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Porrada, tiro e bomba

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– … como eu ia te dizendo, meu amigo, a impressão que se tem quando as coisas são vistas apenas e tão somente através da televisão ou da internet não tem nada a ver com a totalidade do fenômeno em sua real manifestação.

            – eu acho impressionante, Gastão, que muitas pessoas não se deem conta de que o processo de edição recorta, de acordo com a ideologia do veículo de transmissão, uma parte desse fenômeno, normalmente os momentos de crise e da insubordinação social imanente a esta crise… tudo em nome de um status quo cada vez mais intransponível…

            – é aquilo que eu te digo sempre: as ilhas de edição podem ser consideradas verdadeiras ilhas da fantasia, talvez com algumas exceções.

            – Veja só o caso dos balões, Gastão, que nas épocas de julho são alvo duma par de reportagens. Daí eu te pergunto: em qual delas aparece a cultura do baloeiro, os anos trabalhando num balão, os encontros da turma, o dia-a-dia da bancada, da correria atrás de grana, das discussões com a família; em qual reportagem do Fantástico, do Datena ou do Marcelo Resende aparece um baloeiro falando de seu amor transcendental e consuetudinário pela oitava maravilha do mundo? O que aparece é o fato criminal do bagulho: os incêndios provocados pelos balões, dos aviões que dizem que derrubam, da gangue invadindo um lar doce lar pra resgatar um balão. Nunca aparece um balão realmente iniciando um incêndio, um avião derrubado por um Pião Carrapeta; há sim uma invasão nas casas quando o mininão cai, mas não é nada de mais, apenas um entrar sem pedir licença, como a polícia está acostumada fazer em determinados lugares da cidade. Além do mais, a maioria dos balões que caem são resgatados pelas próprias turmas, seja na selva ou no mar, e isso também é mais um argumento contra a falácia do incêndio. O choro dos baloeiros e seus familiares, choro de alegria, quando vêm um balão que demorou anos para ser feito subir, abrindo a bandeira, levantando uma armação, ou abrindo a cangalha de fogos, cadê? Cadê a salva de palmas que respeitosamente todos os envolvidos pelo sucesso – ou fracasso – da missão recebem, como uma orquestra que executa com maestria a nona sinfonia de Bethoven? Uma só queimada que um empresário do agronegócio promove na floresta amazônica, pra plantar soja, equivale a todas as queimadas que os balões já produziram desde o primeiro que subiu nessa terra até o final dos tempos.

            – exatamente…

            – o mesmo se diz em relação ao cerol, transformado em verdadeiro crime praticado por quem empina pipa. A única coisa que mostram é como uma brincadeira aparentemente inofensiva pode virar uma arma fatal contra as pessoas, daí jogam la na reportagem um motoqueiro que teve o pescoço degolado. Claro que deve existir uma preocupação com a vida, se o fenômeno cultural oferecer algum tipo de perigo, mas a preguiça mental quando se alia ao preconceito, nem jesus salva. Ainda bem que nos restam algumas mentes com capacidade de pensar diferente da manada, que conseguiram criar alguns lugares onde o uso do cerol é permitido, sem possibilidades de causar danos a outrem.

            – … sim, meu amigo, outra vez; é sempre o fato criminal que surge como notícia. Do processo como um todo, da arte do pipa e dá réla, eles pegam apenas os momentos de crise e acidente; e estendem esse momento pra todo o fenômeno, de forma a incutir na cabeça da população que aquilo ali é crime hediondo; e criam até leis pra isso, sob a ideologia infalível de que se trata de proteção à vida ou ao meio ambiente.

            – eu já até decorei as leis, Gastão: LEI Nº 9.9005, que versa sobre os crimes ambientais, diz no Artigo 42 que constitui crime fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano, sob pena de detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente. E aqui no Estado tem a LEI Nº 12.192, que em seu artigo primeiro decreta que fica proibido o uso de cerol ou de qualquer produto semelhante que possa ser aplicado em linhas de papagaios ou pipas e no artigo segundo estipula que o não-cumprimento desta lei acarretará ao infrator o pagamento de multa no valor de 5 (cinco) UFESPs, sem prejuízo da responsabilidade penal e quando o infrator for menor, os pais serão, para todos os efeitos, os responsáveis.

            – você já reparou, meu amigo, que normalmente estes fenômenos culturais interditos são oriundos e praticados nas periferias das cidades?

