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Mais forte que o mundo (direção: Afonso Poyart)

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Como fazer um filme de grande abrangência, de grande público e ao mesmo tempo preservar a qualidade cinematográfica, preservar o trato fino à linguagem? Essa é uma bela questão, sobretudo nos países que a chamada indústria do cinema ainda não está sedimentada, como é o caso do Brasil. E é justamente por ai que “Mais forte que o mundo” trafega.

Existe nesse filme uma série de elementos que se vistos isoladamente nos daria a certeza de onde ele se encontra, ficaria claro que está no espectro do “Cinemão”, um globo filmes desses que leva milhões ao cinema. Sotaques pouco, ou nada, caracterizados, duas atrizes lindas vindas do universo das novelas globais, um ator igualmente bonito de origem semelhante, forte apelo midiático, Rio de Janeiro como cenário, etc. São alguns desses elementos. Mas ele não para nisso.

O elenco é ótimo. Jackson Antunes(Seu José) e Claudia Ohana(Rocilene) uma palavra define, monstros, sem mais. Milhem Cortaz(Dedé) um absurdo, como sempre. Rômulo Arantes Neto(Fernandinho) uma grata surpresa pra mim, achei ele incrível. O trio José Loreto (Aldo), Cleo Pires (Vivi) e Paloma Bernardi (Luiza) também estão ótimos, respondem a altura. Fora isso, o filme é ágil e veloz como seu protagonista. A linguagem de vídeo clipe é muito bem utilizada, as vezes com um pouco de excesso, mas não deixa de ser muito bom e coerente com o filme e com a própria história.

A fotografia, além de muito bonita, é muito técnica, percebemos a linguagem cinematográfica construída através dela. Os enquadramentos, movimentos de câmera, as cores, os hiperlapses, tudo está muito bem pensado e resolvido. Fora os slows, que são um desbunde...uma linguagem pouco usada e que nesse caso foi bem usada, é coerente com o filme e com a história que ele conta.

Mas, pra mim, o ponto forte do filme é todo o universo onírico que corta a narrativa do filme. Incrível como essa parte do filme deixa claro toda a angústia, raiva, medo, ódio de José Aldo sem precisar se valer das fórmulas da tradicional narrativa linear-pedagógica. A forma como às vezes esse universo onírico invade a “realidade” e nos deixa confusos a ponto de não sabermos o que é o que, é incrível, alias, tem algumas cenas que até agora não tenho certeza se representavam a “realidade” ou se eram apenas projeções do personagem. Muito foda

Agora, tenho que destacar a cena em que José Aldo exorciza, por assim dizer, todo o ódio que tem dentro de si. É uma cena que está relacionada a uma frase dita pela personagem de Thaila Ayala, frase que está no trailer inclusive (eu tentando não dar spoiler rs), “Só é lutador quem sabe lutar com sigo mesmo”, uma cena que está claramente no universo onírico. É soberba!!!!! Tecnicamente impecável, cheia de emoção, dramática, catártica e mais um monte de coisa. Tinha tudo pra ser uma cena careta, poderia ser um tratado da narrativa linear-pedagógica, mas é justamente o oposto. É absolutamente incrível! Se o filme fosse uma porcaria, ainda assim valeria a ida ao cinema justamente por conta dessa cena.

É um filme muito ousado. Tem abrangência, qualidade técnica, sem se esquecer da linguagem cinematográfica.

Super recomendo!

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Wellington Darwin

Historiador e cineasta, é sócio na Dgt Filmes onde íntegra diversos projetos como produtor e roteirista.  Um dos mais recentes filmes produzidos por Wellington, CONVICTO, participa do Festival In-Edit Brasil.

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