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Ao vencedor as batatas

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VÁ LÁ O HOMEM... Se enfiar nesse negócio de conhece a ti mesmo. Depois não tem volta. Esses dias mesmo, andando pela casa. Pensamento regresso neste novo caso. Indo... no de lá pra cá... no de cá pra não sei onde... no de não sei onde pra rua, pra banca, pro cigarro, pro de volta ao lar. O espelho. Um desafeto.

– Não conhece a ti mesmo? Ei, queridão, você aí, no espelho espelho meu...

– O quê?

– Não conhece a ti mesmo?

– Sim, conheço, acho que sim...

– Então, meu filho, tá ramelando por que? vai lá e Vinga-te! E assim mais batatas serão suas!

A vingança é algo silenciosa, tranquila, humilde. Sem pressa no revide. Os desafetos e a crença de que saíram vencedores! Deixa estar... Eles e a empáfia deles. Agir assim contra mim. Certeza deles: – nunca vai dar nada. Aquele ali é o puro. Pacífico. Ele só recebe. Cristão pela metade. Não oferece outra face, porém não revida.

Nos olhos deles todos. Um por um. Eu vi: – A convicção de que as humilhações, traições e covardias vão sempre na via-de-mão-única: – deles contra mim; de mim para o silêncio e a dor.

            Só que não.

            Tenho mesmo a impressão de que em algum dia matarei alguém envenenado...

           

            É o caso, então, de narrar a gênese do atributo. Mais que inventariar histórias de vingança, que é coisa feia. A Vingança Nunca é Plena, Mata a Alma e Envenena. A gênese explica o homem e o abona. Pois o homem ainda era criança. E criança não pode ser condenada.

O seu Manoel achou que iria me dar uma sarrafada daquela nas costas e já era. Tá certo: eu pulava no quintal dele pra roubar goiaba. Mas não era só eu! E sabe o quê; – o filho dele roubava gibi na banca, bolacha no mercado e linha no bazar. E o velho sabia disso.

            Muito tempo depois a micha caiu. Tal agressão não foi pelo roubo de goiabas. Tinha sido um castigo. Em minha família inteira! E meu irmão que andava de relações com a filha dele? Contra nosso tipo de vida, digamos assim, mais livre (talvez pela ausência do pai). Contra nossa pobre felicidade! Nossa falta de educação! Mas quem tinha?

            Foi uma baita sarrafada. O safado me pegou à traição, pelas costas. Dia frio, nublado, quase garoando. Rua praticamente deserta. Eu e meu pipa encapado com sacolinha de supermercado, sem sombras.

Esperando alguém aparecer pra brincar.

            Senti a paulada. Aquele lapso de segundo que formulamos uma hipótese sobre o ocorrido. Algum muleque com brincadeirinhas de mau gosto. O Paulinho Doido. Só pode ser ele. Quer ver? A sensação dolorida paulada. Um quê de felicidade por enfim aparecer alguém pra me fazer companhia.....

            O susto! A carranca do seu Manoel foi maior que a paulada. Aquele olhar de ódio, quase espumando, me encurralando contra a cerca e dizendo pra você aprender a não ficar pulando na casa dos outros, seu viadinho... vai lá falar pra tua mãe.... aquela vagabunda...

            Jogou o sarrafo aos meus pés. Aplicado ali os princípios mais elevados da justiça. Tinha lavado a honra. Não tive como evitar as lágrimas. A dona Joelina viu tudo lá da garagem dela.

            Não senti ódio nem raiva. Um pouco de medo talvez. A própria dor da paulada desapareceu. A tristeza tomou conta e foi qualquer coisa...

            Tristeza baça, amarga, ansiosa. Estado de pré-choro por dias. Na escola estranharam minha apatia. Não queria sair pra rua, não queria fazer nada. Até minha mãe notou. E podia contar pra ela? Claro que não. Imagine o desgosto dela ao saber que o filho andava pulando pra dentro da casa dos vizinhos pra roubar – e justo na casa de quem!!

            Como sempre. O mesmo remédio. Resolver minha bronca sozinho. Se contasse pro meu irmão? A coisa ia dar merda. Ainda mais qu’ele andava metido com negócio de revólver.

