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Mãe, fala pra ele que a Laura tá bem!

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Era um domingo pé de cachimbo. Eu tinha seis anos de idade. Foi a primeira vez que aconteceu. A primeira de muitas vezes que experimentei aquela coisinha a mais que existe entre o céu e a terra. Engraçado como os fatos mais simples são os que mais vacilamos pra acreditar.

         Umas trinta maritacas no beiral da laje berrando logo cedo de manhã. Testemunhas de Jeová batendo palma no portão. O vizinho martelando o telhado. Outro vizinho, ou pedreiro, trabalhando com Makita.

         Acorda-se. Desse jeito não tem quem dorme.

         Quando se é criança, e se acorda domingo logo cedo de manhã por causa de maritaca no beiral da laje, testemunha de Jeová chamando no portão, vizinho martelando o telhado e outro arrepiando na Makita, os tecos de silêncio ganham uma dimensão especial.

         Os testemunha de Jeová batendo palma no portão não injuriam as crianças. Os adultos não atendemos, amém.

         Eu era miúdo e selecionava o que queria ouvir. O vizinho martelando o telhado. Morávamos num vale, pegado dum morro, e as marteladas batendo no caibro, o barulho indo lá no morro e ele devolvia, no eco, em recado, duplicando a bateção

                                 TLÁ tlá           TLÁ tlá         TLÁ tlá         TLÁ tlá....

         Além das maritacas, dos testemunha, das martelada, tinha um vizinho, ou pedreiro, cortando pedra de ardósia com Makita. Já ouviram o arregaço que é Makita em pedra de ardósia?, pior mesmo é só no mármore.

         De repente as maritacas matraqueando no portão e os testemunha pendurados no beiral da laje tacando pedra na janela da sala.

         Não contentes, as maritacas começaram passar a Makita nas grades do portão que eram de pedra de mármore e os testemunha orando e descendo a martelada no telhado. TLÁ tlá       IRMÃO irmão

TLÁ tlá         IRMÃO irmão

TLÁ tlá         IRMÃO irmão

TLÁ tlá         IRMÃO irmão

         Mãe já tava no tanque reclamando que ninguém merece uma zuada dessas no domingo, antes das oito da manhã. Peguei o meu copo de leite mais algumas bolachas e fui pro quintal. As maritacas já tinham se ido lá pros lados da represa. Os testemunha dobravam a esquina, em procissão. As marteladas iam diminuindo e a Makita foi desligada.

         O silêncio voltava a imperar, mas agora não tinha mais graça. É muito fácil ser feliz quando criança: um copo de leite com bastante açúcar, bolachas de maisena e nuvens pra se descobrir desenhos. Os pensamentos mais íntimos, aqueles que ocupam a grande maior parte do nosso ser mental e que deixam a gente com vergonha de contar, pra não chamarem a gente de loucos, quando crianças, ou infantis, quando adultos.

         Tinha alguém olhando pra mim lá do céu.

         Não era a primeira vez. Dizem que os desenhos que as nuvens formam jamais se repetirão pra um mesmo ser durante esta encarnação. Pra mim essa verdade nunca foi. Já era a quarta ou quinta vez que eu a via. Cheguei a comentar com mãe quando da terceira vez que ela apareceu lá no céu. Os adultos nunca dão bola pra essas coisas.

         Mãe começou esfregar roupa no tanque. Ranque ranque ranque ranque………..ranque ranque ranque ranque………. Ranque ranque ranque ranque……… e eu gostando do ritmo que lá da área vinha.

         Ela já não estava mais lá no céu. Agora parece um urso polar…

         Quase na hora de pedir permissão de mãe pra ir pra rua. Um homem apareceu no portão. Bateu palmas, mas depois viu ali um pequeno, sentadinho no banco, copo vazio na mão, olhando pra ele com atenção.

         Perece que conheço esse minino de algum lugar. Ele me lembra o filho do Doguimar quando criança. É a cara dele… como é mesmo o nome dele…? Acho que é Daniel, ou Marcos… num lembro agora. Deve tá homem feito já… ei, minino, você mora aqui? Sua mãe taí? Pede pra ela ver se não tem alguma coisa de comer pra me arrumar…

         Aquele homem não era estranho, embora o minino nunca o tivesse visto por ali. Diferente da gente que pede comida… ele assim, bem arrumado, de barba feita e perecendo que tomava banho. Quem vem pedir comida na casa de gente pobre normalmente tá bem detonado.

