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Café Laje

Foto de Sissy Eiko Foto de Sissy Eiko

A vida de um profissional freelancer tem vantagens e desvantagens - a maioria relacionada ao tempo. Como, por exemplo, o descompasso entre o recebimento do cachê e a data do pagamento da conta d’água; ou o novo job de última hora e sempre muito bem-vindo apesar de bem no meio do feriado. Mas não podemos nos esquecer de exemplos e compassos agradáveis ainda não citados, como o inalienável direito à cesta com punheta depois do almoço. E a visita não programada de uma amiga em horário comercial, como ele descobrira depois.

Pensava isso ao fim do dia, ao longo de um gole, curto porém saboreado, na xícara de café que, apesar do café de excelente qualidade, era de chá, sem pires, sem par e também servia água do filtro para as visitas. Pois esse café, junto com a vista daquela laje - que se impunha sobre a Estação Vila Madalena, logo à direita, e que tinha, à esquerda, como que sobre o tronco iluminado de carros enfileirados na Avenida Heitor Penteado, as copas verdes das árvores, apenas superadas pelas altas torres da TV Cultura e da Igreja Nossa Senhora de Fátima - eram os dois únicos luxos na edícula alugada aos fundos da firma de embalagens industriais.

Era uma estreia. A máquina de cafés especiais havia sido comprada na madrugada de insônia anterior e chegou por volta das duas da tarde, mediante o pagamente de pequena taxa adicional pela agilidade. Optou pelo modelo vermelho, que, conforme anunciavam, adaptava-se perfeitamente a qualquer decoração e estava em oferta por 499 reais, com parcelamento de até seis vezes sem juros. Além disso, era possível ganhar 100, 200, 300 ou até 400 reais em cápsulas coloridas. Optou por 400 cápsulas, afinal, a semana havia sido próspera e ele era por natureza um otimista.

Dentro da caixa de papelão que abriu ansioso sobre o sofá esgarçado havia outra, de ouro velho. E dentro da caixa de ouro velho, havia a máquina, os acessórios e o manual de instruções, que leu com dedicação. Após montar o equipamento, instalou-o sobre a pia da cozinha, ao lado do escorredor de pratos. Parou sobre a pia. Analisiou o conjunto. Aprovou. Bateu uma foto, com o celular.

Faltava provar o café. Escolheu, entre o kit brilhante, a cápsula de cor roxa, descartável como camisinha. Subiu com a xícara de chá com café para a sua laje infinita.

Pensou em Joana. Pensou em Laura. Pensou em Maria. Quantas mulheres numa pequena xícara de café? Contemplava o trânsito e a rotina inalterável motoristas, dos traseuntes, dos usuários do metrô no nível do asfalto. E lembrou-se do poema de Leonard Cohen, que, um dia, talvez, enviaria a alguma amiga, junto com o selfie do café:

Seus seios são lindos, um sabor de porcelana quente de adoração e cobiça.

Seus olhos chegam a mim sob lanças perfeitas de cílios imperecíveis.

Sua boca se alimenta de palavras francesas.

Só com você eu não imito a mim mesmo.

Só com você eu não peço mais nada.

Venha para mim se estiver envelhecendo.

Venha para mim se estiver a fim de um café.

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Ana O

É paulistana desde 1979, jornalista freelancer e ghostwriter desde 2005 e poeta desde o big bang. Coordena a oficina de autobiografias “Sua vida dá um livro?” enquanto prepara um novo livro de poemas.

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