* * *

A chegada do sol. O fim de semana. Vento bom pra empinar pipa. Um bálsamo pra criança. As primeiras saídas na rua nada fáceis. Cabreragem desgraçada. Evitava olhar pra casa do cujo. Aos poucos a reabilitação. Renovadas esperanças. Dez dias se tanto eu tava refeito –: momento supraliminar em que formulei a ideia de uma necessidade de vingança.

A coisa foi crescendo. Naturalmente. Não tinha rancor, não tinha raiva – apenas uma resolução: não deixar aquilo passar batido. O momento da minha vida. O supra. Nove anos de idade e uma filosofia da vingança.

Dias passando, as semanas – os meses. E a pedra de toque do método?, vai veno: uma disposição monástica para acompanhar pietistamente a passagem do tempo e o desaparecer de todo clima gerado pelo evento.

Capacidade é sentir o desvanecendo. A volta do era. Ressolarização do dias que começam nevoeiro... que vai dissipando, os primeiros raios... o azul do céu nas frestas.

Olhar pro seu Manoel como antes da paulada. Ficar na calçada dele. Brincar com o filho dele. Não tardou eu pular novamente o muro. Bolsos e cueca com goiaba a rodo.

O cujo passava. Eu não sentia nada. Mas lá no fundo, em foro mais íntimo, guardado numa gaveta trancada a sete chaves havia o esboço dum projeto de vingança.

Outra característica da arquitetura vingativa: o aguardo da ideia fatal franqueada por uma abrupta espontaneidade do acaso.

* * *

Para arranjar alguns trocados, eu e mais uns muleques prestávamos o serviço de carregar sacolas para as senhoras no começo do escadão. As pobres donas de casa. Cansadas do trabalho de passar mais de hora na feira em busca dos melhores alimentos a bons preços. Subir o escadão com as sacolas; levar até a casa delas – donde uns caraminguás para nossa grande alegria.

Numa dessas viagens – eu carregava as sacolas da dona Maria do seu Roque – ela disse o esquecimento. “vixe menino, esqueci da batata”. Ofereci pra descer na feira e comprar: – “não menino, eu mesma vou, batata tem que saber comprar, o Roque comprou umas batata velha, advinha, estragou tudo... e tem coisa que fede mais que batata podre? Fede mais que rato morto!”

Fede mais que rato morto... fede mais que rato morto... mais que rato morto... que rato morto.... rato morto... morto.......

Dona Maria colocando moedas em minha mão (...) Palavras que ficaram .... fede mais do que rato morto... mais do que rato morto...

Se teve uma vez o seu Manoel realmente puto da vida foi essa: o Paulinho Doido voltou do lixão com duas ratazanas mortas numa sacola, amarrou uma no rabo da outra e jogou de laça-gato no fio de frente a casa do cujo. Os bichos começaram putrefar, o fedô ninguém aguentava. O homem crocodilo. Tentou arremessar pedras, pedaços de pau, cascalhos, pra tentar derrubar os bichos. Nada. Esbravejava o dia todo. Achávamos que ia dar infarto nele.

Teve que esperar um dos rabos apodrecer para enfim as ratazanas despencarem lá do alto. E quando isso ocorreu, espatifaram podres na calçada dele. Manhã completa de limpeza, com cloro, cândida, creolina e o homem a esbravejar, chutar balde, falar que iria matar quem tinha feito aquilo e os cambau.

Fede mais do que rato morto... fede mais do que rato morto... mais que rato morto... que rato morto.... morto

De volta para o escadão. Contagem das moedas. O faturamento do dia. O normal era pra barraca de pastel, direto. No meio do caminho tinha uma barraca.... de batatas...

Necessário desvencilhar dos muleques. Andando devagarzinho se chega ao longe. No meio do povaréu um meia volta vou ver, maçãs, peras, bananas. Batatas! Investi ali todo meu dinheirinho. Manhã inteira de trabalho – dois quilos e meio da lavada.