         A mãe achou ruim ter que parar a lavação pra atender o homem. Fala pra ele que não tem nada. Mas eu insistia dizendo que ele parecia o tio Nelsinho… então ela foi enxugando as mãos com um pano velho.

         Desculpa senhora… a senhora tá ocupada né? É que eu tô morrendo de fome e queria ver se a senhora não tem um pouco de pão velho pra me dar. Pode ser qualquer coisa, senhora… uma fruta uma banana umas bolacha um pouco de leite…

         Mãe disse que ia ver e já voltava. Eu fiquei vendo a conversa deles da porta da sala. Ela fez um pão com manteiga pra ele e um copo de leite com café e me deu pra levar lá.

         Antes de sair pro quintal eu não lembro. Acho que nem tinha chegado na porta senti um mal estar. Minhas pernas ficaram moles e eu derrubei o copo no chão. Gritei mãe!!! corre aqui!!! e ela veio correndo e já começou brigar comigo. Depois deve ter percebido alguma coisa de palidez em mim e perguntou qui'aconteceu menino!?

         – Mãe, fala pra ele que a Laura tá bem!

         – Que Laura, menino?

         – Fala pro moço que a Laura tá bem, Mãe!!

         Mãe não entendendo nada. Eu também não. Mas ela tinha que ir lá falar pro moço que tava pedindo comida que a Laura tava bem. Vai, mãe, a senhora tem que ir lá falar pro moço que a Laura tá bem. Vai logo antes que ele vai embora.

         – O senhor conhece alguma Laura?

         Os braços do homem que tavam cruzados cederam. Ele ficou estático olhando minha mãe. A senhora disse Laura?

         Mãe me chamou pra junto dela e mandou eu mesmo falar com ele.

         – A Laura, moço… ela tá bem.

         – Vocês viram ela? Onde? Me falem! Onde que ela tá pelo amor de Deus?

         – Eu não conheço nenhuma Laura. Você conhece essa Laura meu filho?

         – Não, mãe. Não conheço. Ela é nuvem… mas ela tá bem. Ela mesma que me falou já umas trêis vezes. Ela tá bem, moço. Pode ficar tranquilo.

         O homem desancou chorar. Mãe mandou eu buscar copo d'água pra ele.

         – O senhor tá se sentindo bem? Quem é essa Laura?

         – Ela é minha esposa, senhora. Ela saiu de casa pra comprar mistura e não voltou nunca mais. Nunca mais tive notícias dela. Já faz mais de dez anos. Ninguém nunca mais viu ela. Ai meu deus do céu a senhora não sabe como eu sofro, senhora, sem minha Laurinha. Depois que ela sumiu eu nunca mais tive forças pra fazer nada. Larguei o trabalho. Eu trabalhava na Sabesp, senhora. Pensei que ia me aposentar lá. Mas eu larguei tudo. Comecei beber. Parei de comer. Nunca mais tive vontade de viver. Mas depois eu melhorei um pouco, senhora. Eu tava virando mendingo. E se ela voltasse e me visse igual mendingo ela não ia mais querer saber de mim. Então eu melhorei, senhora. Eu acordo todo dia e tomo banho e faço a barba e ponho roupa limpa pra quando ela voltar eu tá do jeito que ela gosta. Só que eu não tenho força pra trabalhar mais. Minha vida agora é perambular pelas ruas procurando minha Laura e pedindo comida nas casas. Senhora, esse menino é um anjo. É um anjo senhora. Foi deus que fez eu parar aqui no portão da senhora. Eu não ia passar aqui por que tinha aqueles testemunha de Jeová aqui. Mas depois eu voltei. Voltei pra ouvir que minha Laurinha tá bem. Pelo menos ela tá bem. Meu pai do céu. Pelo menos ela tá bem.

         Mãe voltou pra cozinha preparar outro café com leite pro homem. Ele tomou o cafezinho da manhã dele, alí, em pé no portão, entre suspiros profundos de quem chorou profundamente. Eu voltei pro quarto e deitei abraçado com meu travesseiro. Sentia muito sono e uma vontade enorme de dormir.

         Acordei quase já na hora do almoço. As marteladas tinham recomeçado. A massa sonora do bairro não deixava o morro responder. Era só TLÁ TLÁ TLÁ TLÁ….

            Daí eu não sabia mais se tudo tinha sido um sonho o acontecido. Mãe já tava preparando o almoço. Cheguei perto dela. Sem dizer nada me deu um abraço e um beijo na cabeça. Algumas lágrimas começaram escorrer pelo seu rosto. Mãe nunca foi de demonstrar afeto, por isso guardo esse abraço como um dos únicos que ela me deu na vida.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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