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Primavera nos Dentes

Quando entrei na faculdade de Ciências Sociais da USP, lá pelos idos dos anos 2000, mal sabia ler e escrever, e mesmo assim fui convocado na sétima chamada da Fuvest, com o curso já andado em quase dois meses.

            Cheguei no meio das manifestações eleitorais que iriam decidir a nova gestão do Centro Acadêmico – o CEUPES – e só aos poucos fui entendendo o que se passava.

            Como percebi rapidamente que o ambiente era marcado por muita fofoca, intrigas de corredores e muita zépovinhação, preferi manter em sigilo o fato d'eu ser militar das forças armadas.

            Assistia de canto às assembleias estudantis e aos discursos que prometiam uma nova sociedade, em bases igualitárias, sem exploração do trabalho e livre de qualquer coerção, seja burocrática, de raça, credo, militar, sexual etc.

            Uma das chapas concorrentes me chamou a atenção pelo nome: PRIMAVERA NOS DENTES. O craft com esse nome rasgava a entrada do saguão da Sociais quase de ponta a ponta. Instintivamente aderi àquele grupo e decidi nele confiar meu voto.

            Considerei que me representavam pela ousadia brecht-maiakovskiana da parada. Usar o nome da pasta de dentes para a chapa! Me lembrei de quando eu trabalhava como office-boy lá na Cidade Dutra e recebia uma cesta básica, dentro da qual vinha uma pasta de dentes chamada Primavera, isso em 93, 94...

            Pasta horrorosa. Era cor-de-rosa e não fazia espuma, meio arenosa. Vinha dentro daqueles tubos de alumínio e parecia mais com pasta industrial, que os operários usam pra limpar a graxa das mãos.

            Usar o nome da pasta Primavera para batizar a chapa que lutaria pela mudança do mundo, com o proletariado na vanguarda, isso achei demais!! Era a plebe ali sendo representada no coração da coisa, poeticamente, sensivelmente, agressivamente...

            Obra do destino, um dos membros da chapa Primavera nos Dentes era da minha sala e com ele travei relações. Disse que iria votar neles e tal... que achei muito louco o nome que deram pra chapa...

            – Gostou, Alexandre?, que legal... é daquela música dos Secos & Molhados....

            – Ahhh.... achei que era da pasta de dente....

            – Pasta de dente? Não... é do Secos.....

            – Não conheço....

            – Não conhece o Secos & Molhados....? vixe...!! do Ney Matogrosso.....

            Envergonhado de minha indigência cultural decidi encaminhar para outro rumo a conversa. Terminada a aula, fui pra casa com aquela pulga atrás da orelha. Ney Matogrosso..... putz.... para as pessoas de minha condição o Ney era um viado com voz de mulher e que tinha várias música nas novelas....

            Confesso que foi um momento mágico esta descoberta, e isso por dois motivos principais: foi a primeira vez que usei o YouTube e que ouvi Secos & Molhados. Não digo que minha vida mudou aí, mas foi como se tivesse descoberto eu mesmo a teoria da mais-valia...

            Até hoje ando procurando esse vinil. Um dia hei de encontrar....

            Quanto às eleições... acabei votando na Primavera nos Destes mesmo, que não ganhou nada. Mas, como diz o poeta, de tudo fica um pouco. Eu fiquei triste por não ter sido a pasta de dentes o motivo de batismo da chapa.... mas também contente por ter dobrado um pouco minha ignorância e descoberto o Secos & Molhados, o Ney Matogrosso de verdade, que virou um dos meus intérpretes prediletos e, principalmente, por ter conhecido o poeta português João Apolinário.

            Hoje em dia passo a maior parte do meu tempo tentando inventar contra-molas que resistam ao centro das engrenagens que nos aprisionam, não vacilando mesmo derrotado, muitas vezes perdido, mas nunca desesperado... e mesmo quando decepado, envolto em tempestades, entre meus dentes eu rasgo a primavera... caçando consciência para ter coragem de saber que existo.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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