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Breve notícia sobre Maurício Macaco Velho

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ENTREVISTADOR: Maurício, o que você acha dos comentários sobre seus livros que apontam para sua vida privada e para uma suposta “mensagem subliminar” que algumas histórias por você criadas queiram na verdade transmitir para as crianças?

 

MAURÍCIO MACACO VELHO: Na minha opinião, a busca cada vez mais frenética de muitos estudiosos contemporâneos para encontrar traços da personalidade dos escritores em suas criações é uma das manifestações mais salientes da ideologia liberal no âmbito da crítica literária. Esse tipo de comportamento há muito que já se vulgarizou, também, para a sociedade leitora de um modo geral. Infelizmente esta onda está chegando na literatura infantil, depois dos episódios envolvendo o Monteiro Lobato, e vai atingir inequivocamente outros escritores e escritoras de livros infantis. Não foi esse o caminho pretendido por Freud quando tratava de literatura, é bom que se diga. Leo Spitzer intentava outras perspectivas, penso eu. Seria uma espécie de retorno do “gênio” romântico, teoria que reputa toda e qualquer forma de criação ao ímpeto da individualidade do criador? É pouco provável. Tal busca vem sendo orientada, na minha modesta opinião, por um desejo de conhecer a 'intimidade' do outro, no sentido mais largo possível dessa palavra, desejo este que perpassa nossa cultura como um verdadeiro zeitgeist. O desejo de conhecer, é bom que se diga, neste caso, necessariamente vem acompanhado pela vontade de julgar, num padrão de moralidade maniqueísta cada vez mais irretocável. A derrocada da arte como instituição social, e da literatura por conseguinte, segue os padrões gerais de uma gnosiologia individualizante como um bote salva-vidas segue um transatlântico. Este, por sua vez, quando alguém sustenta a ideia de que nem deus o afundará, rachar-se-á fatalmente contra o primeiro iceberg que encontrar pela frente. O bote, se lhe for dada a sorte de se desprender de seu grande guia, ficará à deriva pela infinitude dos oceanos…  até o dia em que aportar numa praia deserta e ser encontrado por uma criança que ainda não tenha perdido completamente sua ingenuidade e o senso de beleza perante o mundo. Depois da sorte, a beleza salvará o bote e este deixará de seguir um tirano transatlântico para dissolver-se na inteligência maravilhosa de uma petiz inconsequente.

ENTREVISTADOR: ( crí crí crí crí…..)

            O mundo da literatura infantil sofreu um duro golpe após a entrevista concedida pelo escritor Maurício Macaco Velho à Revista Isto Era. Este é um dos trechos da entrevista, que citamos acima, com o intuito de chamar atenção dxs leitorxs para alguns dos motivos que levaram Macaco Velho a abandonar a escrita.

            Considerado o maior escritor brasileiro de livros infantis, o baiano de Cachoeira acumula nada menos que 87 premiações, nacionais e internacionais, e nas mais diversas categorias, concedidos em reconhecimento aos mais de 350 títulos publicados ao longo de 35 anos de atividade ilícita.

            Aos 65 anos de idade, momento em que muitxs escritorxs começam adentrar na maturidade de suas carreiras, Macaco Velho anuncia que irá “pendurar a caneta” – como ele mesmo brinca num trecho da entrevista –, aposentadoria recebida com muita tristeza pelos amantes de suas histórias.

            O escritor assegurou, no entanto, que não abandonará completamente o mundo das letras e que pretende trabalhar a partir de agora nas traduções e adaptações de seus livros. Sua obra se encontra traduzida para mais de vinte línguas e a demanda internacional por novos títulos parece que não irá arrefecer tão cedo. Países como Turquia, Cazaquistão, Irã, Marrocos, Nigéria, Congo, são alguns que estão pleiteando títulos do criador de “Laurinha, a enfezadinha que gostava de carrinhos”.

            Seu último livro, “O mundo eh de Todes”, já foi traduzido para mais de dez países, entre eles Alemanha, EUA, França, Itália, Canadá e Rússia, além de estar prevista uma adaptação para o teatro e até um filme de animação.

            Quem não se encantou com a história da professora Leonarda, que num belo dia resolveu chagar na escola dando um sonoro “Bom dia a todeees!!!”, despertando a curiosidade das crianças a respeito de tão estranha manifestação linguística.

