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Ele escuta a mãe d'água cantar

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A ideia era simplesmente partirmos mar a dentro. Pessoas em estado se desespero numa espécie de tratamento para as dores da alma. O organizador da cura, o psicólogo e terapeuta holista Gênesis da Silva, decidiu que seria melhor partirmos apenas em número de dez pacientes.

            Contando a tripulação – o terapeuta, o comandante do barco, a cozinheira, mais um ajudante geral – zarpamos em quatorze pessoas de Santos, rumo ao infinito, sem data de retorno, cada um com seu deus, cada qual com sua solidão.

            Saímos exatamente à meia-noite, na morte das horas, sem outra resolução que uma fé absoluta no desconhecido e na vida. O mar estava calmo e a lua cheia. Alguns pacientes conversavam entre si, sentados nos bancos laterias da embarcação. Outros iam deitados nas redes, largados ao balanço do banzeiro.

            Eu permaneci de pé, ao lado da cabine, compartilhando em silêncio meus sonhos com o capitão do barco, homem sério e veterano das águas, de poucas palavras, dono dum semblante carregado de esperança.

            E assim transcorreu nossa primeira noite de deriva espiritual.

            O sol brotou na imensidão do firmamento. As águas estavam calmas. O café da manhã já estava posto e aqueles que não estavam marulhados comemos com enorme alegria. Voltei para ao lado da cabine. Agora quem comandava o timão era o ajudante geral, menino novo duns vinte e poucos anos, caiçara sem filhos, sem muitos apegos na vida, jovem homem do mar. Também de poucas palavras e olhar carregado pelo horizonte.

            Imensidão de água por todos os lados. Quanto tempo deveríamos ficar nessa? Não sabíamos. O doutor Gênesis parecia o anfitrião da casa, em dias de festa. Conversava com um aqui, pulava pra outro acolá, perguntava se tava tudo bem e assim nosso primeiro dia foi escorrendo como um fio d'água.

            As afinidades eletivas logo se fizeram presentes e pequenas amizades começaram a querer nascer. “No sofrimento, todos somos irmãos”, já dizia o velho Adágio. Duas moças e um rapaz formaram um pequeno trio que parecia ter dado certo, dois senhores engataram numa conversa sobre negócios, um rapaz e uma moça se equalizaram através de gostos semelhantes – culinária e viagens – enquanto três de nós permanecemos cada um na sua: eu, uma senhora que ficava o dia inteiro bordando e um rapazote de uns dezessete anos, que só lia.

            Pra ser sincero, a única pessoa por quem me interessei no barco foi o ajudante geral. Conversei um pouco com ele algumas vezes. Disse ter vindo do Pará pra Santos com quinze anos, fugido de casa. No Norte era pescador, das águas do Tapajós, Arapiuns, Amazonas…

            A rotina logo se instaurou no barco e muitos perderam a conta de quantos dias estávamos a balançar. As afinidades se fortaleceram e mesmo assim um certo tédio se insinuava em alguns semblantes, principalmente nos homens que falavam muito em negócios e no casal que compartilhava experiências gastronômicas e viajandeiras.

            Por vinte, trinta, quarenta vezes o sol se pôs por detrás da imensidão do mar; e do mesmo tanto se fez surgir na outra borda, radiante, para nos aquecer o corpo e a alma. Acostumados às redes e ao chacoalhar das águas, dormíamos a noite toda, acordávamos cedinho, aos primeiros raios do astro, e assim sucessivamente, sem fazer nada durante todo esse tempo a não ser conversar, esperar e sonhar. Eu experimentava uma paz profunda…

            O doutor Gênesis se tornava menos diligente a cada dia, menos interessado no aspecto geral de nossas almas, ele próprio demonstrando certo cansaço, certo incomodo que captei ao flagrá-lo soltando um enorme suspiro, daqueles de saco cheio, antes das cinco da manhã.

            A cada dia que passava eu sentia minha alma se expandir, em direção ao infinito. Os dias e as noites, as manhãs e as tardes, tudo era um só. O tempo, o maior de nossos inimigos, havia se dilatado numa única e só escala. O barulho das águas tangia fundo as cordas do meu coração sofrido, como se fossem versos de Camões.

