A+ A A-

Vida e Machadada

O mistério das cousas, onde está ele?

Onde está ele que não aparece

Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

Alberto Caeiro

            Todas as gentes – e eu também – só se perguntávamos uma única coisa: o que será que deu na cabeça dele? Ainda hoje é difícil acreditar nessa encalacrada em que o Carlinhos foi se meter. Como assim, virar escritor da noite pro dia?

O grande Carlos Ferrão. Um prodígio nas artes marciais. Um metro e noventa de altura e 90 quilos distribuídos pelo corpo de musculatura bem definida. Pressão arterial 12 x 8, batimentos cardíacos na média dos 70 por minuto. Sem colesterol alto, triglicérides bom, nem dor de cabeça tinha. Nenhuma doença crônica. Sem alergias. Nenhuma grande amargura na vida.

A luta contra o lendário lutador Polifemo, no inesquecível campeonato de MMA disputado em Las Vegas, entrou para o rol dos combates épicos de todos os tempos. Não só o cinturão dos pesados, mas a glória e todo um mundo de prazeres parecia estar ali, aos pés do fenômeno, que contava apenas 22 anos de idade.

Eu, é claro, sentia enorme prazer em conhecer o mito. Estudamos juntos no colegial. Com dezoito anos, eu fui para o exército, e o Carlinhos mergulhou de cabeça no jiu-jitsu. Nunca mais nos vimos. A primeira vez que o vi na TV, durante um evento de MMA, e a enorme surra que dera num oponente mexicano, me fizeram recordar das inúmeras vezes que me dizia – você vai ver, Ratão, eu vou ser o maior lutador do mundo!

            Nunca imaginei aconteceria tão depressa. Passei a meditar no mundo em que Carlinhos mergulhou. Idolatrado, respeitado, paparicado pela mídia mundial, milionário e temido pelos adversários.

            Reencontrei fotos em que aparecíamos juntos e mostrei pra geral. Nos encontros com os colegas de escola o assunto não era outro. E eu só pensava em uma coisa: como eu gostaria de rever meu amigo e dizer-lhe olhando nos olhos: aê Carlinhos, você chegou lá, meu irmão!

* * * * *          

            Como explicar que o multiardiloso Ferrão foi perdendo o interesse pelas lutas, assim, prematuramente; e mais: no momento exato em que guindou-se ao patamar último das artes marciais mistas. Ninguém entendia nada. Acho que nem ele.

            Duma hora pra outra decidiu não lutar mais. E parou definitivamente aos 23 anos. Após derrotar, em menos de 13 segundos, o gigante russo Zanguieff, o mito brasileiro do MMA, o excelente Carlos Ferrão, anunciou em entrevista coletiva que não mais lutaria, colocando a disposição o cinturão.

            Muitos acreditaram ser jogada de marketing, outros que o mito descobrira doença gravíssima, outros ainda buscavam em vão explicações do próprio campeão, que respondia apenas não ter respostas claras para sua decisão.

            Após o abando no das lutas Ferrão começou a ser visto, e isso com certa regularidade, nas principais livrarias espalhadas pelo país. Como ainda carregava fama e glória aparentemente imperecíveis, logo se via cercado por admiradores, distribuía autógrafos, e não gostava quando tocavam no assunto lutas, tirando onda com quem lhe perguntasse sobre tal questão, e mais ainda com repórteres e paparazzis:

            – Perguntem qual livro estou lendo…

            Maior incomodo causou aos que insistiam em cuidar de sua vida pós ringues o fato de Carlos Ferrão ter passado a frequentar alguns cursos de escrita criativa, participar de oficinas literárias no SESC e a ler alguns livros de vez em quando.

            Retirou do site todos os anúncios de complementos alimentares, patrocinadores, academias, materiais esportivos e tudo o mais que lembrasse a antiga vida. No lugar dos vídeos, matérias de jornais e revistas em que frequentemente saia com os punhos erguidos pelos juízes, passou a publicar pequenas composições de teor aliteratado.

            Dizia ter virado poeta.