            – interessante isso, Gastão…

            – esta interdição, moral e legal, não deve acontecer por acaso e nem ser mera coincidência, acredito. Existe um vício histórico em nossa legislação, você deve saber disso melhor do que eu, a Casa Grande ainda pode fazer muita coisa que a Senzala não pode, embora, perante a lei, todos sejam iguais…

            – verdade, Gastão, nisso eu concordo com você. Veja o caso do pancadão, que cada vez mais tá virando caso de polícia. Alias, escrevi uma crônica semana passada, mais um capítulo do meu livro de memórias, posso ler pra você:

            – claro, fica a vontade:

            – vamos lá; é um pouco longa, se tiver ficando chata você me avisa, tudo bem?

            – manda bala, sou todo ouvidos...

           

Jardim Míriam, 17 de setembro de 2016:

Notas sobre o último pancadão.        

            As primeiras rodas da galera vão se formando em volta dos carros ainda no final das tardes… motos vão sendo puxadas no grau e rasgam a rua durante todo o dia, anunciando o evento e pipocando escapamentos como se fossem tiros de 380. A vizinhança – mais velha, religiosa, ordeira e trabalhadeira, já antes do Jornal Nacional sente revolver a bílis logo no primeiro estouro das caixas de som: “é hoje que ninguém dorme”, diz um; “tomara que a polícia venha ai, arrebentá essa cambada de vagabundo drogado”, deseja outro; “num sei o que acontece com essa juventude de hoje em dia que só quer saber de droga e safadeza e dessa porcaria de música que só fala palavrão”, inda aquela. 

            Aqueles e aquelas que não se envolvem, assim, diretamente, acompanham a movimentação, de longe, nas calçadas ou através dos portões. Carros rebaixados começam chegar, subindo de rézinha no mei fio da praça; alguns demasiadamente socados são colocados pra cima por um grupo de parças, como se fosse um cadeirante auxiliado por alguém de coração mais solidário.

            Léléques de gel no cabelo e garrafa de balalaika à mão vão encostando. Piriguetes agilizando contatos no whats e chamando atenção, pela ousadia do salto, da sainha, do shortinho, do batom… Os Don Juan de quinze dezesseis anos farejando as presas. Grupos formando em redor dos porta-mala abertos, que expelem o néctar sonoro daquele encontro dionisíaco; o funk. Todos alí têm sonhos, vontades, mágoas, frustrações pequenas, médias e grandes, alegrias e preocupações. Vão chegando com sorriso no rosto, felizes; lindo de se ver.

            O cheiro de maconha vai perfumando o ar. N'outro lado da praça a mesma funça; na ponta: igual. E a sonora descomunal do pancadão invadindo os lares cristãos. Alguma senhora vem até o portão e olha pra tudo aquilo como uma grande massa de delinquentes cujos pais – se os têm – não souberam educar seus filhos.

            Uma mina mais saidinha, depois duns goles na balalaika com kissuco e de uns tapas no baseado, começa dançar de forma mais saliente. Outras se encostam numa espécie de contra-dança. Aos poucos, uma áurea luxuriante vai tomando conta da pracinha, já apinhada de gente e carro e moto. Alguns casais se formam e os beijos são de tirar o fôlego a qualquer apaixonado, mostrando ao bom observador que o Tarcísio Meira não aprendeu absolutamente nada em matéria de beijo.

            Surgem as primeiras rodas de farinhada. Taturanas vão sendo esticadas em capas de CD ou em carteiras, adolescentes narinas vão aspirando o pó branco com menos de 20 % de cocaína; só Deus e os distribuidores sabem o restante da mistura. Baseados enormes vão sendo cochados em seda de buteco, balalaika com energético ou Tang, cerveja e vinho vagabundo vão sendo tomados a rodo. O funk emana dos mais de dez porta-mala abertos. O ritual entra em pleno estágio de despersonalização. Motos são aceleradas com minas na garupa. Algumas minas pilotam motos, com outras minas na garupa.

            A vizinhança não dorme e não aguenta mais “essa bagunça”, todo santo fim de semana; que Deus havia destinado pro nosso descanso e recolhimento. O que a vizinhança não sabe é que não é todo mundo que usa droga, bebe muito e faz sexo e sim uma minoria e que o geral da festa é um encontro tão potente e tão vivo, de uma energia demolidora tamanha, que poderia nos dar uma nova sociedade…, mas o que queremos é saber da droga, da bebida e do sexo – o que queremos saber ou o que querem que a gente saiba?