            Passei a me levantar na alta madrugada para estudar a geometria das estrelas… e eram tantas… infinitas… e me mandavam sua luz e sua quietude e eu queria cada vez mais. Ficava horas e horas ao lado da cabine, ora contemplando o Capitão, ora o ajudante geral. E eles se acostumaram comigo ali, como s'eu fosse mais um mastro da embarcação…

            Não tardou até que um dos pacientes soltasse o alarde.

            – Doutor Gêneses, acho que pra mim já deu…

            Foi um daqueles dois homens que falavam muito de negócios. Na hora do café da manhã. O doutor fez uma consulta entre nós pacientes e para minha grande surpresa os demais se mostraram solidários ao homem, cada um deles expondo seus motivos pessoais.

            Um que estava com muita saudade da esposa, outra que não via a hora de voltar a arrumar a bagunça dos filhos e a ralhar com eles, o casal que queria viajar pra outros lugares e conhecer novos pratos, o menino que queria novos livros, a senhora desejosa de mais linhas para tricotar… E foi um debulhar de vontades: saudade da internet, dos amigos, dos celulares, do conforto da casa, da poltrona, da cama, do chuveiro… teve um até que disse que sentia um pouco de falta do trânsito! Talvez seja Esta a sina de todo viajante: chega um determinado momento em que o desejo de voltar toma conta. E volta-se.

            Percebi que no rosto de cada um se desenhava a imagem da esperança, de uma ideia absurda de começar tudo de novo, com forças renovadas. Talvez tenha sido justamente este o propósito da expedição: despertar no coração de cada um a saudade da terra.

            O doutor Gênesis reuniu todos numa roda. Pronunciou que dali a dois dias estaríamos em terra firme. Uma penumbra enorme tomou conta da minha alma. Cai na rede e decidi que não levantaria mais até atracarmos no porto. Enquanto um mal humor bilioso se apoderava de mim, inversamente proporcional surgia nos demais pacientes uma euforia incontida. Falavam de novos planos, de novas condutas na vida, de forças renovadas e de uma infinidade de tarefas a realizar.

            Na alta madrugada decidi sair de meu casulo, pois ouvi uma espécie de choro vindo da parte de trás do barco. Atravessei todo o convés, desviando das redes, em direção aquele ruido choroso. Todos dormiam profundamente em suas redes. Sentado da balaustrada lá do fundo da embarcação estava o ajudante geral. Parecia que ia se jogar no mar. Ele chorava. Um choro copioso, mas contido, treinado e adestrado.

            Levei um tremendo susto quando alguém colocou a mão em meu ombro; era o Capitão. Sussurrou em meu ouvido que era pra ficar em silêncio. Passou para o lado de la e, com uma corda nas mãos, começou amarrar o ajudante geral no mastro. Depois voltou e me disse:

            – ele ouve a mãe d'água cantar… se eu não amarrar, ele pula na água. Isso sempre acontece quando vamos regressar de alguma viajem. Ela é a rainha das ondas, a sereia do mar, seu canto é muito bonito. Olha, veja como tá grande esse luar… quem escuta a mãe d'água cantar vai com ela pro fundo do mar…

            Voltei com o Capitão e fiquei junto a ele na cabine até que o sol surgisse no firmamento. O ajudante ficou lá, amarrado e chorando. Mal pude acreditar quando pudemos observar o continente. Uma tristeza tomou conta de todo meu ser. O dia nasceu rapidamente. O ajudante geral estava livre das cordas e do canto da mãe d'água, já tinha posto nosso último café da manhã.

            Todos nutriam uma felicidade enorme, como se cada um fosse receber assim que aportasse em terra firme um baú de diamantes. Nunca em minha vida senti uns cinquenta dias ou mais passarem tão rápido. Enfim, chegamos. Todos se abraçaram, choraram de felicidade, prometeram se encontrar pra tomar uma cervejinha. Era um revigoramento geral da galera. O doutor Gêneses era o mais empolgado de todos, dizendo a cada um pra não esquecer de agendar a consulta já pra próxima semana, que os resultados seriam muito satisfatórios, e blá, blá, blá…

            Eu não conseguia conter o meu desamparo e soltei um “puta que pariu, não acredito que voltamos...” Porque voltamos justamente agora que estávamos no melhor da viagem? Por que antecipar a volta se temos três meses de licença médica?

