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Papai, como escreve impitimam?

Com a benção de meu padrinho Art(h)ur Azevedo

Estamos num teatro. A peça não estreou definitivamente. Acompanhamos apenas uma cena. É um ensaio aberto, ou, no léxico teatrês, abertura compartilhada do processo.

A cena se passa na sala de estar dum triplex, reproduzida mui fidedignamente pelo trabalho cenográfico. Um domingo. Verão. Temperatura agradável.

No palco está uma família tradicional brasileira

Papai,

Mamãe,

um Casal de filhos

e a Yorkshire Fanny.

Papai está na poltrona reclinável, soltando pequenos arrotos e peidando silenciosamente após a pizza com coca-cola, controle da TV na mão, pulando de canal em canal pra ver as reverberações da grande passeata ocorrida na Av. Paulista, da qual chegaram não fazia uma hora, exaustos, meio rocos, de tanto gritarem contra a presidente da república.

Mamãe está no whatsapp, conversando com as amigas sobre a atual situação política do país. Neste momento comentam a selfie de uma amiga, tirada junto a um troglodita da tropa de choque. Estão achando o militar um gato…

Filhinho está brincando com a Yorkshire Fanny, penteando e arrumando o lacinho verde e amarelo da cadelinha. Fanny é toda pensamento num Boston Terrier que cheirou o seu traseirinho durante a manifestação. Está apaixonada.

Filhinha no tablet. Na plataforma virtual de ensino do colégio. É estudiosa e curiosa. Sonha em ser astronauta.

Na sala reina uma paz de cemitério.

Filhinha ergue a cabeça à procura de Papai, que está na poltrona coçando o umbigo e cheirando o dedo. Então pergunta:

– Papai, como escreve impitimam?

Papai houve. Imediatamente fecha os olhos e finge que dorme.

Menina insiste:

– Papa-ai, como escreve impitiman?

Papai simula um pequeno ronco…

A pergunta toma conta da sala. Mamãe também não sabe. Então pula na frente e encurrala o marido.

– Amor, Clara Claridade tá te fazendo uma pergunta. Acorda, meu bem, daqui a pouco começa o Fantástico. Fala pra ela como escreve impitimam.

Papai não tem mais saída. Procura se mostrar meio enfezado por terem lhe interrompido o cochilo.

– Que saco! Não posso nem descansar em paz depois de um dia tão puxado! O que vocês querem?

– Clara Claridade te fez uma pergunta, amor…

– É, papai, eu quero saber como se escreve impitimã? Como é? Como é?

– Ai, ai… era só o que me faltava. Eu pago doze mil reais por mês de escola e você ainda não sabe como se escreve impitimam? Vou ter que ir lá conversar com o dono…

– Ué, papai… a professora de Filosofia disse que é uma virtude a gente saber que nada sabe…

– Ouviu isso, Ana? Eu não disse que esse negócio de Filosofia na escola é uma merda! Tão ensinando as crianças a serem estúpidas! Amanhã mesmo eu vou lá…

– Ai, amoreee… fala logo pra menina como escreve impitimam, vai, e para de ser chato!

– Fala você!

– Eu não, ela perguntou pra você…

– Claro, né, Ana, você não sabe como escreve…

– Tá bom! Não sei mesmo. E aposto que você também não…

– Há, há, há… faz-me rir. Você acha mesmo que eu não sei como se escreve impitimam…? Essa é boa. Eu sou um dos maiores empreendedores dessa cidade, minha filha… se esqueceu disso?

– Ai, amoreee… tá bom, vai, não vamos brigar. Lembra o que o Gikovate disse pra gente na nossa terapia de casal. “Não deixem uma fagulha virar um big bang...” Fala logo pra menina como se escreve impitimam e ponto final. Aliás, fala pra nós duas porque também não sei.

– Eu também não sei! – gritou o Apolinho, que deixou um pouco a Fanny com seus devaneios amorosos e direcionou a antena pra conversa que tomou conta da sala.

– Papai, se você não sabe tudo bem. A ignorância é uma virtude. Vamos procurar no Google, né?

– Puta que me pariu!! Amanhã mesmo eu vou àquela porra daquela escola! Que história é essa que a ignorância é uma virtude, menina? Quem tá ensinado essas coisas pra você?

– Amoreeee….

– Vocês estão é me tirando do sério, isso sim.

– É tão simples, amore, fala que você não sabe e a gente procura no Google…

– À puta que pariu vocês!! Vocês acham que sou um ignorante?

Neste momento, a cena é interrompida.

Um vídeo é projetado ao fundo.

Surge para a plateia ler uma frase de Aristóteles:

“Quando um homem pensa em algo passado, ele baixa os olhos para o chão; mas quando pensa no futuro, olha para os céus” (Aristóteles)

Papai não faz nem uma coisa nem outra. Fixa o olhar no horizonte, em direção à TV. Passa com furor pelos canais. Lembra-se de que nas manifestações do Rio, em Copabacana, estenderam uma gigantesca faixa onde estava escrito IMPEACHMENT JÁ. Seria sua salvação.

– Ai, amor, pra que tanto drama….

– É, papai, não fica bravo, não, que sua pressão sobe…

– Vocês me tiram do sério isso sim!

Papai levanta-se com raiva. Já tinha deslizado malandramente o celular para o bolso do calção. Foi para o banheiro. Bateu a porta com força. Sentou-se na privada e tacou no Google. Conseguiu decorar as letras, pois nisso de decorar as coisas ele é excepcional. Deu a descarga mesmo sem ter feito nada. Voltou pra sala. Colocou-se de pé, em frente de todos, como um profeta. E disso:

– Eu vou falar pra você, minha filha, como se escreve impitimam, e por favor não me encham mais o saco porque eu quero assistir ao Fantástico.

– Tá bom, papai!! EbaAA… o papai vai falar como escreve impitimam….

– Escreve ai: E – M – P – E – A – C – H – E – M – E – N – T.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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