            * * * * *

            Em menos de um ano desta completa e radical virada em sua vida, a glória, aparentemente imperecível, sumiu de vez. Barbudo, meio mulambento, fumando, o corpo de Ferrão passou a definhar visivelmente. Não era mais reconhecido por ninguém. A saúde, antes de ferro, passou a lata. À menor mudança climática, à menor baixa da umidade relativa do ar, um golpe de vento mal apanhado mandavam o ex-campeão pra lona.

            Aprendeu a beber. O fígado, desacostumado ao álcool, gritava contra o exagero.

            Apaixonou-se por artesanato. Mais precisamente pela marcenaria. Prática que considerava um complemento à poesia. Como poeta e marceneiro, Ferrão acreditou ter encontrado o verdadeiro sentido da vida.

            Poeta em início de carreira, Ferrão buscava inspiração exógena a si mesmo. Primeiro no álcool. Durante os primeiros anos de criação poética o ex-campeão considerou o estado de embriagues um caminho para decifrar enigmas universais e um estímulo ao corte simétrico e preciso da madeira, ao bom uso da lixa, da cola e do martelo. Mais tarde apareceram alguns problemas gastroepáticos que puseram fim à inspiração alcoólica.

            No entanto, as poesias se faziam necessárias. Ferrão acreditava que a humanidade estava adoecida e aborrecida. Suas poesias poderiam remediá-la e para isso o corte da madeira não poderia cessar.

            Mudou do álcool para os psicotrópicos por incentivo de uma amiga que escrevia alguns contos. Época de grandes e ousadas poesias. Trabalhos na madeira bem elaborados. Entalhava agora. Recitava em saraus. Eram horríveis poesias, mas todos cumprimentavam, aplaudiam com entusiasmo, diziam bem, que tinha futuro e que estava no caminho certo e tal, talvez pelo temor ao ex-campeão mundial de MMA.

            Ferrão acreditava que quando viesse a ser um autor conhecido como o fora pelo esporte, a humanidade encontraria através de sua poesia a paz. Além de boas e bem acabadas cadeiras para repousar, camas para o sono justo.

            O exagero novamente o pôs doente. Alucinações, pânico, dores na alma. A poesia minguou junto ao corpo do ex-campeão. O trabalho com a madeira quase extinguiu.

            Ferrão pensou que tudo estava perdido. Estava nessa época com 73 quilos e, pior, completamente ignorado pelo público. Pela segunda vez havia tomado o caminho errado?

            Voltou a treinar. Academia. Marcou luta. Tomou uma sova. Mordeu a orelha do adversário. Deprê profunda. Psicoterapia.

            No consultório levava poesias para a analista. Onde poderia reencontrar inspiração? A analista aconselhou longas caminhadas. Ferrão sempre exagerado caminhou 18 quilômetros no dia seguinte.

* * * * *

            Pleno inverno.

            A escrivaninha de Ferrão havia desaparecido da noite pro dia. Morava numa velha casa adquirida ao velejador Amyr Klink, entalhada na Ilha de Paraty, cujo acesso só poderia ser realizado de barco. Boa parte dos recursos do ex-campeão foram investidos neste pequeno paraíso, onde montou sua biblioteca. Dali sairia sua grande obra, não tinha dúvidas disso.

            Quando se deparou que não tinha escrivaninha para escrever, Ferrão não pensou duas vezes. Vou construir uma. Foi até o quintal, mas não encontrou madeira para sua empresa. Não tem problema. Pegou um machado que havia no porão, prendeu nas extremidades do cabo um sisal e foi buscar madeira numa mata onde era facultado o direito de comprar alguns troncos nobres. Construiria pessoalmente outra escrivaninha.

            Na entrada da mata uma fila imensa. Ferrão aguardou na fila por dois dias até que recebeu senha e autorização para derrubar um eucalipto. Ficou durante todo esse tempo em pé, como uma sentinela, o machado trespassando às costas como uma espada. Voltou pra casa arrastando o tronco. Atrapalhando um pouco a enorme quantidade de gente que circulava pelas ruas de paralelepípedo da bela cidade, turistas ávidos por literatura, pois acontecia ali a famosa festa literária de Paraty.