            Quanto de vida será que pulsa no olho daquele furacão? Quanta energia libidinal sendo dispersada?, quanto prazer? Quanta força demolidora da moral e dos bons costumes não há ali reunida? E se juntássemos toda essa vontade de potência em prol de um mundo outro? E se toda essa juventude se reunisse pra reivindicar mais espaços de lazer, mais lugares de sociabilidade, mais cultura, mais livro, mais teatro, mais cinema, melhores escolas, mais universidades, melhores ruas, melhores casas, melhores meios transportes? E se eles pudessem usufruir de outras formas de sensibilidade, de outras estéticas, de outras modalidades de prazer?

            Do outro lado da pracinha, em pé, observando tudo através das grades do meu portão, vou me pondo estas questões. O que eu tô fazendo aqui, às três e cacetada da madruga? Ora, trabalhando: - vendendo droga praquela mulecada. Foi uma das formas que aprendi pra ganhar dinheiro na faculdade. E aprendi com alguns rapazes muito bem colocados em nossa sociedade, do ponto de vista econômico e familiar. Comecei a vender maconha no segundo ano da Faculdade de Direito do largo São Francisco. Eu estudei muito pra entrar lá; fiz quatro anos de cursinho e vi que se continuasse trabalhando como Policial Militar, não iria ter tempo para os estudos.

            Passei de soldado da PM à traficante da Faculdade de Direito; foi uma mudança drástica em minha vida, embora tenha sido lenta e gradual, sem grandes sobressaltos. Na PM eu era do setor administrativo e nunca tinha ido fardado pra faculdade, de modo que ninguém sabia qu'eu era mike. Confesso que no início eu tive enorme vontade de dar um flagrante em alguns playboys da São Francisco, mas percebi que quem ia acabar se fodendo pra valer seria eu, tamanhas costas quentes aquela rapaziada. Na verdade nunca fui militar de coração, fui mesmo um civil que vestiu fardas, por falta de outras oportunidades. Por isso fui pro setor administrativo e lá fiquei até conseguir estudar e buscar algo melhor.

            O que eu fiz: o que sabia fazer de melhor – me infiltrei entre os delinquentes. Fiz amizade com um ou dois – que traficavam, é bom que se diga, não por necessidade, mas por uma vontade de contradizer a própria história e por um sentimento de subversão, que talvez tivessem herdado dos pais, hoje promotores de justiça, ontem maconheiros e opositores ao regime ditatorial. Eu conhecia cada biqueira dessa cidade e sabia onde arranjar um bom pó, um fumo do verde, um haxixe de qualidade, balas e sintéticos a preço justo.

            Quando apresentei a um destes estudantes cento e cinquenta pinos de cocaína, pra vendermos na tradicional

festa da peruada, ele quase caiu de costas. Perguntei se topava uma parceria comigo: eu descolava o produto e eles vendiam pros estudantes. Formamos uma quadrilha dentro da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e abastecíamos as festinhas, as repúblicas e os viciados a granel, com todo e qualquer tipo de droga. Claro que do universo dos estudantes, apenas uma minoria faz uso de drogas, mas uma minoria muito fiel e rentável.

            Com esse negócio eu pude me exonerar da corporação e me manter na Faculdade e me dedicar integralmente aos estudos. E acabei pegando gosto pela coisa: hoje estou fazendo mestrado em História e Antropologia do Direito e no semestre que vem começarei dar aulas numa faculdade privada. Até lá, espero abandonar a carreira de traficante.

            Ainda vendo drogas para os estudantes, em várias faculdades, públicas e privadas.  Consegui chegar em alguns professores também, que são mais exigentes com a cocaína e menos com a maconha. Mas diminuí minha atividade junto ao público acadêmico depois que começou esse pancadão aqui na praça. Faturo uma grana alta nas sextas e sábados. Graças a Deus, sempre fui uma pessoa muito bem relacionada aqui no bairro. Ninguém tem um A pra falar de mim. Quando meu pai morreu eu assumi as rédeas da casa e cuido da minha mãezinha melhor do que ninguém cuidaria. Sempre fui esforçado e trabalhador, estudioso, honesto, sempre ajudei quem precisou, inclusive emprestando dinheiro.

            Mamãe não gosta muito qu'eu fico saindo lá fora de noite “pra ver o que tá acontecendo lá na pracinha”, mas eu falo pra ela que tá tudo bem, que tô indo olhar pra ver se não tem ninguém mijando em nossa árvore. Este é o nosso combinado. O cliente encosta na árvore, fingindo que vai mijar, diz o que quer e eu passo: “dois pino”, “uma bucha”, “uma bala”, “um haca” e a transação é feita bem rapidinha, dinheiro por entre as grades, mercadoria na mão dele. Às vezes, fico lá fora horas e horas, muquiado na sombra, esperando alguém aparecer. Para alguns mais chegados eu me comunico pelo celular.