            Em meio a brincadeiras e desconfianças, a prô Leonarda utiliza deste artifício para ensinar um pouco de língua portuguesa, desfazendo com muita imaginação e criatividade o equívoco heteronormativo de se concordar nominalmente para o masculino, quando numa mesma sentença estiverem presentes substantivos masculinos e femininos.

            São passagens engraçadíssimas e muito instrutivas as artimanhas da prô Leonarda para despertar o interesse das crianças pela língua:

            Um dia ela retira todos os meninos da sala, deixando apenas um, e finge estar chegando pra dar aula; entra na sala e diz “Bom dia a todos!” - assim ela mostra como a norma culta impõe a concordância para o masculino, mesmo quando há apenas um representante para este gênero em meio a uma maioria esmagadora de representantes do gênero oposto.

            Depois inverte a brincadeira, retira todas as meninas, deixando apenas uma… finge estar chegando e saúda a turma predominantemente masculina com um sonoro “Bom dia a todas!”. E no final pegunta como seria o mundo se nossa língua fosse normativamente orientada pelo gênero feminino… Claro que ela não usa esse linguajar empolado que estamos utilizando aqui. Quem já leu o livro sabe da destreza da professora para adequar a linguagem ao estagio cognoscitivo da criançada de uma sala de segundo ano daquela escola diferentona.

            Mas há crianças espertinhas que logo questionam: “Mais prô, por que a senhora não diz 'bom dia a todos e a todas!!'”, no que a prô Leonarda rebate com a teoria da economia linguística, citando diversos exemplos como:

            “Vossa Mercê”, que virou Vosmicê, Vencê, Vancê, que deu em Você e que agora é apenas Cê.

            Depois emenda um “Nossa Senhora da Aparecida do Norte”, que foi pra Nossa Senhora da Aparecida, depois Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora, Nossa, Nú!

            Ou ainda a deliciosa expressão baiana derivada do “O que é isso, minha gente!”, que hoje em dia se diz apenas “Oxente!”;

            … e termina com o famoso “Olhe pra isso, olhe”, que pela necessidade ontológica da economia linguística foi baianizada no delicioso “Ó paí, ó!”.

            É um livro magistral, para dizermos o mínimo. Tão importante que passou a despertar a ira de setores conservadores de nossa sociedade.

            Não se sabe quem foi que  “levantou essa bola”. O certo é que alguns ou algumas, censores ou censoras, começaram a questionar a pertinência pedagógica do livro.

            “O mundo eh de Todes”, a partir do momento em que fora adotado pelo sistema público de ensino de algumas cidades do país, entrou na mira da implacável banca inspetora dos saberes que por algum motivo podem vir a destoar da Ordem e do Progresso. Paladinxs de uma certa moralidade esquizofrênica enxergaram na figura da professora Leonarda um tipo de personagem ideologicamente orientada para o pensamento que insiste em levar para o currículo das escolas a tal da teoria dos gêneros.

            O livro de Macaco Velho acabou virando o centro de uma discussão pra lá de surreal entre defensorxs da teoria dos gêneros contra defensorxs da determinação biológica e dos preceitos bíblicos.

            A coisa acabou parando na comissão de ensino de muitas câmaras legislativas. O caso mais emblemático foi o de uma grande cidade que se ufana por ser uma das maiores e mais modernas do mundo. No dia em que estava ocorrendo a votação para determinar se o livro de Macaco Velho seria ou não extirpado das escolas, os dois grupos acabaram se encontrando na plenária – o grupo defensor da teoria biológica e da bíblia rasgou e queimou diversos exemplares de “O mundo eh de Todes”. A coisa foi vexaminosa e a câmara daquela moderna cidade acabou decidindo por vetar a presença do livro nas escolas.

            Depois deste episódio, a vida e a obra de Macaco Velho ganharam os holofotes da mídia e até mesmo da academia. A visibilidade foi tamanha que não tardou começar pipocar aqui e ali alguns livros “problemáticos” do escritor – problemáticos sob um certo ponto de vista, é claro.