            Teve que contratar um barco maior para fazer a travessia do tronco. Ferrão, abraçado à enorme tora, sentia vertigens e dores nas pernas. De repente lhe brota na mente o princípio poema:

Jesus com sua Cruz

Eu com meu Eucalipto

A Humanidade

            A inspiração o havia tomado de assalto. Ele sentiu. Vinda da fome, da sede, da dor, do cansaço. Sentiu como nos tempos áureos. Conseguiu subir o eucalipto pra casa. No fundo do quintal encontrou restos de ripas. Serrou por trinta horas ininterruptas o tronco. Refez a escrivaninha. Mas a cadeira de pinus havia desaparecido, misteriosamente.

            Novamente se dirigiu à mata. Machado às costas. Teve que pegar a fila dos reincidentes. Quatro dias. Na volta, a cidade já estava calma. Chovia muito. A grande festa literária tinha acabado. O grande fetiche do livro havia passado pelas barbas do ex-campeão sem que este se desse conta. Durante a travessia, faltando pouco para chegar a sua casa, sentiu novamente…. a inspiração

                        Noé com sua Arca

                        Eu com meu Eucalipto

                        A Humanidade

            No dia seguinte caiu enfermo. Forte pneumonia. Estava com 67 quilos.

            As coisas em casa não paravam de desaparecer. Mal havia terminado a nova escrivaninha e a cadeira, ambas sumiram novamente. Necessitava de mais eucaliptos. Pelo menos uma vez na semana, Ferrão ia até a mata. Jejuava. Arrastava o eucalipto pela cidade. Sentia. Trabalhava na madeira. Iniciava poemas…

            O trabalho na madeira não ganhou em força, como antes, mas em beleza. Voltou a entalhar e iniciou algumas esculturas. A poesia surgia sempre no limite das forças físicas. Turvada pela sensação de fome e pelas dores, não ganhava forma. Era um eterno princípio…

* * * * *

            Depois da temporada e do fracasso em Paraty, decidiu vender a casa e mudar-se para um apartamento em Perdizes. A única coisa que carregou consigo foram os livros e o machado.

            Nesta manhã, Ferrão não quis se levantar. Raras vezes era assaltado pela preguiça. Levou um baita susto quando não viu o guarda roupas. Nem cama. Estava dormindo com o colchão no chão. A janela desaparecera. A porta do quarto, os batentes. Tudo o que era de madeira no quarto sumiu. Saiu espavorido. A estante, a armação do sofá, a mesa de jantar, o armário da copa, tudo. Na cozinha, grande desaparecimento: mesa, as cadeiras, os armários, as molduras dos quadros. Todos os objetos antes guardados nestes móveis pareciam cuidadosamente alocados no chão.

            – meu Deus, vou precisar de uns quinze eucaliptos!!

            À cata duma calça no monte de roupas, Ferrão tateou algo rígido, gelado. Era um Smith & Wesson .45 que o ex-morador do Ap., um major aposentado da PM, guardava no forro do guarda roupas e que talvez tenha se esquecido completamente, por causa do Alzheimer. Uma Sensação de horror subiu pelo braço do ex-campeão e foi se abrigar em seu peito.

            Encontrou mais dois pentes carregados. Muqueou tudo debaixo das roupas. Procurou dinheiro para comer alguma coisa antes de ir para alguma reserva legal arranjar alguns eucaliptos. Ferrão não se deu conta de que tinha parado de ganhar dinheiro há anos. A conta no banco estava liquidada. Os últimos centavos ele havia dado a um morador de rua.

            Sabendo das dificuldades que poderiam sobrevir, Ferrão já se preparava para vender alguns móveis que ia fazendo por modalidade de hobby: Mas, se tudo desapareceu?

            Não importa. Ferrão decidiu partir assim mesmo. Se encontrasse alguma galinha ou coelho na mata destroçaria nos dentes, como um lobo. Machado às costas, saiu. Conseguiu uma senha pra daí dois dias na reserva florestal da empresa Melhoramentos, em Caieiras. Estava resoluto em voltar com dois, três enormes eucaliptos de uma só vez.

Muitos funcionários largaram seus afazeres depois de espalhado o zum zum zum de que tinha um farrapo de gente derrubando uma árvore com machado. Quem via custava acreditar na destreza e força daquele magricela no manuseio da ferramenta.

