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É o que tem pra hoje

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A cada onda de manifestações na internet sobre algum tema que explore a vulnerabilidade humana (atentados terroristas, fome, miséria, direitos de minorias, etc), nasce uma contracorrente que acusa os que publicamente se comovem de hipocrisia. Otimista que sou, não trato com tanta leviandade essas comoções de massa.

Não acho o apreço pelos problemas da humanidade uma “modinha” pra ganhar likes. É evidente que a miséria e a tragédia despertam muito interesse nos mais diferentes indivíduos, basta olhar o movimento de um acidente numa via pública. Esse nível de curiosidade antecede a televisão e a internet, meios que inovaram no encurtamento de fronteiras, mas não no voyeurismo mórbido. Se observarmos na mitologia grega, já estava lá a fofoca entre os deuses despertando tragédias... Temos também o apedrejamento de Maria Madalena e a crucificação como eventos descritos como sucesso de público na Bíblia. Da mitologia e dos livros sagrados para a vida real, um fenômeno é comum: o expectador passivo. Não consultei nenhum tratado de psicologia, mas o que a observação empírica me oferece é que a maioria se comove diante de um problema e poucos agem sobre o problema.

Outra razão que não acho que hipocrisia defina esses movimentos de massa despertados pelas causas humanitárias e pela tragédia é que pra ser hipócrita, segundo o dicionário Aurélio, há que se ter fingimento. Esse termo significa “Afetação de virtude ou sentimento que não se tem”. Se eu acreditar que as pessoas que se comovem com qualquer tipo de situação que atente contra qualquer vida ou a dignidade humana, não tem mais razão para estar viva. Estar no meio de leões famintos seria um fim mais doce.

A indignação pode ser seletiva em alguns casos, mas creio que isso tem a ver com a forma com que certos casos são noticiados. Para haver comoção, há que se ter o fato que comova; e isso tem dois efeitos colaterais mais visíveis, sendo a insensibilidade com as tragédias cotidianas (quase ninguém sofre pelos moradores de rua, por exemplo) e a transformação da tragédia em espetáculo economicamente rentável (vide o sucesso dos programas policiais) - o que talvez seja moralmente questionável. Contudo, seletiva ou não, a indignação move o mundo, ou pelo menos abala as instituições que movem o mundo. Certa vez, vi em um debate o grande cientista Neil DeGrasse Tyson afirmar que o financiamento para a ciência não era movido pela curiosidade ou o bem-estar universal, mas pela política. E é o interesse político que precisa ser despertado para que situações de indignas ou de injustiça sejam corrigidas. A palavra que define isso é mobilização e, nessa hora, o compartilhamento pouco refletido, porém bem intencionado funciona como poderosa arma (não a única e nem a mais eficiente).

O mundo é vasto e os problemas da humanidade tão vastos quanto. Não é possível se ocupar de todas as causas nobres e com a nobreza de estar bem informado a ponto de conferir todas as fontes em três vias. Mas a tragédia pontual, aquele caso que todo mundo está comentando no momento, é um mecanismo de pressão muito interessante. Assim como não é possível se ocupar de todos os problemas do mundo (quem consegue se ocupar de todos os problemas que atinge a própria vida) também não é possível pensar em um movimento que transforme todos os vícios da humanidade em virtude. É preciso pensar no que tem pra hoje como alternativa para resolver um problema. E se pensar nas dificuldades de se resolver uma grande questão fosse razão para a inércia, estaríamos ainda na escravidão, pra dizer o mínimo.

Por fim, grandes mobilizações despertam algum nível de reflexão, sendo o meio pelo qual uma boa parte das pessoas toma conhecimento de certas causas ou de certos pontos de vista. Dar uma chance para a modinha pode ser o primeiro passo para a mudança de um quadro desumano. E mudanças só acontecem assim, passo-a-passo. Ou com uma grande revolução. Mas isso é assunto pra outro texto.

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Vanessa Silva

É mãe da pequena Helena. Nas horas vagas é mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora e faz da ciência, da política e da religião seu vício e sua virtude. Também está dando os primeiros passos no universo da escrita.

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