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O Galo e a Raposa

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“Ela finge que não, mas no seu coração

Ainda sou artilheiro

Só faz isso porque, meu irmão

Eu sou Galo e ela é Cruzeiro”

Vander Lee – em 1999

O dia raiou bonito, ao longe ele ouviu um galo cantar e pensou ser um bom presságio. Tomou seu café preguiçosamente, afinal era domingo. Um único dia de descanso em toda a semana, isso merecia uma comemoração. Uma coisa o tornava ainda mais especial: era dia de clássico. Ligou o rádio e o abre-jogo da Itatiaia já tinha começado. Por sorte, passaram a escalação dos times, e ambos os lados não tinham desfalques. Abriu um sorriso e tratou de bicar o pedaço de pão que restava na mesa.

Ela acordou de uma noite sem sonhos e logo olhou pela janela. Um céu azul incrível encheu seus olhos de esperança, era o prenúncio de uma vitória – quem sabe até de goleada. Saiu do quarto azul do chão até o teto desfilando de pijama estrelado. Foi até a cozinha e encontrou sua família fazendo o desjejum. Tinha de se trocar, pois era quase hora da missa das nove. Farejou um pedaço de pão e comeu apressada.

Estava sozinho em casa. O pai saiu cedo e só voltaria de noite. Abriu os braços e espreguiçou batendo as asas. Olhou a cama e se deitou novamente, ainda tinha muito tempo. Parecia estranho ficar ali apenas deitado olhando para o teto. Era difícil não transportar a adrenalina da semana para o dia de folga.

Na igreja da praça, ela rezou de joelhos. Secretamente, pediu ao santo uma ajuda para o time. Estava em boa fase, mas um pouco de bênção nunca era demais. Abraçou a todos na hora da Paz de Cristo e saiu dali confiante e feliz. Almoçou com a família e rapidamente ajudou a mãe a lavar os pratos, pois tinha compromisso.

Vestiu seu manto sagrado, e saiu de corpo e alma alvinegros. Passou pela porta com as esporas afiadas e caminhou pela rua de peito estufado, olhar altivo. Chegou à casa do amigo e foram em carreata, para assistirem ao clássico juntos, como uma irmandade, um só coração preto e branco.

Ela vestiu a camiseta celeste da sorte, pegou o rosário azul e jogou a bandeira nas costas. Tinha as unhas pintadas de azul e branco. A família lhe desejou sorte. Pegou um ônibus e foi se encontrar com as amigas que a esperavam na praça da Savassi.

Chegaram em carreata, com o hino tocando no último volume do carro. Não fosse o bastante, gritavam freneticamente o nome do time. Era dia de extravasar, um dia sem limites, em que a paixão falava mais alto. O Sausalito parou para saudar seus irmãos alvinegros, com uma algazarra maior ainda.

Desceu do ônibus e logo avistou as amigas. Ficaram um pouco na praça da Savassi botando as fofocas em dia. Caminharam um quarteirão e chegaram ao Marguerita, que já estava apinhado por uma legião azul. Ali tudo era farra, risadas, cerveja e alegria.

O jogo começou. De um lado Cruzeiro, do outro Galo. Não me refiro só ao estádio, mas ali na rua Pernambuco esquina da Rua Tomé de Souza também era assim. Os bares Sausalito e Marguerita ficavam em diagonal nesta esquina, quase de frente, separados por poucos metros. De um lado a torcida azul, e do outro, a torcida alvinegra.

Partida difícil, cada lance era muito disputado. Quem fez o primeiro gol foi o Galo, o Sausalito foi à loucura. As provocações dirigidas ao outro lado da rua começaram, enquanto isso o Marguerita estava calado. No segundo tempo, o Cruzeiro marcou e ficou tudo igual. Foi a vez da Raposa berrar para o Galo do outro lado da rua. Este ainda teve a chance de virar, mas o atacante perdeu um pênalti. Alguém entornou cerveja na mesa. Do outro lado, a Raposa comemorava, pois o goleiro havia operado um milagre. Com 5 minutos de acréscimo, foi decretado fim de jogo.

O placar havia ficado igual, porém entre as duas esquinas a gozação continuava. Os ombros se relaxaram, as unhas deixaram de ser roídas. Ela estava de pé, na calçada com as amigas. Ele estava sentado no meio fio com os amigos. O Galo e a Raposa se olharam e gostaram do que viram. Ele foi até ela, atravessou a rua e invadiu a área adversária. A marcação foi corpo a corpo. Ajeitou com carinho e tocou pro gol. Gol ! Golaço de placa !

O Galo e a Raposa saíram dali de mãos dadas, sentindo no peito a mesma paixão que os unia.

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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