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Um filme escuro

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[Cena um]

O verão começa à meia-noite.

O breu. Uma perua encosta no portão.

O farol desenha um círculo amarelo-luminoso sobre as ripas em forma de setas.

A corrente se desenlaça embaixo da pequena cobertura de telhas.

Um cachorro late.

As rodas avançam pelo caminho de cimento e grama e param no limite da churrasqueira ao lado da varanda.

É uma casa de veraneio a cinquenta metros da praia, branca e com telhado baixo, ao pé da serra.

As venezianas em arco de madeira escura estão fechadas.

O motor ainda range.

Descarregar o porta malas e atravessar a bagagem pela grama mal podada e úmida e cigarras invisíveis.

O fazer as camas.

A menina ficará no quarto com as crianças.

Ela deita sobre o colchão de espuma fino que lhe é destinado no beliche.

Cobre-se com os lençóis gastos e descombinados.

Adormece.

[Cena dois]

A menina busca os chinelos no piso de cêramica vermelha.

O leite ficou fora da geladeira, na caixa de mantimentos ao lado das cadeiras de praia dobradas. O toddy menos que morno empelota no copo de requeijão.

Nos primeiros dias, pão pullman, queijo, presunto e requeijão. Nos últimos, margarina. Aproveitam.

As mães enchem as sacolas de praia. As crianças inventam brincadeiras e birras.

É melhor ir logo, antes que acabe o sol.

Trocar o pijama pela roupa de banho.

As crianças pulam na varanda em sungas e biquinis.

As manhãs têm cheiro de protetor solar.

[Cena três]

Achar três centímetros de diâmetro para o guarda-sol.

Cavar, com a ponta de metal no cabo de madeira, um buraco profundo, firme e estreito.

Fincá-lo e desabrochar o pano colorido.

A sombra se desloca.

[Cena quatro]

Nessa borda do Atlântico a areia é dura.

Deveria servir para fazer os melhores castelos, mas esfarelam.

A menina cava um buraco no raso, junto às crianças. Forma um pequeno lago. Ela mergulha as mãos no fundo do lago. Busca a areia mais molhada.

Levanta um castelo com gotas de areia que escorrem pelas pontas dos dedos.

Uma Sagrada Família.

Baldes, pás e filhotes de ondas, ainda transparentes.

Ondas mínimas ameaçam desmanchar sua Barcelona.

[Cena cinco]

Há fome. A pele arde.

Voltam para casa pelo meio da rua. Não há calçada.

Passam casas brancas com telhados baixos guardadas pela Serra do Mar.

Churrascos, carros estacionados, porta-malas abertos. Há sempre algo a descarregar.

Na varanda, ao lado varal com toalhas e cangas, senhoras gordas de pernas finas e tetas fartas de maiô conversam em cadeiras de praia, afundando a ráfia colorida, enquanto a carne, por certo muito salgada, cozinha na panela de pressão.

Será arroz suficente?

O cereal cozinha na panela enorme, em seu leite branco acebolado.

[Cena seis]

É preciso escorrer a areia dos pés com a mangueira antes de entrar na casa.

Lavar brinquedos e cadeiras.

A menina fica por último. Fecha fracamente a torneira ao lado da alamanda amarela e caminha com os chinelos molhados pela grama empoçada até a varanda.

Seca o solado com o pano de chão amarrotado à beira da porta.

Acabou a praia.

A hora do almoço é o fim do dia.

[Cena sete]

Tem mais água na mangueira de plástico branca do que no chuveiro de plástico branco.

Não há box nem cortina.

O azulejo marrom alaga.

A menina termina o banho e equilibra a toalha nos cabelos.

Um rodo atrás da porta.

Ela faz desaparecer a água pelo ralo e sai do banheiro com os pés molhados.

Acende a luz do quarto. Senta-se na cama e seca os intervalos dos dedos.

Uma lagartixa corre pela parede.

