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Mãe só há uma (direção: Anna Muylaert)

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Um filme curto com tanta coisa a se destacar. Confesso que comecei a assistir “desafiando” Anna Muylaert. Com a premissa do filme na minha cabeça fiquei me perguntando “qual o desfecho ela vai dar pra isso?”, “Como escapar das saídas fáceis e explicações esperadas para esse drama?”, “Como dar conta de uma questão tão complexa?”. Devo dizer que fui positivamente surpreendido!

Como em todos os seus filmes, “Mae só há uma” começa lento, como num jogo de sedução com o público e vai crescendo, crescendo e quando percebemos estamos vendidos à história. Tudo no filme é real. Desde o primeiro minuto acreditamos fielmente nos personagens. O drama de Pierre (Naomi Nero) é real, o caos que cai sobre sua cabeça é real e perturbante. Nos perturba porque queremos uma solução, mesmo que ficcional, já que “na vida como ela é” sabemos que não existe. O elenco é fundamental nesse quesito. Ana Muylaert é mestra no trabalho com elenco, seus personagens sempre estão incrivelmente representados, são palpáveis, orgânicos, geram empatia imediata. Nachtergaele (Matheus) dispensa comentários, como sempre. Naomi Nero (Pierre) é um escândalo. As duas crianças, a irmã e o irmão de Pierre, são incríveis, engraçadas e naturais, assim como todo o elenco infanto-juvenil. Dani Nefussi, especificamente como Glória, é impagável.

As cenas são cuidadosamente desenhadas e articuladas entre si de modo que todos os personagens alcancem certa profundidade e importância na trama, a despeito do foco ser o adolescente “problemático” Pierre. Devo destacar duas cenas. A cena em que Pierre é levado pra jantar pela nova família. Na mesa, a tia “falsa”, a irmã “falsa”, Pierre (o menino roubado), o pai “de sangue”, a mãe “de sangue” e o irmão “de sangue” Joca, um pré-adolescente também em busca de uma identidade. A mãe hipnotizada pelo filho, que por tantos anos procurou, o bombardeia de perguntas e agrados. O pai, profundamente excitado e tentando deixar Pierre à vontade, sem sucesso. A irmã “falsa” que faz as vezes de interprete de Pierre respondendo a todas as dezenas de perguntas alvejadas na direção do menino, que, se proferiu uma palavra, foi muito. Enquanto isso, a tia “falsa” e Joca, mudos praticamente. O desconforto da cena só acaba quando Pierre, já saturado, vai ao banheiro e lá fica até ser resgatado, horas depois, por Joca, que já ensaia alguma simpatia ao irmão recém-chegado. A outra cena, já no final do filme, como bem alertado por Nachtergaele em entrevista ao Canal Brasil, é o ápice, uma das explosões de personagem mais incríveis dos últimos tempos no cinema brasileiro. Ela é soberba! Não só porque o elenco está absurdo, não só porque os personagens chegaram nos seus limites, mas também porque aguardamos por ela o filme inteiro. A explosão de Pierre é a nossa explosão, dá vontade de gritar junto com ele, dá vontade de sair chutando tudo! E aquele pai, que às vezes até julgamos durante o filme, ali percebemos o quão vítima ele também é, o quão humano ele também é, assim como a mãe, que evita o confronto e tenta, a todo custo, varrer a discussão para longe, sem contar Joca que fica passado diante daquele caos, numa mistura de surpresa e medo.
Não posso deixar de falar sobre o final dado a história. A coragem de terminar o filme do jeito que terminou é algo inacreditável. Toda minha reverência a Anna Muylaert, não só por tratar desse tema, mas também pelo desfecho que dá a ele. Como numa sessão de analise lacaniando, o corte nos pega de surpresa, sem a gente saber muito bem qual foi o motivo. Demoramos pra entender/aceitar que acabou, dessa forma, o filme acaba indo com a gente pra casa e com ele todas as questões e problemáticas apontadas durante aqueles 80 minutos nos acompanham.

Mais uma grande obra do cinema brasileiro! Simples, sensível, epidérmico, forte e sobre nosso tempo.

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Wellington Darwin

Historiador e cineasta, é sócio na Dgt Filmes onde íntegra diversos projetos como produtor e roteirista.  Um dos mais recentes filmes produzidos por Wellington, CONVICTO, participa do Festival In-Edit Brasil.

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