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Temos que começar pela bandeira e pelo hino!

Ontem fui à biblioteca Mário de Andrade entregar alguns livros e acabei encontrando meu amigo Gastão, contemplando a estátua de Camões que tem ali. Tenho muitos amigos de rua e que só encontro na rua, amigos que não sei onde moram, o que fazem da vida, se têm família… mas é uma grande alegria encontrá-los e jogar com eles uma meia hora de conversa fora.

            Conheci o Gastão quando era habitué da região baixo-augustina e de suas adjacências. Ele teve forte influência sobre minha formação intelectual, principalmente pelo fato de sempre me dizer pra ler os ultraconservadores e reacionários – Joseph de Maistre, Edmund Burke, Louis de Bonald e demais pensadores.

            “Conhecendo os conservadores e os reacionários”, ele me dizia, “você conseguirá adiantar a história em pelo menos uns trinta anos”. Esta foi uma lição muito importante, pois normalmente pensamos que os reaças estão apenas presos ao passado, e isso não é verdade.

            Convidei o Gastão para tomarmos um conhaque. Rapidamente caímos no assunto do momento e então perguntei o que ele tava achando dessa treta toda em que nosso país caiu. Ele me disse que nossas próximas duas décadas serão de muita tristeza e desalento para os pobres, para as minorias, os afrodescendentes e para todos aqueles que dependem do Estado para dar seus primeiros passos.

            Disse ainda que a operação Lava a Jato não vai passar o Brasil a limpo coisíssima nenhuma, e sim colocá-lo sob a tutela do que há de pior em nosso país, pois existe coisa ainda pior do que o PT, por incrível que pareça.

            – Mas o PT não foi um governo liberal e corrupto, Gastão?

            – Foi. Mas olhava para os dois lados. Agora teremos um governo que olhará apenas para a parte de cima da escala social. E isso é triste. E o pior é que não temos como voltar atrás dentro do jogo democrático.

            – E os escândalos de corrupção envolvendo o PT e o Lula?

            – São gravíssimos. Vai ser difícil o PT escapar dessa. Apesar de ainda não termos provas contra o Lula. Apenas indícios…

            – Tudo leva a crer que vei ter impeachment, não é mesmo?

            – Estamos caminhando firme pra isso. E, depois, vão cortar uma ou duas cabeças da oposição, a Lava a Jato vai minguando, minguando, e o Brasil será recolocado no trilho…

            – Espero que você esteja errado, Gastão!

            – Eu também…. Mas tudo está tão claro! Não sei por que as pessoas estão assustadas, dizendo que está tudo tão indefinido, tão sem saída… Você anda lendo os reacionários?

            – Um pouco. Tô meio sem tempo por causa do mestrado…

            – Como nós não temos vocação revolucionária, irão pipocar alguns protestos aqui, outros ali, tudo será esmagado como em Canudos, ou no Contestado, na ANL…

            – Deus que me livre, Gastão. A coisa tá tão feia assim? Você não vê nada que possa ser feito?

            – Sempre há um começo. Acredito que a missão histórica mais urgente que temos é a de destituir nossa bandeira e nosso hino nacional.

            – Eita! Mas não são nossos grandes símbolos pátrios?

            – São duas grandes farsas! Veja você, o cidadão de uma hora pra outra acorda de seu sono ancestral, se mobiliza em nome da democracia, do Brasil, vai pra rua, grita contra a corrupção, esbraveja contra a classe política e faz tudo isso enrolado na bandeira e cantando o hino! É ou não é ridículo isso?

            – Nunca pensei sobre isso…

            – Nós não podemos, meu amigo, sob o risco de passarmos por imbecis, por idiotas, idolatrar uma mentira, uma farsa. O que é a nossa bandeira? A união da casa de Bragança com a casa de Habsburgo, pensada pelo Teixeira Mendes, aquele xerox mal feito do Augusto Comte. Ordem e Progresso? Onde já se viu isso num país cujos traços culturas são irredutivelmente tupinambás!! Ordem pra quem anda a pé, Progresso pra quem veleja, isso, sim. Veja bem como o Império entrou em nossa República… da mesma forma que nossa ditadura entrou na democracia de 88… com Rede Globo, Sarney e ACM…

            – Caramba, Gastão!

            – E digo mais: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heroico o brado retumbante”… Que povo heroico meu amigo? Que brado retumbante? Que puta que pariu é essa? “Se o penhor dessa igualdade”… Igualdade? Onde você já viu igualdade por aqui? Meu cu pra tudo isso!

            – Eu já ouvi dizer, Gastão, que o hino nacional tinha que ser Asa Branca, e que nossa bandeira deveria ser a Bandeira de Minas Gerais….

            – Vá la que seja! Mas não podemos mais admitir esses símbolos mentirosos, meu amigo. Nossa história tem que ser passada a limpo também. Precisamos de uma revolução iconoclasta, como aquela do Leão III!

            Nessa altura de nossa conversa meu amigo Gastão já estava bastante exaltado. Preferi voltar pra casa e tomar nota dessas coisas interessantes que ele me disse. É um cara engraçado, gosto dele.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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