Agora é voltar pra casa sem dar muita pala, esconder o saco atrás dos entulhos do quintal e aguardar o breu. Depois, voltar pra rua e mergulhar em sua alma de terra encantadora. Empinando pipa e muringando ideia. Empurrar aquelas batatas pra debaixo do telhado manoelino. Tô com pouco serol. Preciso tomar cuidado pra ninguém me cortar na mão. Movimentação, algazarra, gritarias. Mulherada querendo sair no tapa por causa de vagabundo. A criançada lá da área como é que tá... Calçadas povoadas; botecos alaridos. Bezerra da Silva. O Timbóia ameaçou com faca arrancar os bucho do Waldemir. À toda comunidade pobre da Zona Sul: chegou fim de semana todos querem diversão, só alegria nós estamos no verão... Um Maranhão lá do morro do Ivone relando todos. Balão solar passando já na descendente. Indo lá pra represa. Um, dois, três carros na calçada... O Vovô circulando de Opala Comodoro. Na mãínha. A noite promete tiros. Rajada, rajada, rá-tá-tá-tá, cuidado que essa bala pode te matar... Pelo quintal do seu Brás... a escada que ele usa pra mexer na antena....

* * *

Virada no tempo ao findar a tarde e baita chuva que se armou pra noite. Em casa eu aguardava o grande momento fazendo rabióla. Fazer rabióla sozinho, de noite, o ato supremo de filosofar. Raios e trovões. Atmosfera pesada. O assovio do vento varava os vãos da janela. Alguém me chamava lá fora?: vvvveeem... vvvveeeemmm...

Hora de ir. Pegar a sacola de batatas e partir pro crime. Um raio deve ter explodido o transformador – acabou a força do bairro inteiro.

Grossos pingos de chuva nas costas. O vento revolvendo a sujeira do quintal. Derrubadas madeiras, mexidas latas, tumultuados telhados da vizinhança. Moradores apreensivos. Telhados que não suportam vendaval.

Chegar no telhado do cujo pelo muro do seu Brás. No quintal a escada qu’ele usa pra deixar a TV boa. Bora usar. Tempestade desabou. Raios e trovões de dez em dez segundos. No meio da rua enxurrada e vento me agredindo. Todo ensopado e cada vez mais confiante. O muro do seu Brás; a coisa mais fácil de pular. Furos nos blocos.

Apanhei a escada no canto do muro, coloquei-a de pé e subi. Foi só arrancar uma das telhas de barro e por ali mesmo começar arremessar batata, qual jogo de bocha.

Terminado o arremesso. Telha reencaixada. Escada no lugar. Volta ao lar.

* * *

Não sei, mas devo ter comprado as melhores batatas que tinham na feira. Uma semana passou, duas... e naquele calorão que fazia já deveriam ter apodrecido. Dezembro ia avançado.

Quase esquecendo a parada. Ainda um fiozinho de esperança. Sabia que a coisa não ocorreria imediatamente, mas tava demorando muito... e provavelmente tinha falhado.

Férias chegaram e rua cheia dia inteiro. As épocas de brincar: – pipa nas férias, bolinha de gude entre finais de março e início de abril, assim como finais de abril abria as portas para o pião, que rodava até os pipas começarem a subir nas férias do meio do ano. Desciam os pipas começavam subir figurinhas, que iam ficando dentro do pote na estante quando a primavera oferecia ventos leste bons pra fazer as bolinhas de camurça irem lá na rua de baixo depois duma tacadaça: o taco era a coqueluche da rua.

Antes dos pipas subirem novamente no verão tinha um tempo vago preenchido com malha, estrela nova cela, esconde-esconde, taco, entre outros, que também eram as brincadeiras ocasionais e que não obedeciam épocas determinadas.

Começaram sentir um cheiro estranho vindo da casa do seu Manoel.

Jogávamos taco quando o Paulinho Doido mandou a bolinha la no quintal do seu Brás. Eu que havia arremessado corri lá. O seu Brás. A sempre bondade com as crianças. Me deixou entrar de boa. Arrumava tranqueiras no quintal – não sei se disse pra mim ou pro vento – que “deve ter algum bicho morto aí no telhado do Manoel....”

Achada a bolinha agradeci zuncado pra evitar que os danados fizessem vinte e quatro. A observação do seu Brás. Não concentrava mais atenção no jogo. Prestava atenção em nada. Na curriola dos próximos minha atenção era toda pra casa do homem e na movimentação estranha que acontecia por lá.