Ferrão saiu da reserva com um tronco bem pequeno. Mal daria para fazer algumas gavetas. E arrastava desanimado o eucalipto pela via Anhanguera. Muitos ciclistas paravam para conversar com ele. Era domingo. Entrou pela marginal Tietê e seguiu errante pelas ruas da cidade. Foi dar na avenida Paulista. Acabou surpreendido por um grupo de jovens em manifestação. Era dia do abraço. Uma menina chegou perto de Ferrão perguntando se poderia lhe dar um abraço. Ferrão soltou o eucalipto e disse:

            – que diferença faz?

            O abraço não foi suficiente para convencê-lo de alguma coisa. Menos ainda para se recuperar da ausência. Novamente a andar.

            A permanência ali em meio àquela gente aparentemente feliz e sem preocupações, que se propunha distribuir abraços, colocou Ferrão em contradição gradativa com a imagem que havia forjado de uma humanidade aborrecida. Seu otimismo pela primeira vez vacilou. Estava no minguar das forças físicas e nenhuma inspiração. Por duas vezes pensou abandonar o eucalipto.

será que a fonte secou?

            Um velho morador de rua estendido na calçada deixava pender pela mão uma nota velha de cinco reais. Ferrão se aproximou do homem. Pegou o dinheiro. Deixou lá o eucalipto e o machado. Decidiu ir para casa de metrô.

            Na estação pensava em como a cidade tinha crescido nos últimos dez anos sem que tivesse percebido. Olhava com desconfiança a arbitrariedade das coisas. Elas que passaram a mandar. Comprou o passe numa máquina que lhe devolveu o troco em moedas novas e reluzentes. Ferrão pensou em levá-las ao mendigo.

pelo menos o coitado pode tomar uma pinga.

            Voltando pelo mesmo caminho donde viera, não percebeu a arbitrariedade da escada rolante que só descia. Começou subir sem subir. Indiferente à moção de repulsa que alguns olhares imprimiam no sentido contrário ao seu. E ficou naquele permanente sobe sem subir por minutos.

            Passado algum tempo daquela subida sem subir, Ferrão foi advertido por um funcionário do metrô, que não era permitida essa espécie de brincadeira nas estações.

por favor, senhor; queira descer por gentileza, o senhor esta atrapalhando o deslocamento das pessoas.

            O tom de suave agressividade do segurança, ao segurar no braço de Ferrão, despertou nele algo que parecia desaparecido. Com o mesmo braço preso pelo segurança aplicou-lhe uma chave fazendo o coitado do urubu ajoelhar. Outro segurança observando a cena veio em socorro do parceiro e recebeu um violentíssimo chute na parte interna da cocha, caiu chorando.

            As pessoas olhavam incrédulas aquele farrapo de gente derrubar dois seguranças do metrô com tamanha facilidade. Estava com 54 quilos. Ferrão se retirou do metrô às pressas e ganhou a rua. Esperou escurecer para voltar a casa.

            Acabou dormindo numa praça.

* * * * *

            Foi acordado por uma briga de cães. Ferrão conseguiu frear um impulso que o colocaria no embate canino.

eu sou mais adestrado que eles.

            Bem antes de chegar em casa, Ferrão sentiu algumas inquietações na alma. Pensou em sua primeira namorada. Nos pais que a tanto não via. Nos irmãos. Na época áurea dos ringues. Nas primeiras poesias. No curso de marcenaria. Mas o silêncio da cidade ia sendo interrompido pelo som dos carros, dos ônibus, caminhões. Ferrão queria chegar em casa logo. Estava ansioso após a briga no metrô. Queria escrever um conto.

escrevo no chão mesmo, não importa.

            E dessa forma caminhou como um atleta em marcha olímpica. Nem sentiu os cerca quatro quilômetros de distância até seu Ap. Numa resolução de Espartacus chegou no prédio e rapidamente subiu correndo os oito andares até seu apartamento.

cadê o lápis meu deus?, cadê papel?

            O Escritor, não havia se dado conta de que lápis e papel eram derivados da madeira. Ferrão não usava caneta. Entrou em estado de desespero. Revirou toda a casa em busca de caneta. Nada. Jogando desenfreadas roupas pra cima visualiza o Smith & Wesson .45. Ferrão pegou aquele ferro na mão e pensou:

pelo bem da humanidade, eu vou.

