades da Vida.

            Então era carnaval, e eu andava pelas ruas do centro, quando uma carroça guiada por um catador de papelão parou antes da faixa pra eu atravessar, gesto de muita beleza que dificilmente encontro em lugares ditos civilizados de nossa cidade.

            Do lado oposto ao meu vinha um grupo de foliões, e um mais exaltado deles correu até o cavalo e lhe deu um beijo, dizendo "fiz igual ao Nietzsche!!", no que recebeu muitas palmas e ovações de seus coligados.

            O cavalo, assim como seu dono, ignoraram aquele rapaz, que tinha o aspecto de estar bem satisfeito com a vida e de sintetizar em si mesmo uma boa parte do pensamento de nosso Brasil atual.

            Estabeleceu-se entre mim e o catador de papelões uma relação ultra magnética, e sem pensar em nada eu perguntei "posso ir aí com você?". Apenas um aceno de cabeça. Subi. Ele chegou mais pro canto pra eu sentar.

            Em vez da tradicional chicotada, disse pro cavalo "vamos", e a carroça deslizou pela avenida São João em direção aos Campos Elíseos. Percebi que o homem, assim como eu, era de pouca conversa... então seguimos nossa viagem naquele silêncio das pessoas que se conhecem há décadas.

            Pra quebrar um pouco o gelo eu perguntei "o senhor não usa chicote?".

            Existem algumas perguntas que nos são feitas e que abrem todo o nosso ser. Tipo uma pergunta-chave-abra-te-sésamo, que os psicanalistas (os bons) só vão descobrir depois de três quatro anos martelando o paciente.

            O senhor desembestou a falar que não parava mais. Disse que foi domador, um dos melhores que existiram no país, que apareceu em muitos programas de TV, mas que caiu na desgraça depois que proibiram o uso de animais em circo.

Em nenhum momento se lastimou ou demonstrou piedade por si mesmo. Ao contrário, tomou um ar grandioso e falava tudo sempre com o olhar vago no horizonte, como que vendo tudo ali na sua frente, os seus momentos de glória, os aplausos...

            Então eu contei pra ele a minha história, o rapto de meu cachorro Piloto, no que ele confirmou ser verdadeira a história de alimentar as feras com cães e gatos. Disse ainda de meu desejo de derrubar um circo, mas sem tacar fogo, e que depois disso eu poderia morrer em paz.

            Riu o ex-domador da minha inocência, de atirar pedras para furar a lona. E contou que o circo é como uma instituição poderosa e, sendo assim, "tem que ser derrubado por dentro". Aconselhou que eu procurasse entrar para um circo, aprendesse a montar e desmontar um, para poder sabotar as estruturas e planejar um "acidente".

            Além de tudo, ainda me deu uma aula sobre circo tradicional e circo moderno. Explicou que não é mais necessário ser de família circense para conseguir trabalhar num, que bastava fazer muitos cursos, ou até faculdade, e ser perseverante na minha ideia.

            Todo esse aprendizado me foi passado com a carroça em movimento. Quando chegamos perto do Memorial da América Latina, o ex-domador avistou um monte de papelões numa calçada. Estacionou e desceu pra pegar. Desci também e ajudei. Mas não voltei pra carroça. Me despedi ali mesmo e agradeci o passeio e a conversa. Passava das quatro da manhã e logo a estação Barra Funda estaria aberta.

Voltei pra casa e já no outro dia comecei a pesquisar cursos de circo. Já fiz dois cursos livres de Clown e estou me preparando pro vestibular da Unesp, onde, depois que entrar, pretendo travar relações com o professor Mário Bolognesi, para daí me infiltrar em alguma companhia, nem que seja como engolidor de facas ou coisa do tipo.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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