A+ A A-

A Educação após Bolsonaro

Semana passada fui até a EMEI Dom Pedro I pra falar com a coordenadora sobre umas fotos da formatura do meu filho e tal, que ainda não conseguimos pagar. Só que a mulher não chegava nunca… então resolvi dar uma volta pelo parquinho e mais uma vez chegar perto daquele gira-gira tão especial que tem lá, projetado por ninguém menos que Mário de Andrade.

            Logo avistei um rapaz que, sozinho, brincava no gira-gira. Quando me viu, agitou os braços e me chamou. Queria ajuda pra girar no brinquedo, muito enferrujado e pesadão. Deve ser alguém com algum tipo de deficiência intelectual, pensei. E minha intuição parece não ter saído completamente errada.

            – Você pode me ajudar aqui? Eu quero girar mais rápido, mas esse troço é muito duro…

            – É que é muito velho, né? Tem mais de oitenta anos…

            O rapaz espantou com a idade do brinquedo e quis saber como eu sabia. Contei que meu filho tinha estudado lá e que as professoras contaram a história da EMEI, a primeira da cidade de São Paulo, e que esse brinquedo foi projetado pelo escritor Mario de Andrade…

            – Verdade? O que escreveu o Macunaíma?

            A partir desse momento suspendi a suspeita sobre o problema psíquico de ordem biológica. O rapaz se expressava muito bem, e o fato de conhecer Mario de Andrade e o Macunaíma me fez sentar no gira-gira e seguir com ele na brincadeira.

            A quatro pés o trambolho começou a rodar mais. Passamos a conversar com mais naturalidade. Disse se chamar Imanuel e que tava esperando pra ver se a vaga dele iria ou não sair…

            – E vocês tão pagando escolinha enquanto a vaga não sai?

            – Como assim, escolinha?

            – Ué, pra criança. A vaga que você tá esperando não é pra sua criança?

            – Não! A vaga é pra mim mesmo.

            A suspeita sobre a deficiência tinha começado a voltar. Nossas pernas entraram numa sincronia boa e o gira-gira marioandradino rodava uma beleza. Perguntei como assim uma vaga pra você? Você vai trabalhar aqui, então?, é vaga de emprego…

            – Não, eu quero estudar aqui…

            – Você quer estudar aqui? Mas na sua idade você teria que procurar outra escola, não é? Uma que tenha EJA, sabe? Educação de Jovens e Adultos…

            – Eu sei, mas é que já sou formado…

            – Ahh… você já é formado…

            – Sim. E tenho faculdade também. Fiz direito na UNICROCS, mas não consigo passar no exame da OAB.

            – Eita… você é formado em Direito, então? Nunca ouvi falar dessa faculdade, é nova?

            – É. Tem uns dez anos, se tanto.

            – Nome meio estranho, não?

            – Verdade. É por que todo aluno que faz a matrícula ganha uma sandália Crocs de presente e a senha do wifi…

            Percebi que o gira-gira começava ganhar certa autonomia, tendo a gente apenas que fazer a manutenção da velocidade. Muito encabulado com o Imanuel e querendo saber cada vez mais da história toda. Enquanto girávamos em boa velocidade perguntei por que ele queria voltar pra EMEI.

            – Olha, meu amigo, você vai achar que eu sou louco. Tudo bem. Tá todo mundo achando isso. Eu não ligo. Mas o negócio é o seguinte: eu decidi voltar pra EMEI por causa da política.

            – Da política?

            – Sim, da política. Olha, pode achar que sou louco, tá? Não ligo mesmo. Mas o fato é que depois que assisti a votação do impeachment da presidente Dilma, acho que entrei em pane. E sabe o que eu fiz? Assisti pelo youtube aquela votação umas dez vezes seguidas! E sabe o que é pior? Eu continuo favorável ao impeachment. Então eu cheguei na seguinte conclusão: pode achar que sou louco, viu? Eu não ligo. A conclusão que eu cheguei é que se alguém que assistiu a votação, que acompanhou voto por voto os argumentos dos deputados a favor do impeachment e ainda assim continua favorável, esse alguém tem que urgentemente se matricular na EMEI mais próxima da sua casa e começar tudo de novo…

            – Caramba! Mas isso é muito radical. E você não vai conseguir estudar junto com as crianças…

            – Justamente isso que tô tentando, mas parece que tá muito difícil. A diretora já me permitiu de ficar aqui no parquinho. Mas não posso ir pra sala com as crianças…

            – Acho que vai ser difícil esse caminho… por que você não tenta outros meios?

            – Não dá. Eu sinto que tenho que começar tudo de novo. Mas também não sei se vai dar certo. Quero prestar mais atenção nas aulas de história desta vez. E eu tenho um mal ainda pior pra curar…

            – É mesmo? E qual que é?

