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A banalização do discurso – ou ainda, o silêncio dos inocentes (parte 1)

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Em tempos de polifonia facilitada pelas redes sociais, todo usuário que possui um perfil ativo em algum desses sites já cedeu à tentação de atuar como juiz impiedoso, advogado apaixonado, investigador digno de Sherlock Holmes ou da série CSI.

Sabemos tudo, estamos a apenas um click da verdade. Hoje, com a facilidade de acesso ao discurso do mais ilustre anônimo de qualquer parte do mundo, vemos serem assassinados com brutalidade a ética, a democracia, os direitos humanos e o bom senso. Saudades de quando os homicídios se restringiam a língua portuguesa – que vá lá, é uma senhora difícil e impiedosa quando em sua faceta formal.

“É minha opinião”, esbravejamos. Lembro-me da infância, quando aprendi pelo fantástico programa Castelo Rá- Tim- Bum que “Porque sim não é resposta” ou, ainda, o ódio mortal que a professora do primário me despertava quando me obrigava a suar sobre a lição para desenrolar aquele “Justifique sua resposta”. Ai de mim se justificasse com “É minha opinião” ou “Você tá falando bosta”, mesmo quando a sentença me dizia para responder de acordo – pasmem! – com a minha opinião. Considerando que estudei em uma escola comum, com crianças comuns submetidas ao mesmo currículo e livros que eu, me espanto ao ver minha geração se esquecer das lições que sacrificavam nossas mãozinhas. Pior ainda, me causa espanto ver uma geração que nasceu junto à democracia no país, que levanta as demandas de bandeiras progressistas, ser tão obtusa quando confrontada com as incoerências de suas posições.

Sim, meus caros, incoerência. Eu ainda não conheci, nem como dado histórico, algum movimento progressista ou conservador, que não guarde suas incoerências. Parece-me que incoerência é um traço muito humano por sinal, mas não sou versada em psicologia ou filosofia. É só um achismo oriundo da observação do cotidiano. O problema das “discussões de Facebook” não é a incoerência, mas a relutância em assumir buracos teóricos de ideologias. Mais uma vez ressalvo: não é uma crítica a nenhum movimento específico, independente destes se situarem mais a esquerda ou mais a direita (seja lá o que isso significa). É um comportamento observado a olhos vistos na maior parte dos frequentadores dos comentários de páginas e notícias dos mais diversos temas.

Eu fico pasma quando alguém que luta por uma bandeira que se legitima por não ser totalitária manda algum interlocutor “calar a boca”. Fico pasma porque dificilmente vejo esses paladinos se esforçarem em desconstruir com argumentos científicos ou de experiência prática os comportamentos que se pretende mudar; a preocupação é reproduzir memes e frases feitas de internet. Pior ainda, é quando questionamentos legítimos sobre aspectos pontuais são silenciados deslegitimando o interlocutor: “Você é homem, não pode falar de feminismo!”, “Você não teve um parente assassinado por um menor, então não vem defender bandido!”, “Você recebe x assistência governamental, então é Petralha!”. A lista dessas frases – que já viraram bordões – é longa.

Deslegitimar o seu interlocutor, por mais equivocado que ele esteja, afeta a possibilidades de gerar empatia. Como colocar-se no lugar do outro, pensar com os códigos de moralidade do outro, saber das dificuldades do outro e desconstruir os vícios desse “outro”, se nunca estou disposto a ouvi-lo e a sanar suas curiosidades? Obviamente, isso não se aplica a posições desrespeitosas. Para má-fé intelectual cabe uma explicação concisa e encerrar o assunto. Para as injúrias, ofensas pessoais, ameaças e posicionamentos racistas, homofóbicos, sexistas, xenófobos e preconceituosos em geral temos o código penal. Para as discordâncias de posicionamentos e ações resta a oportunidade de aprendizado e um passo a mais em direção à civilização. Calar quem pergunta, debate ou se posiciona de forma divergente culmina no que Hannah Arendt (1906-1975) chama de banalização do mal: a falta de reflexividade de pensamento como fomentadora de violências conduzidas por processos de massificação. Independente da sua posição na luta, seja qual for sua luta, não seja só mais um idiota útil, passivo receptor ideológico. Leia, viva, converse e, acima de tudo, questione suas próprias crenças.

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Vanessa Silva

É mãe da pequena Helena. Nas horas vagas é mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora e faz da ciência, da política e da religião seu vício e sua virtude. Também está dando os primeiros passos no universo da escrita.

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