O alumbramento! Seu Manoel e seu filho mais velho, o Léo, armando a escada pra subir no telhado! Não tinha mais dúvidas. Encontraram a origem do mal.

E a parentada chegando... O natal na casa deles era a data mais aguardada do ano. Vinham filhos, netos, noras e genros. Churrascada no quintal e ceia graúda. Fizeram algumas observações no telhado. O velho se mostrou preocupado. O dia já vinha acabando. Nada foi feito. Mas houve constatação. Alguma coisa podre tinha lá.

O natal pra mim também era data especial. Em casa não tinha ceia, troca de presentes, árvore. Tinha uma janta boa que comíamos mais tarde do que o costumeiro e às vezes refrigerante. Mas o clima era o que eu mais gostava, os fogos, o balão que os Gordo soltava no campo do Água Santa, sempre bojado e com lindas armações e ainda, e principalmente, poder ficar até mais tarde zanzando pelas ruas do Eldorado.

Sempre fui um dos primeiros a chegar na rua. Ansiedade. O dia natalino mais intenso da minha vida. O que vi?:

Estavam desmontando o telhado antes das oito da manhã!

Telha por telha ia sendo retirada pelo Léo, que passava para outro mais abaixo da escada – acho que marido de uma das filhas do velho – e deste para o seu Manoel que as ia enfileirando junto ao muro.

A vizinhança nos comentários. Alguma coisa errada tinha ali. As telhas sendo empilhadas. Movimento desordenado das mulheres – elas levavam água, jarras de suco, guloseimas, salgadinho – mas o velho não aceitava nada. Seriedade absoluta.

Não posso omitir o fato: me assustei. Sem noção do tamanho do estrago. Ainda era uma criança. Aconteceu alguma coisa para a qual não estava preparado.

Eu só queria uma reparação por aquele insulto violento desmedido. Algo foi tomando conta de mim enquanto ia observando aqueles homens desmontando o telhado todo, debaixo de sol inclemente – o almoço de natal já tinha ido pro saco – e esse algo era a sensação de justiça. O Talião.

Tiveram que arrancar algumas ripas da estrutura do telhado para conseguirem chegar até a laje. Algumas podres quebraram com as marteladas. O seu Manoel era uma fisionomia transtornada.

O homem sobe a escada pra ver com seus próprios olhos o motivo daquela fedentina. As batatas estragadas juntas? E foi enxada lá pra cima, rodo, pá, tudo pra puxar os restos de batata podre. Depois baldes e mais baldes. Esfrega esfrega com vassoura piaçava.

Finalmente; uma mangueira pro arremate final. O trampo só acabou no final da tarde. A reposição das telhas avançou noite adentro e findou no outro dia.

Notícias de que o seu Manoel estava acamado com fortes dores na coluna. Só fui revê-lo depois da virada do ano, lá pro dia dois ou três de janeiro. Varria a calçada vagarosamente, parecendo sentir dor, com dificuldades.

Não houve uma única vez sequer, em nenhum momento, a menor alusão à minha pessoa, nem por olhares. O enfrentamento do seu Manoel com muita gente da vizinhança tinha suas raízes num passado muito mais antigo que minha própria existência. As rezingas dele contra nossa família eram apenas uma parte desta história.

E o caso foi caindo no esquecimento.

Tento imaginar – o máximo que posso fazer – no tormento pra ele conseguir encontrar um suspeito para o ataque. Ficaria feliz se soubesse que meu nome tenha ao menos passado por sua mente, mesmo pra ser descartado em seguida.

Sinceramente. Não sei; caso meu projeto tivesse falhado: – eu teria ímpetos para formular outro? Acho que sim. Acostumei com a coisa. Até hoje nenhum falhou. Uns mais trabalhosos, outros assim nem tanto.

Muito orgulho por ter desenvolvido o prematuro antídoto contra as agressões do mundo – que não tem sido poucas. A firmeza e o ímpeto na luta contra os agressores. E o mais importante, o supraliminar: sempre direcionar pra mim mesmo as sagradas palavras do mestre – AO VENCEDOR AS BATATAS.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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