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Será? (Crônica de vizinhança)

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A vida não anda fácil nem pras pombinhas. Quando não comem milho com esterilizantes ou com veneno, quando não viram recheio no pastel dos china, torram na rede elétrica das cidades.

Daí, um amigo meu que é filósofo da contemporaneidade me disse num dia desses: “e elas tem, patrão, alguma culpa pela própria existência?”

            Grande Naco. Filósofo nato. Sem nunca ter lido coloca questões altamente complexas. Refe-(ria)-se à blitz do batalhão zoonoses numa casa da vizinhança (sorrisinho maroto de canto de boca).

* * *

            Moradora barraqueira, fumante de Hilton longo: fala pra quem quer e não quer ouvir:-

hoje eu num acordei bem!

Ahhh hoje eu tô cô'a macaca!

e as frequentes crises de histeria vão sendo transferidas na alimentação duma caraiada de pombas, com arroz desviado da ONG.

            E pombas fazendo ninhada em telhados… e vizinhança ficando fula… e quanto mais fula se mostra a vizinhança; mais arroz pra pombaria róla.

            Houve denúncia, baixaria, acusações fundamentadas em rinhas anteriores, xingamentos atrozes, espionagens por detrás dos portões e o batalhão zoonoses foi dar uma varredura no telhado do seu Cavalcantti, que nunca na vida tinha reclamado dos bichos.

            Acabou que tudo ficou resolvido, temporariamente. Pois os conflitos de ordem social, econômica e religiosa (Weber); as disputas pela ampliação do poder (Foucault); as rezingas da influência e da luta pelo status entre estabelecidos e outsiders numa reles vizinhança de periferia (Norbert Elias); o recalque e as neuroses oriundas da má catexia libidinal (Freud) e uns modos de chei-di-querê-sê (Minha Mãe) continuam agindo sorrateiramente lá na vila, como um câncer sociopatogênico.

            A megera fumadora de Hilton longo teve que se recolher, sob pena de multa e os cambau. Agora anda gastando cerca de três quilos de açúcar por semana, que o marido desvia da ONG, colocando água pros beija-flor.

            E começou juntar abelha a rodo na redondeza. A netinha da dona Ivone foi atacada por enxame delas. Passou mal pra cacete. Foi internada. Descobriram a menina é alérgica…

            Parece que haverá nova denúncia…

* * *

            Seu Cavalcantti mora com a filha, Roberta, que dizem vai ficar pra titia. O filósofo me disse que ela é…

            A moça trabalha o dia inteiro e o velho fica em casa maquinando. No dia da blitz confesso nunca o vi tão agitado. Não posso dizer com certeza, mas acho o seu Cavalcantti um produtor de segredos para o auto-deleite.  

* * *

            Nas terças e quintas eu só entro na terceira aula. Pelo hábito do proletário levanto sempre às seis e pouco. Lá pelas sete, sete e meia dessas terças e quintas comecei sentir cheiro de pipoca e pensei: “quem estaria fazendo pipoca uma hora dessas...?”

            Várias vezes o cheiro de pipoca invadindo as entranhas…

            E quando tô pendurando toalha no varal, escuto: barulhos que na hora pensei fossem dum balão fogueteiro. Abri a escada ultrapassando o muro para maior amplitude ocular. Tratar-se-ia (Michel Temer) de coisa rara um fogueteiro diurno em pleno meio da semana. Nada.

            Outras terças quintas mais cheiro de pipoca barulhos… escada amplitude visão. Nada.

            Numa sexta à noite saindo da escola encosto no carrinho de pipoca. O barulho e o cheiro na minha frente. Errância psicocinésica… o seu Cavalcantti!! Será?

OBS: Como a área dele dá pros fundos da minha casa e ele sempre deixa a porta da cozinha aberta, vem tudo o cheiro das coisa.

* * *

            Postei vigília no quintal, nas terças quintas a partir das sete e trinta. Não deu outra. O seu Cavalcantti começou fazer pipocas no café da manhã! Sempre achei o bicho meio estranho.

