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Meu amigo Rafael Sonno Danado quase foi preso ontem, o que teria sido uma grande injustiça. Isso por que ele mais um coligado fumavam um cigarrinho de paçoca nas imediações da pracinha do jardim Miriam quando foram surpreendidos por uma viatura da PM.

            Inevitável enquadramento, imaginem só, ele ficou bem feio, não tiveram dó...

            O flagrante não tinha ido todo pra cuca, e Rafael Sonno Danado, mesmo tendo dispensado o restante do B.O., não contava com a sabedoria do policial que, como um cão farejador, encontrou uma respeitável guimba no meio do matagal.

            Com o flagrante em mãos, o policial se viu na obrigação legal de levar pra frente aquela bronca. Sacou da arma e mandou os dois erguerem os braços e encostarem na viatura, enquanto outro policial procedia na revista.

            Por azar, Rafael Sonno Danado tinha um parangolé na mochila, logo encontrado pelo policial faro-fino, que então perguntou:

            – E isso aqui, cidadão, o que é?

            Rafael Sonno Danado me contou que na hora teve vontade de falar pro policial "vai me dizer que o senhor não sabe?" Mas em vez disso preferiu seguir por um caminho pior: comunicou seu direito de permanecer calado...

            Raríssima a autoridade que consegue manter o equilíbrio mental quando sua autoridade é contestada, mesmo que legalmente contestada. Sonno Danado, que não podia contar com o "você sabe com quem está falando?", preferiu apelar para a Constituição...

            ... e recebeu um tabefe no meio da cara que o lançou na sarjeta.

            Outro policial, que até então tinha permanecido apenas na contenção, chegou perto da cena e desferiu dois chutaços nas costas de Rafael Sonno Danado, que gemeu...

            O policial perdigueiro seguiu então em diligência ao amigo de Sonno Danado, que se chama Maurício Matho Secco, e realizou os procedimentos legais. Tudo foi mais tranquilo em relação ao caso de Matho Secco, que não apelou nem para o "você sabe com quem está falando?", muito menos para a Constituição.

            Entregou seu RG de boa e, ao ser inquirido sobre profissão e moradia, disse que morava nos predinhos ali... e que era professor de História, o que não era verdade, mas se tivesse dito que estava desempregado e que morava no jardim Apurá, poderia sofrer algumas retaliações...

            Realizada com êxito esta primeira abordagem, os policiais optaram por algemar os dois meliantes e conduzi-los até o próximo DP. Rafael Sonno Danado ainda teve a ousadia de perguntar "estão prendendo a gente por quê?", já disposto a levar outra sabugada na cara.

            – Desacato à autoridade!

            Quando iam ser conduzidos para o interior da viatura, Maurício Matho Secco teve uma ideia inusitada. Decidiu lançar mão de outro mecanismo de defesa: nem o "você sabe com quem está falando?", nem a Constituição, levantou a cabeça e disse:

            – Mas vocês não podem prender a gente, NÓS SOMOS BRANCOS!

            Os três policiais se entreolharam, tentaram heroicamente mobilizar o escasso aparato intelectual de que dispunham, somaram os três farelinhos de inteligência surgidos às duras penas ali e decidiram liberar Maurício Matho Secco e Rafael Sonno Danado, que me contou toda a história hoje pela manhã, com vários hematomas na costela.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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