            São quase quatro horas da madrugada; estou aqui em meu quarto estudando e recebo um toque: “dois pino e uma muca”. Vou lá fora ver se não tem ninguém mijando na árvore. Passo a encomenda, volto pra dentro. O menino, Rafael o nome dele, eu o vi nascer. Está completamente arrebentado de tanto cheirar essa merda e beber essa vodka vagabunda. Muitos sociólogos não sabem disso: a droga que mais vem destruindo a juventude na periferia não é a cocaína, nem o crack, muito manos a maconha; a desgraça dessa geração chama-se vodka, que é comprada a cinco reais o litro no Mercadinho, completamente legalizada.

            Observo o Rafa voltando lá pra pracinha; trôpego de bêbado, nos seus dezessete anos  completamente arrebentados. Os pais dele são testemunhas de Jeová, gente simples, trabalhadeira, mas o filho enveredou por outros trilhos, dizem que já anda fazendo umas fitinhas por ai. O pancadão tá a todo vapor. Algumas meninas já estão no capô de alguns carros, dentro de outros há casais transando e fora uma multidão assistindo. O funk come solto nos mais de dez porta-malas selados de som no talo.

            Sinto no mais fundo do meu ser uma vontade enorme de estar lá, não sei se me divertindo, mas lá. Ao mesmo tempo fico muito triste por não poder fazer nada, além de ajudar na diversão deles, vendendo drogas. Volto pro quarto, pro meu estudo, mas logo tenho que sair novamente, outra encomenda…

            Minha mãezinha levanta pra ver se tá tudo bem. Encontro com ela na porta e digo que sim. Ela reclama da altura do som, do monte de palavrão dassas música nojenta. Eu penso em falar pra ela… “mãe, essa música toca também nas novelas da Globo que a senhora assiste, e no programa da Regina Casé… e a senhora nunca reclamou...” mas deixo quieto. Às vezes me faz falta alguém aqui em casa pra conversar comigo sobre essas coisas.

            Ouço barulho de sirenes. Vixe, alguém da vizinhança chamou a polícia. Pelo estardalhaço deve ser o Tático. Corro lá pra fora. Os carros já estão sendo ligados; alguns saem na arrancada, quase atropelando quem tá pela frente, as motos são as primeiras a sumir; meninas tirando o sapato e saindo correndo, a polícia chega sem massagem, sem negociação, mandando bala de borracha e gás lacrimogêneo. Alguns muito loucos mandam pedradas na tropa, que responde com mais tiro, porrada e bomba. Algumas viaturas sobem na pracinha, agora é só o som dos giroflex e dos tiros de borracha, além das tais bombas de efeito moral. A áurea dionisíaca se desfaz num susto e a praça do prazer acaba virando um campo de batalha.

            As luzes da vizinhança se acendem. Cachorros latindo desesperados, moradores e zé-povinhos espirram ao inalar o gás. Minha mãezinha me chama pra dentro, assustada, com tamanha balburdia.

            Aos poucos o tumulto vai se desfazendo, as sirenes vão sendo desligadas, alguns vizinhos saem às ruas para conversar com os policiais. O seu Donato vai lá cumprimentar um dos PM's, dizendo que não via a hora deles chegarem pra acabar com aquela farra. Dois carros acabam sendo apreendidos, pois tiveram o azar de as baterias descarregarem. Todo mundo sumiu, como num passe de mágica.

            Um menino acabou desmaiando no meio da confusão toda. Alguns PM's tentam reanimá-lo. Putz; é o Rafa. Jogam água na cara dele e dão uns tapas. O menino parece que volta um pouco. Perguntam o nome dele, onde mora, o que tava fazendo ali. O coitado está completamente grogue, não consegue articular as palavras.

            Deixam ele lá caído e começam a recolher algumas coisas pelo chão. Um soldado acha alguns pinos e mostra prum cabo; outro soldado pega algumas garrafas de vodka espalhadas pelo chão. Um sargento aciona os guinchos para apreenderem os veículos e levar pro pátio. A festa parece que acabou. Talvez não tenha no fim de semana que vem; vou ter que fazer uns contatos nas faculdades pra ver se vendo um pouco a mais pra eles.

            A vizinhança, enfim, vai dormir sossegada. Também vou me deitar um pouco, já está amanhecendo o dia. Logo logo tenho que me levantar pra jogar um pouco de água no tronco da árvore, alguns clientes não respeitam minhas recomendações e acabam mijando de verdade. O cheiro, depois, se o sol vir a pino, é quase insuportável. 

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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