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O lado belo da vida (História de uma quarta-feira de cinzas)

Quase ninguém sabe disso, que meu amigo Zorza perigou ser preso e respondeu processo por danos morais, materiais, agressão e mais umas coisas.

            Isso por que, normalmente, as pessoas que ousam existir de verdade, às vezes, são tomadas por criminosas, insanas, ferem demais a moralidade, pois quase nunca percebem que estão existindo pra valer, daí não modulam direito as ações.... e pagam caro por isso.

            Quanta coisa assombrosa nossa mente cria sem que a gente se dê conta!

            Zorza e eu, e mais dois coligados, morávamos numa república no Morro do Querosene. Ele tinha vindo do interior, pertencia a uma família com grana, muita grana, mas infelizmente resolveu fazer faculdade de Filosofia....

            A namorada dele veio também, mas para cursar Medicina, e os dois continuaram o namoro aqui em sampa: ela dentro da normalidade esperada, ele deslumbrado com tudo, a tudo se entregando até o último fio de cabelo.

            Podemos classificar o Zorza, tranquila e favoravelmente, como um inofensivo sonhador. E esta sua qualidade só se fez aguçar com o uso frequente do LSD, da literatura, do vinho e do haxixe. Tímido ao extremo, contemplativo, passava semanas amuado como um condenado à morte. Quando não menos, tomava resoluções de uma hora pra outra que deixavam todo mundo assustado.

            Tinha vez que passava dias na cama, mal comendo, enfurnado nos livros e na música, e de repente, plá, levantava, tomava um banho, se arrumava e só dizia:

            – Vou sair, tchau....

            E voltava dois três dias depois...

            Desconfiamos que tinha algo estranho com o Zorza quando ele começou a se fantasiar. Uma vez deixou o bigode igual ao do Salvador Dalí, outra feita passou um mês inteiro vestido de Werther.

            Percebendo que a coisa poderia não acabar muito bem, certo dia fui ao quarto de meu amigo, peguei o Dom Quixote e escondi... (algo de que me envergonho e me arrependo até hoje).

            A namorada do Zorza um dia veio até nossa república para conversar com a gente. Disse que estava preocupada com ele, que depois que vieram para São Paulo e principalmente após ter ingressado na faculdade de Filosofia o rapaz andava muito mudado.

            Concordamos com ela, embora tivéssemos salientado o fato de o Zorza ter um espírito muito inquieto, muito sensível para as coisas relacionadas com as artes, que não eram necessárias preocupações, pois o rapaz estava apenas expandindo sua grande sensibilidade no turbilhão da cidade grande. Cheguei a citar Lucien de Rubempré.... mas acho que foi meio em vão.

            Passou um tempo, e os pais do Zorza vieram também, com a intenção de levá-lo embora. Quando viram a condição do rapaz – barbudo, cabeludo, com roupas de cigano (conforme disse sua mãe), cogitaram até interná-lo. Nesta tarde saímos da república e deixamos a família tentando se resolver. A coisa parece que foi meio feia, acho que ele andou dizendo umas verdades para os pais... jamais voltou a tocar no assunto.

            Tenho quase certeza de que ele ficou muito irritado pelo fato de os pais terem colocado em dúvida a integridade de sua razão. Zorza se considerava na plena posse de suas faculdades mentais. Não sei por quê, mas eu acreditava nisso também, que não havia nada de errado com ele, a não ser um deslumbramento muito grande com toda essa vida nova que passou a conhecer e com a qual passou a se envolver tão visceralmente. Ao passo que, também, em meu foro mais íntimo, eu tinha um certo receio....

            Relembrando hoje essa história, percebo que o Zorza não pirou de verdade, mas que caiu na desgraça de conseguir penetrar nas camadas ultrarreais da realidade, passando a existir na plenitude da sinceridade. Fato que acabou sendo nefasto pra ele, num meio em que somos obrigados a viver na superficialidade da coisa e a mentir a todo momento para nós mesmos.

            Foi numa quarta-feira de cinzas, em 2006, há dez anos, portanto, que o Zorza existiu de vez. Passou o carnaval inteiro na cama, lendo Baudelaire. Achei que não poderia ser perigoso ele ficar nesse autor – o máximo que haveria de acontecer era querer arranjar um ópio, e nisso eu compartilharia com ele de boa e cuidaria dele durante o nosso transe, como fiz algumas vezes...

            Na tarde de cinzas, estávamos somente eu e o Zorza em casa, ele no quarto e eu assistindo a apuração dos votos do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Como de costume, começou a descer nossa rua um senhorzinho que vendia pão ali pelas ruas d morro, de bicicleta.

            – Ó o pããããoo..... ó o pããããoo.... ó o pããããoo!

            Zorza apareceu e me perguntou se eu queria pão. Tava com uma cara transtornada. Nunca tinha visto ele daquele jeito. Pressenti alguma coisa e resolvi ir lá fora com ele. Fiquei parado no portão enquanto ele e o velhinho do pão se resolviam.

            – Boa tarde meu patrão, quantos vai hoje?

            – O senhor só tem isso aqui?, velho cara de pau!, como pode o senhor me aparecer aqui, depois do carnaval, vendendo esse pão francês branco e essa bisnaga que não tem gosto de nada!

            Não entendi aquela agressividade do Zorza. Acho que foi a primeira vez na vida que levantou a voz pra alguém. Começou a examinar o cesto de pães, que ficava acoplado no guidão da bike, como se tivesse procurando alguma coisa.

            – Só esse pão sem graça! O senhor não tem bolo de chocolate? não tem bolo nenhum! língua de sogra, croissant, tortinha de limão, carolina, bomba, nem pão-de-queijo o senhor tem? nem sonho? O senhor vem aqui, seu cara de pau, depois do carnaval...! e não tem um mísero sonho pra gente saborear o lado belo da vida!

            Zorza parecia endemoninhado... começou a esbravejar e deu um baita empurrão no senhorzinho, que caiu no meio da rua. Enquanto eu fui ajudar o homem, Zorza pegou a bicicleta e a empurrou ladeira abaixo. A bichinha desceu uns cinquenta metros sozinha e se espatifou na lixeira. Foi pão pra todo lado. E ele, furioso, gritando pro vendedor de pães:

            – O lado belo da vida, seu cara de pau!! O lado belo da vida, seu corno de uma figa!!

            Agarrei o Zorza e o levei para dentro de casa. Enfiei ele no banho gelado. Acompanhei toda a transformação do homem. Aquela revolta toda foi saindo de seu corpo, e o bom Zorza, o inofensivo sonhador, reaparecendo aos poucos.

            Permaneceu mudo por alguns dias.

            Parece que alguém da vizinhança delatou o ocorrido para a polícia. Uma viatura policial militar apareceu lá na porta de casa umas oito da noite, junto com o senhor dos pães.

            Acompanhei-os para a delegacia. Disse quase tudo ao delegado, que felizmente compreendeu toda a situação. Aplicou toda a severidade da lei, mas não colocou meu bom amigo no xilindró.

Os pais do Zorza resolveram tudo em menos de um mês, pagaram todo o prejuízo e o levaram embora. Nunca mais tive notícias dele.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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