* * * * *

            Numa papelaria que havia ali por perto, Ferrão anunciou o assalto.

atenção! Isso aqui é um assalto. Quero todo mundo no chão, no chão! Vamos, vamos, todos no chãão!!

            O Smith & Wesson tremia em sua mão.

            Um segurança disfarçado tentou sacar um canela seca. Levou um balaço no meio do peito. Caiu agonizando.

se mais alguém reagir eu mando pro inferno! Mato todo mundo aqui nessa porra!! Agora prestem atenção!! Eu quero uma caneta e cinco folhas de sulfite azul. Vou repetir: eu quero uma caneta e cinco folhas de sulfite azul, tá me ouvindo mocinha?, você trabalha aqui!!?

ss ii mmm

então levanta!, levanta logo!! Pega prá mim, por favor, uma caneta e cinco folhas de sulfite azul, anda logo!

q qq u ee c a nn e t aa o s e nn h oo r q q qu que r r ?

preta! caneta preta de ponta fina!! entendeu?

s s s ii m

            Ao ouvir barulhos de sirene, Ferrão agarrou a vendedora da loja e a fez refém.

quem chamou a polícia!? quem chamou a policia!!? todo mundo vai morrer aqui! todo mundo!

            A base comunitária da polícia ficava na esquina da rua da papelaria. Alguém deve ter visto o início do assalto e conseguido se evadir. Em menos de dois minutos todo o quarteirão já estava cercado. Ferrão teve ímpeto de correr, enfrentar a polícia, trocar tiros. Não trouxera os outros dois pentes…

            Com um megafone o policial anunciou:

atenção, atenção, todo o quarteirão está cercado. Saia com as mãos para cima. Entregue-se. Saia com as mãos para cima. Tudo terminará bem se você se entregar, eu garanto.

            Ferrão não pensava outra coisa senão em oferecer resistência. Inexistente qualquer possibilidade de escapar dali. Em seu pensamento grudou a imagem da clausura. O corpo não se mexia. Aos poucos foi soltando a vendedora. Escorreu por seu braço as tranças da moça. Tranças que fazia em sua irmã quando pequenos. Olhou em redor e viu toda aquela gente amedrontada. Olhava para cima. Não suportava a ideia de ir preso. Chamou novamente a vendedora

vem aqui, me dá um abraço.

            A moça foi lenta e angustiada. A imagem de Ferrão cresceu pra ela. Prestou atenção em seus olhos. Perdoou-o. Ficaram abraçados por longo tempo.

            Lá fora, o silêncio incomodava os policiais.

            Ferrão perguntou à moça se havia alguma salinha na loja. Ela disse que sim. Que no fundo tinha a sala da gerência. Falou, agora em voz mais calma e branda:

pega prá mim as cinco folhas de sulfite azul e a caneta preta de ponta fina, por favor. E se dirigindo para os reféns:agora, prestem atenção, quero ver um por um saindo, devagar.

            Pediu para um rapaz ficar por último. Para sair junto com a vendedora e abaixar a porta da papelaria, não sem antes avisar:

se você tentar fugir eu te mato pelas costas!

            Sozinho na loja, Ferrão verificou se a caneta estava funcionando. Foi para a salinha da gerência. Trancou a porta. Quebrou a chave na fechadura. Sentou-se na cadeira. Na mesinha depositou as cinco folhas de sulfite azul e ao lado a caneta preta de ponta fina. Descansou o Smith & Wesson no colo. Iria escrever o seu conto: “Vida e Machadada”

            La fora ouviram um estrondo, depois outro. Dois estampidos secos da .45.

            A polícia invade a papelaria. Chegam à porta da salinha. Batem, perguntam, nada. Um Sargento robusto arromba a porta na botinada.

            Lá dentro encontram no chão apenas a caneta, o Smith & Wesson e o corpo de Carlos Ferrão engolfado pelo sangue.

            A mesa, a cadeira e as folhas haviam desaparecido.

Avalie este item
(5 votos)
Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

voltar ao topo