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Oração contra o Tempo feio

Acho que o Tempo mais arrebenta a gente. Ando desconfiado de que essa história “com o tempo adquirimos experiência, sabedoria etc.” é mais um item macabro deste nosso grande inimigo.

            E esse tempo feio que anda fazendo ultimamente desperta na gente um não sei que de tenebroso, melancólico e incongruente. Coisa que tende a desaparecer assim que o astro rei chegar. Hoje já me senti um pouco melhor.

            Mas de manhã, quando abri a janela, fui brindado pelo cinza chumbo e conduzido por um agente da polícia federal a depor minhas conjeturas sobre o Tempo, em sua forma não meteorológica.

            E em sua forma não meteorológica, o Tempo só pode ser bom, a meu ver, num único caso – para aqueles que encontraram um caminho na vida e o trilharam sem grandes sobressaltos, ou seja, para uma minoria minúscula de gente.

            Já para aqueles que de alguma forma se desiludiram ou fracassaram um momentinho após o sucesso lhes sorrir, nas palavras do poeta, “todas essas almas tumultuosas e fechadas em que ainda murmuram os últimos suspiros de uma tormenta”, o Tempo é o maior de todos os vilões.

            Existe um ponto no qual podemos igualar cartomantes, poetas e filósofos. É que em determinado momento de suas vidas, com a tal da experiência, eles e elas começam enxergar, numa batida de olhos, um grande amor desiludido, uma carreira frustrada, as mágoas de um filho ingrato, a traição de um amigo, tudo isso estampado no rosto dessa multidão anônima de arrasados pela vida.

            Muitos não estão preparados para enfrentar isso. E a primeira coisa que lhes vem à mente – já ouvi isso muitas vezes – é uma sensação de contentamento, uma autorreverência bem idiota, porque sem reflexão, que beira a satisfação da Vingança.

            Aquela que foi a rainha da escola, dona de uma beleza precoce, disputada pelos mais velhos e que pisava, maltratava e humilhava o menino pobre, fraco e invisível que ia pra escola de kichute e roupa comprada na feira.

            Agora está malacabada, precocemente deteriorada, com alguns dentes podres, fumando cigarro do Paraguai, e pra sobreviver montou uma banquinha pra vender bolo e café no ponto de ônibus. Os cabelos que esvoaçavam pelos corredores da escola e que deixavam o menino platônico estão desgrenhados, tingidos com sabe-se lá o quê. As tetas estão caídas, pois já amamentaram três filhos, cada um de um pai.

            Outro que era a autossuficiência encarnada, por ter jogado nas categorias de base do São Paulo e que certa vez se divertiu às custas do kichute do menino, numa roda de colegas, todo mundo rindo.

            Hoje tá arrasado, cara e pés inchados pelo uso constante da aguardente de péssima qualidade, morando de favor na casa da irmã. Foi visto caído na porta dum boteco e levado arrastado pra casa.

            E aquele, que oscilava entre a malandragem e o exemplo dos pais trabalhadores, ostentava marcas e minas, carros e motos, rechaçou o menino que queria apenas ficar sentado na roda, em volta da fogueira, ouvindo os malandros mais velhos narrando suas estórias. Tá trampando na feira, na barraca de tomates.

            O menino olha tudo isso com uma enorme tristeza, que não consegue explicar direito – talvez por culpa desse tempo feio, meteorologicamente falando. Às vezes não sobra nada, absolutamente nada daquilo que um dia tanto brilhou, como o sol que quase saiu hoje, nada de uma vida que parecia que iria ser, mas que não foi. Tempo feio.

            Parece que falta alguma coisa na desilusão dos pobres, envolta em desarmonia, num desarranjo que os tornam passiveis de piedade. Pois tudo ali é colocado às claras e piora com o frio e a garoa, silenciosamente suportados. Diferentemente dos ricos, para quem a desilusão ganha contornos e molduras, tudo fica modulado, harmônico e até deleitável, com cachecóis e roupas de grife.

            Deus todo poderoso, não me deixe cair em desilusão! Não me faça encarar esse monstro horrível que é o Tempo. Ou permita que eu fique rico antes.

            São Pedro que estais no céu, mande logo o sol de volta, pra que eu volte a pensar em coisas alegres, que de tristeza o mundo já tá cheio. Amém.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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