            Os primeiros dias em terra firme me foram terríveis. Não agendei porra nenhuma de consulta. Não conseguia sequer sair de casa. Não comia, não dormia. Somente uma tristeza enorme e saudade da imensidão do mar, da dilatação do tempo numa escala infinita e univoca, da expansão do meu espírito. Deu vontade de voltar, queria também ouvir o canto da mãe d'água...

            E isso eu fiz na manhã seguinte. Peguei um ônibus e fui pra Santos. Lá procurei o barco do Capitão. Falei com ele que queria continuar a viagem. Eu pagaria o tempo que fosse necessário. No início ele achou estranho.

            – Só você?

            – Só eu.

            – Mas precisa ir pelo menos a cozinheira.

            – Tudo bem. E o ajudante?

            – Ele saiu em outro barco, só volta no final de semana, vou chamar outro.

            – Tá bom. Então vamos.

            E assim acertamos a viagem. Um barco só pra mim. Paguei trinta dias adiantado. E zarpamos na mesma meia noite. Por um momento temi não encontrar mais aquela alegria da novidade. Fiquei menos perto da cabine nesta primeira madrugada, procurei menos compartilhar meus sonhos em silêncio com o Capitão.

            A liberdade, a solidão, o prazer de se encontrar só no meio daquela imensidão toda, as luzes do continente ficando cada vez mais longe, suas individualidades cada vez menos matizadas para, enfim, formarem uma única massa fosforescente. Apaguei na rede.

            Acordei o sol já ia alto. Tinha um café da manhã modesto e sincero. O Capitão descansava. O outro ajudante era também raposa velha de mar e gostava mais de conversar. Passei o dia todo proseando com ele, ouvindo suas histórias – muitas delas fantásticas – e acompanhei o primeiro por de sol… confiante de que eu tava fazendo a coisa certa.

            E os dias correram assim, as noites, as manhãs e as tardes. Novamente a unicidade do mundo e do tempo, um conluio espiritual com o cosmos. Minha cabeça, a cada dia, se inundava de um bem-estar inenarrável, duma sensação de conquista.

            Certa noite, nem sei quanto tempo já tinha passado em alto-mar, creio que mais de vinte dias, desperto como se alguém tivesse me acordando, dando tapinhas em meu ombro. Talvez tivesse sido um sonho, daqueles que chegamos a sentir quando alguém nos toca, e acordamos com a sensação do toque plenamente estampado na pele. Despertei e procurei com os olhos a figura do Capitão, mas não havia ninguém por perto. Levantei da rede e me sentei no banco lateral do barco. O reflexo da lua nas águas calmas do mar me hipnotizou. Senti alguns calafrios. Senti um pouco de medo.

            Será que é ela? Mas eu não sou pescador… dizem que seu canto sempre faz o pescador chorar. Uma voz parecia vir lá das entranhas do mar. Será que é você? Rainha das ondas? Sereia dos mares? Mãe d'água é você? Todo o meu corpo tremia como se eu tivesse com uma enorme febre. O canto se fazia cada vez mais presente, mais alto, tomava conta de toda atmosfera. Esqueci completamente que eu era um corpo, que estava num barco, que tinha gente lá comigo. Totalmente absorvido pelo canto da mãe d'água. A sensação era que o mundo inteiro estava ouvindo seu lindo canto, que todas as partes do universo estavam preenchidas pelo lindo canto da rainha das ondas…

            Um canto… um canto tão bonito que não consigo descrever, um canto lindo que me penetrou e colocou em ebulição todas as células do meu corpo. Não tinha mais dúvidas… comecei escutar a mãe d'água cantar, a rainha das ondas, sereia do mar… seu canto é tão lindo nesse luar… estou te escutando cantar mãe d'água… o seu canto é tão lindo quando faz luar… rainha das ondas…. Sereia do mar….

            Subi na balaustrada do barco

            pulei

            fui pra Ela no fundo do mar

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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