            Outro título que causou bapho e chamou atenção de especialistas e apreciadores da literatura infantil foi o até então pouco conhecido “O menino do dedo amarelo”. Trata-se da história do pequeno Rafael, o menino tímido e “meio aluado”, como gostavam de dizer alguns mais próximos. Em casa, na rua, na escola, o pequeno Rafael andava sempre “no mundo da lua”, como diziam os mais próximos.

            Aquelxs que leram o livro vão se recordar das características que mais chamavam atenção de todes que conviviam com o menino: as constantes manchas amarelecidas nas pontas de seus dedos, mormente nos dedos indicador, médio e na polpa do polegar da mão direita.

            Ninguém sabia donde vinham tais manchas e o menino tampouco dava pistas sobre tal. Até que se formou uma comissão investigativa entre os alunos evangélicos da escola, pra tentar solucionar tão instigante mistério. Claro que não daremos o spoiler do livro, mas a cena em que a turma de investigadores mirins flagra o menino Rafael regando um vasinho de planta atrás da escola, e saem correndo de pau atrás dele, é uma das passagens mais intensas e grandiosas de nossa literatura.

            Inacreditavelmente, a identificação de “O menino do dedo amarelo” como uma pretensa apologia às drogas levou o escritor a prestar depoimento na delegacia, pra esclarecer alguns pontos relativos a certos artigos e parágrafos da lei 11.343/06. Macaco Velho disse que nunca se sentiu tão humilhado em sua vida e a partir daquele momento começou a pensar seriamente em abandonar a carreira de escritor.

            Foi este o tom de sua entrevista à Isto Era: um misto de decepção e tristeza acerca de um país tão maravilhoso, mas que gerido por gente tão mequetrefe…

             Mas o escritor não deixou por menos. Num arroubo de indignação, fez questão de, nesta entrevista, revelar o que as pessoas tanto estavam o acusando:

ENTREVISTADOR: Maurício, quais são suas fontes de inspiração?

MACACO VELHO: Olha, a vida é minha grande inspiração; os detalhes do cotidiano, algumas cenas que presenciamos, algum livro que lemos, uma canção que ouvimos, um cheiro que sentimos e que nos faz lembrar de alguém ou de algum fato do passado, uma decepção amorosa, um equívoco qualquer ou um simples sentimento que brota em nós fortuitamente e que já nos adestramos para interpretá-lo em suas motivações mais profundas. O mais incrível de tudo é que nunca convivi com crianças, nem mesmo quando fui criança. A minha geração é a geração do ácido, do LSD e da maconha. Eu fiz faculdade de filosofia, mas não me empolguei em seguir a carreira acadêmica, embora sempre tenha gostado de escrever. A primeira vez que tomei um ácido, senti uma vontade enorme de escrever alguma coisa e foi neste ímpeto que criei minha primeira narrativa infantil –  “O menino que via elefantes voando”. Escrevi a história em menos de uma hora e ainda tive inspiração para criar outras duas – “Elisabeth e sua amiga imaginária” e “O dia em que a lâmpada mágica de Aladim ficou sem bateria”. A partir desse momento a coisa fluiu com enorme naturalidade. Eu trincava um baseado e escrevia uma história, mandava um doce e arrepiava trêis. Claro que entre um e outro momento criativo eu dava enormes intervalos, mas a tônica sempre foi essa. Nunca tive pretensão de atuar em “temas espinhosos” ou que minha literatura fosse uma “literatura engajada”. Revendo este retrospecto todo, ainda mais depois que estas questões começaram a surgir, eu fico cada vez mais convencido de que o que sempre me motivou foi um ideal de paz entre as pessoas e o desejo de levar alegria às crianças, além de despertar o desejo pela leitura e a imaginação criativa. Talvez eu tenha escolhido as crianças como público-alvo por ter perdido completamente a fé na humanidade, coisa que vem acontecendo com todes nós numa velocidade e abrangência cada vez mais assustadora. Se estou dizendo tudo isso agora, posso assegurar que não é por uma necessidade de causar polêmica, mas pra jogar um pouco de lavagem aos porcos, se é que você me entende.

ENTREVISTADOR: Entendo, claro… 

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Alexandre Rosa

Escritor e cientista social formado pela FFLCH-USP, é educador no Projeto Vocacional Literatura, da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, e Mestrando no programa "Cultura e Identidades Brasileiras" do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde desenvolve pesquisa sobre o escritor Lima Barreto.

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