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Sou obrigado a tirar meu Chapéu pro Eduardo Cunha

Andava eu pelas imediações do Parque Dom Pedro nesta manhã de segunda-feira, observando aquela miséria toda que tem ali e pensando se aqueles cidadãos ainda conseguirão o dinheirinho pra comprar a corotinha deles, a pedrinha deles, se aquelas mães terão dinheiro pro pacotinho de Fofura e a garrafinha de suco X-Tapa que é o almoço das crianças...

            Será que o Temer vai garantir isso, meu deus? O churrasquinho de gato, a dose de 51, o mertiolate e as gazes pra curar as chagas das pernas carcomidas de feridas daquela pobre gente. Os camelôs continuarão com seus clientes?

            Eis que, de repente, quem eu vejo comprando na barraquinha de filmes pornôs: meu amigo Gastão! Corri lá, é claro!

            Me deu o caloroso abraço de sempre e não se mostrou embaraçado pelo flagrante. Fomos para uma lanchonete que tem ali em frente ao terminal PDP tomar nossa dose de conhaque e jogar um pouco de conversa fora.

            Muita sorte a minha ter encontrado o Gastão justamente no dia posterior à votação do processo de abertura de impeachment. Perguntei o que ele tinha achado da coisa toda.

            – Olha, Magrão, eu tava confiante na derrota dos golpistas... mas a Dilma demorou demais pra agir.

            – Verdade, Gastão. Lembra aquela vez que a gente se encontrou logo depois que o Cunha tinha vencido o Arlindo Canalha na presidência da Câmara?

            – Claro que lembro. E eu te disse, meu amigo, se a Dilma não se cuidar ela vai perder o Congresso. E o que ela fez? Engrossou com os caras. E foi pauta bomba, e votação de veto, e boicote...

            – Ela tinha que ter chamado o Lula ali, né?

            – Sem dúvidas! Quando o Arlindo Canalha perdeu, ela tinha que ter chamado o Lula imediatamente pro ministério! Agora não adianta chorar o leite derramado, meu velho.

            – Porra, Gastão, agora a gente tem que pressionar pra derrubar o Eduardo Cunha, né?

            – Vai ser uma pena se derrubarem o Cunha...

            – Como assim, Gastão? O cara é mais sujo que chão de chiqueiro!

            – Ele é um mestre. E os mestres nós devemos respeitar...

            – Tá de sacanagem, Gastão....

            – Que sacanagem? Andei estudando esse cara, Magrão. Ele é o melhor político que existe pra esse tipo de democracia em que a gente vive! Sou obrigado a tirar meu chapéu pro Eduardo Cunha...

            – Puta merda, Gastão, não tô acreditando nisso que você tá falando, toma mais um conhaque aí, vai...

            – Magrão, não há político melhor que o Cunha para uma democracia representativa que só serve para viabilizar os interesses do mercado e do neocolonialismo financeiro, vai por mim. Se tirarmos ele, daí a coisa dá merda de vez! Não existe outro melhor que ele na Câmara, nem de longe...

            – Caramba, Gastão, você tá falando sério?

            – Poxa vida, você já deveria saber que não brinco quando o assunto é política.

            – Verdade... mas eu acho que o Cunha deve ser caçado também, ele é corrupto!

            – Magrão, deixa eu tentar te explicar uma coisa: você já foi passar o fim de ano em alguma praia de São Paulo e deixou pra descer em cima da hora!

            – Vixe, faço isso quase todo ano. Ano passado demorei 13 hora pra chegar em Mongaguá.

            – Então, daí, suponhamos, você tá lá engarrafado na Imigrantes e de repente aparece um helicóptero e iça pras alturas o carro que tava justamente na tua frente. O que você vai fazer?

            – Vou andar alguns metros com meu carro...

            – E vai resolver alguma coisa?

            – Nada.

            – Então, meu velho! É isso que eu quero que você entenda. O problema não é o carro em sua individualidade, mas a estrutura toda que lhe dá suporte.

            – Hum... acho que tô te entendendo, meu amigo.

            – Você anda lendo os reacionários e os conservadores, meu amigo, como eu sempre te aconselhei?

            – Sim, sempre.

            – Então depois você dá uma olhada no Capitalismo, Socialismo e Democracia, do Schumpeter. Daí você vai entender por que o Eduardo Cunha é o suprassumo da nossa política atual. Sem ele as coisas aqui não vão andar, meu amigo!

            – Difícil engolir uma dessas, Gastão!

– Tudo foi feito pra isso, meu amigo, desde 1979. O povo acha que tá apitando alguma coisa. Mas não passa de uma cambada... entende? Tanto os prós quanto os contra o golpe.

– Vixe, Gastão. Lutar contra o golpe é lutar pela democracia... acho que você tá confundindo as coisas.

– Não tem golpe e não tem democracia, meu amigo. É tudo uma questão de coligação de forças. Você era criança, mas deve ter ouvido o nome de um dos líderes da redemocratização, Ulisses Guimarães, lembra dele? Tão safado que nem o corpo encontraram. Foi comido pelos tubarões. Pagou de opositor do regime militar, mas bem que tinha encabeçado a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, votou no Castello Branco e foi contra a Reforma Agrária e as demais reformas de base do Governo Jango.

            – Vixe Maria, o Doutor Ulisses? Minha mãe achava ele tão bom....

– O pior não é isso, meu amigo. O grande interlocutor político de FHC foi Antônio Carlos Magalhães, um ativo da ditadura. E no governo Lula, aparece como grande articulador o imortal José Sarney, um dos principais agentes do período de repressão, sem mencionar o infeliz aperto de mão com Paulo Maluf...

– O PT tava apostando todas suas fichas no PP, meu amigo, um partido que nasceu no intestino grosso da ditadura...

            – E agora tem esse tal de Bolsonaro...

            – Esse aí é uma criança levada. A gente só tem que ficar de olho pra não aprontar muito.

            – Que osso hein, Gastão? Quer dizer que o negócio é deixar o Cunha!?

            – Se quisermos continuar com esse tipo de democracia, sim. Agora, pra querer mudar alguma coisa, meu amigo, só existe um caminho.

            – E ainda tem caminho?

            – Opa, sempre tem. Temos que boicotar por completo as eleições. Ninguém vota mais. Pronto. É a coisa mais simples do mundo. Temos que causar um grande colapso na política representativa e começar do zero. Sabe o que acontece quando você não vota?

            – Tem que justificar, né? Senão vira crime.

            – Acontece absolutamente nada! Eu mesmo fiquei seis eleições sem votar e depois resolvi tudo em meia hora, com pouco mais de trinta reais. E meu título agora é novinho, e eu sou biometrado.

            – Jesus Cristo! Você não é desse mundo, Gastão.

            – Agora, se quisermos continuar com essa democracia que nós temos, daí temos que deixar o Cunha, o Temer e essa cambada aí. Porque eles que entendem desse riscado. São os melhores para este tipo de democracia.

            – Nem sei o que dizer, Gastão....

            – É bom não dizer nada. O silêncio hoje em dia é um ato de coragem também. Pensa bem nas próximas eleições. Veja se você quer continuar contribuindo com essa democracia ou se você quer partir pra derrubar a porra toda, sem violência, o que é sempre melhor!

            Saí do bar pensando nestas palavras do meu amigo Gastão. Olhei aquela multidão de miseráveis e pensei: o que eles têm a perder? O que eu tenho a perder? Será que votar na Erundina e nos vereadores do PSOL vai resolver alguma coisa?

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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