            – Eu gosto do Bolsonaro…

            Imanuel fez esta confissão e baixou a cabeça, parecendo que muito envergonhado. Parou de empurrar com os pés o chão e o gira-gira foi perdendo força. Eu também fui parando aos poucos. Ficamos num silêncio por algum tempo. Somente o gemido das engrenagens enferrujadas do brinquedo falava.

            Também baixei minha cabeça. Então ficamos os dois parecendo crianças que dormem exaustas com a testa colada na mesinha da sala de aula.

            Neste momento começaram brotar palavras em minha mente. No começo eram apenas palavras, soltas, que davam piruetas e depois sumiam… Auschwitz…. Tortura…. Genocídio…. Ódio….

            Depois foram vindo alguns inícios de frases…. Depois frases…

            A barbárie continuará existindo….

            Enquanto existirem as condições fundamentais que geram essa regressão…

            É preciso buscar as raízes nos perseguidores e não nas vítimas assassinadas sob os pretextos mais mesquinhos…

            Eu me esforçava pra lembrar de quem eram as frases, pois sabia já ter lido em algum lugar… entre uma palavra e outra, ou antes de uma frase brotar, a carona raivosa do Bolsonaro surgia dando gargalhadas e espetando alfinetes embaixo das unhas da Maria do Rosário…

            E as frases giravam cada vez maiores…

            Quem ainda afirma que o ocorrido não foi tão grave já defende o que ocorreu…

            E seria capaz de assistir ou colaborar se tudo acontecesse de novo…

            Amanhã pode ser outro grupo que não os judeus…

            Os idosos…

            Os intelectuais…

            Ou simplesmente alguns grupos divergentes…

            O clima mais favorável a um tal ressurgimento é o nacionalismo ressurgente…

            É neste clima que os chamados movimentos de renovação são mais sujeitos a práticas sádicas…

            Comecei a ficar tonto e enjoado. Levantei a cabeça e vi que o Imanuel continuava com a dele abaixada. Será que dormiu? Será que chamo? Que sujeito é esse meu deus? Quer voltar pra EMEI e começar tudo de novo…

            O gira-gira foi parando e senti a necessidade de baixar a cabeça mais um pouco. Esforço danado pra saber de onde vinham aquelas frases…

            Hoje em dia é praticamente impossível a mudança dos pressupostos objetivos, sociais e políticos, que geraram Auschwitz…

            As tentativas de se contrapor à repetição desta barbárie são impelidas necessariamente para o lado subjetivo…

            – Vamos pra gangorra agora?

            Imanuel queria ir pra gangorra. Fiquei olhando aquele sujeito que já devia ter passado dos quarenta anos. Não é possível que ele seja absolutamente normal… pensei. Neste momento a coordenadora apareceu. Me despedi do rapaz e fui resolver o negócio das fotos.

            Pela janela da sala da coordenação eu o via brincando sozinho na gangorra. Perguntei o que eles pretendiam fazer com ele na EMEI e a moça disse que por enquanto ia deixando ele lá no parque, assim parava de encher o saco um pouco… e que já estavam acionando o serviço social do CRAS pra levarem ele internado pra algum hospício.

            Queria muito voltar lá e continuar a conversa com o Imanuel, agora na gangorra. Mas tive que voltar pra casa e no caminho fui pensando nesta insólita viagem. Desejoso do fundo do meu coração que o projeto dele fosse coberto de sucesso. Nessa altura já deve estar em algum manicômio. Coitado. Que infelicidade ter uma overdose dessas de consciência numa época como a nossa.

            No caminho pra casa lembrei que as frases que brotaram na minha cabeça são do Adorno, da Educação após Auschwitz e que surgiram não por acaso. Vieram me alertar contra meu espírito de confiança na autoridade. Que as formas autoritárias e destrutivas que fazem parte imanente de nossa história estão circulando por aí a todo vapor.

            Cheguei em casa e me submeti a uma operação de masoquismo. Reassisti na íntegra a votação do impeachment na Câmara, com especial atenção ao discurso do deputado Jair Bolsonaro.

            A conclusão a que cheguei é a de que o Ismael muito provavelmente não vai ter sucesso em sua empreitada, mesmo se conseguir se matricular na EMEI e refazer todo o caminho novamente. Isso porque ando suspeitando que nossa educação ainda não é capaz de construir uma sociedade na qual experiências como o Bolsonaro e a votação do impeachment na Câmara não se repitam nunca mais em nossa história.

            Pelo lado subjetivo, pelo menos, ele deu um passo importante. Se encontrá-lo novamente vou sugerir que ele escreva um livro de memórias.

Avalie este item
(4 votos)
Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

voltar ao topo