[Cena oito]

Crianças de pele vermelha e banho tomado assistem televisão no chão da sala.

Jaspion-Changeman. Mal acabou o almoço, elas procuram biscoito sobre a mesa de fórmica com pés de alumínio.

Entardece.

O pai ferve a água já com açúcar para o café.

Faltam peças aos dominós.

Faltam cartas ao baralho.

Dois livros de auto-ajuda com orelhas, um outro de Danielle Steel embolorado e novo e revistas da década passada disponíveis na mesinha no canto do sofá, perto do ventilador quebrado.

A tia ronca na rede.

A menina olha para a rua.

Não há nada além do vira-lata que digere as sobras do almoço sob a sombra da amendoeira na frente do portão.

[Cena nove]

Os fins de tarde têm cheiro de repelente.

Pedem à menina que compre pão.

Ela pode ir, é perto.

Cuidado.

Sem pedir, o vira-lata a acompanha pelo caminho de areia e mato.

Duas quadras depois, ela ouve um longo beijo estalando do outro lado da rua.

Assusta-se. Olha.

São as dobradiças da persiana sendo fechadas para impedir pernilongos.

A padaria fica à cinco quadras, na esquina da rua com nome de vereador.

Fila do pão às dezoito horas.

Fila do orelhão.

Há tanta gente, há tanta férias, há tanta montanha. Janeiro é tamanho. Os pacotes de bolacha água e sal nunca acabam. São como verão, intermináveis.

Ela acha uma ficha no chão.

Agacha-se. Levanta-se.

Um menino magro, da sua idade, passa sem camiseta de bicicleta.

[Cena dez]

Todos dormem. Menos ela.

Não há sono para tanta noite.

É muito descanso para tanto dia.

Ela vai até a varanda e confere: o Cruzeiro do Sul, as Três Marias.

Mas esta noite nem a lua veio – salão de festas vazio.

Noites muito longas para colchões tão finos.

Ela hesita e caminha de pijama até o portão. Ela hesita e solta a corrente.

A amendoeira fica para trás, e também o cachorro deitado, que levantou as orelhas, e ignorou.

Passos duros pelo caminho de areia. Linha reta até a rua da praia.

Não há orla urbanizada na avenida principal. Apenas muros e casas.

A menina atravessa a passagem estreita que dá acesso ao mar, entre dois grandes sobrados e lixeiras.

Ela solta os chinelos. Prende-os com os ganchos dos dedos. Chuta a areia.

O Cruzeiro do Sul, as Três Marias. Continuam ali.

Uma casa no alto do morro no canto da praia, escondida entre a mata. Como se chega lá?

As ondas conversam roucamente. Baforejam espuma branca.

O Trópico de Capricórinio é uma linha imaginária.

Passa por aqui?

Ela molha os pés. Como será o ponto equidistante do outro lado na África? Alguém naquela praia?

De repente, um movimento à esquerda.

Atenção.

Um homem de boné vermelho surge no escuro em sua direção.

Ela se lança ao mar? Ela foge para casa?

Mantém-se imóvel.

Espera o homem passar reto.

Mas o homem se aproxima.

Ele pergunta tem fogo?

Eu não fumo.

O homem vai embora.

Ela ficaria até ver a primeira estrela cadente; desiste.

Ela volta pela sombra com os pios das corujas.

Ao chegar, ela abre com cuidado a porta veneziana.

Entra.

A avó, no colchão na sala, levanta a cabeça.

Aonde você foi?

Estava na varanda.

Vai deitar.

Estou indo.

A mentira, esse exercício de liberdade.

Ela deita e pensa se o menino de bicicleta irá à praia amanhã.

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Ana O

É paulistana desde 1979, jornalista freelancer e ghostwriter desde 2005 e poeta desde o big bang. Coordena a oficina de autobiografias “Sua vida dá um livro?” enquanto prepara um novo livro de poemas.

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