* * *

            Apaziguado pela solucionática (Dada Maravilha) dum caso cuja solvência achei que aplacaria minhas inquietações, dei de cara com seu Cavalcantti na esquina de nossa rua. Como sempre, não fala nada; apenas acena a mão – como dizendo: va benne bambino… vá benne professori…

* * *

            As informações que pude ir colhendo aqui e ali na boataria zé povinhal da vizinhança traçaram-me um perfil aproximado do velho carcamano. Italiano que veio pro Brasil fugido da guerra. Padeiro aposentado. Viúvo a sabe deus quanto tempo. Habilidade pra fazer um monte de coisas.

            Somou-se a tudo isso aquele saquinho de pão que balançou em sua mão quando do nosso cumprimento – pois não foi a primeira vez que o vi (o saquinho… )

            * * *

            A estratégia, a meu ver, foi bem posta. Plantei campana na calçada numa dessas terças quintas a propósito de varrê-la. O italiano passa e manda o seu mudo va benne bambino… vá benne professori… (o saquinho com ele)

            Joguei a vassoura pra dentro e comecei segui-lo. Fomos dar na Praça da Moça – cerca de três quilômetros e meio de nosso bairro. O velho caminha bem…    

            Comprei um jornal ali na banca do Jacaré e sentei na porção noroeste da praça, donde uma visão panorâmica me dava acesso às ítalas ações e à velhacaria da velha malandragem analfabeta (Nenê de Vila Matilde).

            Ora ora... e o que vi só serviu pra me aguçar mais ainda o esqueleto. Seu Cavalcantti jogando pipoca para os pombos. Mas quando estes se aproximavam; ele com os pés enxotava tudo. Até que, pelo pouco que pude ver, apenas uma pomba recebia beneplácito e abicanhava a pipoca.

            Passei o resto do dia muringando a cena.

A cabeça no travesseiro tracei um quadro geral da situação: agitação do velho durante a blitz / a pipoca matinal / o saquinho / a caminhada monstro / a praça / a pomba escolhida. Resolução: levar tudo às últimas consequências.

* * *

            Saí mais cedo que o velho e fui de carro. Apostei que ele sentaria no mesmo banco – salvo alguém já lá estando. Estacionei onde poderia observá-lo profissionalmente com ajuda do binóculo de quando eu era baloeiro.

Lá está ele. Deixa eu afinar esse foco aqui… isso mesmo. Dentro do saquinho tem pipoca. Olha só… ele joga uma de cada vez e não deixa nenhuma pomba pegar. Estranho isso… Até que ela aparece… a pomba escolhida… por que será isso meu deus do céu?

Somente ela come da pipoca. Ela anda meio esquisito… parece que saltita. O foco desse binóculo é monstro… vou ver por que ela anda saltitando. Ahhh pode crê… olha só… ela tem os pezinhos defeituosos… nossa… ela não tem pés… tem duas bolotinhas… parecem bolinhas de chiclete mastigado. Coitada, acho que é por isso que o seu Cavalcantti só alimenta ela. É caridade. Caso contrário, ela nunca conseguiria concorrer pela sobrevivência. Deve ser defeito de nascença… oriundo das modificações genéticas dos milhos contaminados com sabe deus o quê…

* * *

Já me dava por satisfeito quando percebi que o velho se preparava pra zarpar. Tinha cerca de uma centena de pombas empoleiradas nos fios de alta-tensão. A pomba deficiente se despediu do seu Cavalcantti e voou no encontro das companheiras. Acompanhei-a com o binóculo. A coitada não conseguia se firmar na fiação. Ficava saltitando. Quando de repente uma puta explosão!!! Jesusmariajosé… !!! acho que os fios encostaram um n'outro e a descarga exterminou as coitadas todas.

            Menos a pomba deficiente, que por sua saltitância estava no ar justamente no momento da descarga. Houve grande aglomeração de gente. O seu Cavalvantti se afastou para o lado oposto da praça. E a pomba deficiente voou até ele. Pousou a seu lado como qu'esperando alguma pipoca do bom velhinho, sem nenhuma noção da hecatombe que ajudou a provocar. Voou como se fosse um ser humano, indiferente ao destino de suas irmãs e irmãos.

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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