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Virado à Paulista

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Hora de deitar e dormir. Vira pra cá…. Vira pra lá… vamos fazer um chá… uma da manhã… duas… três… vamos tomar outro chá… vira prá cá… róla prá lá…. de modo que, antes dos quarenta anos, já somos velhos profissionais da insônia.

            O despertador toca… mais cinco minutos…. Toca o despertador…. Mais cinco minutos…. O despertador…. Mais cinco…. O despert…. Mais cinc… o desp… mais ci…. O d… mais… o… mai…. Ma….mmm

            A luta épica do corpo contra o sistema.

            A perversidade suprema da função soneca do celular.

            Alguns preferem despertar com música:

            Deixe-me ir preciso andar

            Vou por aí a procurar

            Sorrir pra não chorar…

Engraçado, tem dias que nada disso acontece. Nossos olhos simplesmente se abrem; estamos despertos. Sete ou oito horas dormidas numa paulada só.

            Se houve sonho, não nos recordamos

            Há dias em que se acorda assim

Inexplicavelmente assim.

            Levantamos cheios de vigor e vida. Após o café, fresquinho em bem doce, damos algumas voltas pela casa, nos olhamos no espelho, ajeitamos a roupa, mais um tapa geral, escovamos os dentes e saímos.

            Nestes dias o percurso para o trabalho não apena, não dói. Estamos transbordando de vigor e vida. A roupa caiu bem e o cabelo pode ficar assim, meio mais ou menos.

            Nossa constituição moral parece afrouxada: inclinamo-nos a dar bom dia, olhamos com ternura os velhinhos e sorrimos para as crianças. O busão nem parece que demora...

            Estamos porejando sonhos, boas perspectivas, novos projetos, incalculáveis estimativas para a felicidade.

Nosso apreço pela humanidade é sincero.

Desejamos abraçar os outros.

            Doamos nosso melhor ao trabalho, almoçamos com os colegas, falamos muito e retomamos a tarefa sem sono!

            Convidamos alguém para um happy hour.

            Queremos ir ao cinema, ao teatro, numa livraria comprar algum livro, passear na Avenida Paulista, expandir ainda mais a satisfação incontida. Pensamos em quanta coisa boa pode ser feita num único dia e o quanto ainda se pode aproveitar depois do expediente. Nossa imaginação cria mundos; e a especulação de ideias mágicas espanta qualquer tipo de reflexão dolorosa.

É um momento mágico: o conteúdo finalmente se sobrepôs à forma.

            E assim vivemos estes dias. Optamos preferencialmente pela caminhada. Cheios de sonho, somos interpelados pelo mundo. Existem alguns seres que percebem isso: essa nossa disposição para o contato; talvez eles também estejam assim. Puxam uma conversa no ônibus, no metrô, em qualquer lugar... da qual aceitamos de bom grado.

E conversamos

E esperamos juntos o coletivo

E descemos...

Quantas pessoas no mundo será que acordam assim por dia?

            Nossa guarda está baixa. Não calculamos. Não desconfiamos do interesse alheio. Só enxergamos o bem. Não há presságio, nenhum aviso, nenhuma preparação especial para esses dias.

Há dias em que se acorda assim,

Inexplicavelmente assim.

            E quando todos estão imersos na mesquinhez de suas vidas cotidianas, querendo fazer horas extras, preocupados em voltar pra casa, rever os filhos, rever consortes, irem pra faculdade… Somos solitários a eles; mas seguiremos em nossa jornada.

Entramos num bar.

Bebemos uma cerveja no balcão.

Pedimos outras...

            E se vai... se é tentado a ir, na companhia turbulenta de imaginações que não raro assumem formas lúdicas e às vezes sensuais. Somos, por fim, arrebatados pelo sonho de uma outra vida, um desejo desenfreado de querer mais.

            Não somos mais uma entidade moral. Desprendemo-nos de qualquer ideia de cidadania. Abandonamos a boa intenção de voltar pra casa, de se aninhar à família, assistir um pouco de televisão, entrar na internet, tomar banho, sopa, e descansar mansamente para um outro dia de trabalho.

            É quando se rompe com a obrigação da volta. E se abre um vácuo entre aquilo que deveria ter sido feito e o que se optou por fazer…

Decidimos ficar, simplesmente.

            A única certeza que temos é que não há mais possibilidade de volta. E optamos por nos render à ocasião e nos sentimos livres e nos deixamos levar.

            Assistimos as portas do metrô baixarem, o último busão partir, e não ligamos pra nada disso. Caminhamos apenas e tomamos preferencialmente ruas desertas. Entramos em lugares que antes não nos atreveríamos sequer a passar na porta.

            Bebemos, fumamos e saímos novamente. E andamos. Entramos novamente em lugares onde se ouvem mulheres gargalhando; então subimos uma escadinha estreita e escura. Lá encima nada se enxerga com clareza: ruídos e luzes e silhuetas nos embaraçam a vista embaralhada.

            Fumamos, bebemos. Sentimos essa voz que nos fala de dentro. E as horas vão passando… passando…. Então saímos e nos deparamos com a claridade do dia. Pessoas honestas indo trabalhar. Comemos uma coxinha e tomamos um pingado numa lanchonete qualquer. Contemplamos isentos de qualquer responsabilidade o dia que começa a surgir. Cidadãos no ponto de ônibus, portas do comércio abrindo.

            Andamos ainda, fatigados e sonolentos. Mas a volta pra casa é apenas um desenrolar natural, leve. Não há mais nada o que fazer. Nem explicações a dar. Já estão acostumados a isso. De vez em quando acontece. Chegamos assim. Pronto. Acabou.

            Nem sequer nos damos conta de que faltamos ao trabalho. Deveríamos ligar e tentar apresentar uma justificativa qualquer. Nada. Deitamos apenas. E dormimos como um anjo. Dormimos como se fossemos uma pessoa justa.

Há dias em que se dorme assim,

Inexplicavelmente assim.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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