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A Derradeira Felicidade Caso VII: O Ar que Respiro

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“Amo a vida e a vida me ama.

Somos um casalzinho insuportável.”

Oscar Niemeyer

 

A história de hoje é sobre um coração fraco, porém valente. O nosso relato começa com uma guerreira do nosso tempo, que todos os dias acorda cedo e vai à luta. A mulher moderna desempenha múltiplos papéis: mãe, dona de casa, esposa, chefe, encarregada, subordinada, patroa, empregada, empreendedora, motorista, psicóloga, cozinheira, conselheira sentimental, consultora de moda e estilo; enfim, a lista é longa para a incrível mulher de fases e faces que se desdobra e multiplica neste século XXI.

A mulher de quem falamos em particular acordou naquele dia e deu prosseguimento à sua agenda cotidiana sem novidades. Saiu cedo de casa e foi ao trabalho. Deu duro por oito horas e talvez um pouco mais, pois não fez o horário de almoço ao qual tinha direito. Era tanto trabalho que preferiu comer sentada em sua mesa na tentativa de terminar no prazo. Anotou em um bilhete o combo que gostaria de almoçar e o office boy trouxe de bom grado aquele pacote engordurado cujo conteúdo foi consumido bem em cima do teclado do computador.

Como de costume, às seis bateu o ponto, pegou a pasta e saiu apressada. Precisou esperar cerca de dez minutos para conseguir descer pelo elevador, era hora do rush. Saiu pela rua apinhada, freadas, buzinas e ambulantes anasalados que gritavam de tudo. Respirou fundo e seguiu em frente.

Caminhou cinco quarteirões e esperou mais dez minutos em outra fila de elevador. Quando as portas se abriram, suspirou aliviada – conseguira chegar ao curso. Foi para o terceiro turno animada, pois o curso de idiomas era um sonho antigo. Para ela, era divertido e prazeroso aprender aquelas palavras novas; até na hora de dormir em seu travesseiro as repetia em voz alta e às vezes ria sozinha.

A aula começou pontualmente. A professora gostava de passar umas músicas antes, para que os alunos relaxassem. Tinha um pouco de tudo: baladas, salsas, boleros, até punk e rock. Ela se sentou na segunda cadeira, tirou o caderno da pasta e ficou olhando para o quadro, interessada. Fazia dias se sentia diferente. O ar que respirava estava denso, peculiar e o corpo parecia fatigado. Era um cansaço extremo e sentiu suas energias minarem. Juntou forças e para si mesma disse que aguentaria até a hora do intervalo.

Uma hora e alguns minutos depois saiu dali estranha, meio arrastada. Conseguiu chegar ao ponto de ônibus em frente ao prédio. Logo veio o que esperava, mas precisou correr para alcança-lo. O esforço foi tão grande que subiu as escadas sem ar. Precisou sentar próximo ao motorista e tentar recobrar o fôlego – sem sucesso.

Acordou três dias depois em uma cama de hospital. Esteve em coma induzido por um tempo e depois, consciente, começou a se inteirar do que havia acontecido. O médico foi direto, jogou o problema de uma vez: insuficiência cardíaca diastólica. Ele disse “o seu coração é fraco, não trabalha o suficiente. Geralmente esta doença acomete pessoas mais idosas, é raro ver pacientes com esse quadro antes dos quarenta.” Depois da mordida, ele assoprou reiterando que “se seguir corretamente o tratamento e tomar a medicação é possível viver uma vida quase normal”. Esse “quase” queria dizer trinta e seis comprimidos ao dia e mais o cilindro de oxigênio quando fosse preciso.

Após doze dias internada recebeu alta. Ainda no banheiro, enquanto vestia a roupa, uma alegria sem igual começou a lhe invadir. Ao chegar na porta de casa foi invadida pela derradeira felicidade. Depois de tudo o que passou, poder estar novamente ali era praticamente um milagre. Viu suas coisas, seus móveis, abraçou o filho. Sentou na mesa, comeu em um prato de porcelana e bebeu no copo de vidro. Aquele sopro de vida foi uma segunda chance.

A vida continuou, mas de maneira diferente. Não apenas pelas limitações físicas e os trinta e seis comprimidos diários. Não há medo da morte e sim vontade de viver. Cada dia que amanhece representa uma nova oportunidade para ser mais e melhor. Para agradecer por tudo, inclusive pelas mínimas coisas simples que não se costuma valorizar ou notar. A cada crise superada a vida se renova e tudo ao seu redor se enche de felicidade e amor.

La Plena Felicidad

Caso VII: El Aire que Respiro

  

“Amo la vida y la vida me ama.

 Somos una parejita insoportable.”

Oscar Niemeyer

La historia de hoy es sobre un corazón débil, pero valiente. Nuestro relato comienza con una guerrera de nuestro tiempo, que todos los días se despierta temprano y sale a luchar. La mujer moderna tiene múltiples papeles: madre, ama de casa, esposa, jefe, encargada, subordinada, dueña, empleada, emprendedora, chofer, psicóloga, cocinera, consejera sentimental, consultora de moda y estilo; por fin, el listado es largo para la increíble mujer de fases y faces que se despliega y multiplica en este siglo XXI.

 La mujer de quien hablamos en particular se despertó aquel día y siguió su agenda cotidiana sin novedades. Salió temprano de casa y fue al trabajo. Dio todo de si por ocho horas y tal vez un poco más, pues no paró para el almuerzo al cual tenía derecho. Era tanto trabajo que prefirió comer sentada en su escritorio en el intento de terminar en el plazo. Escribió una nota el combo que queria almorzar y el cadete trajo voluntariamente aquel paquete grasoso cuyo contenido fue consumido bien arriba del teclado de la computadora.

 Como de costumbre, a las seis firmó el libro, agarró la carpeta y salió apurada. Tuvo que esperar alrededor de diez minutos para conseguir bajar por el ascensor, era la hora del rush. Salió por la calle abarrotada, frenadas, bocinas y vendedores ambulantes que gritaban de todo. Respiró y siguió adelante.

 Caminó cinco cuadras y esperó diez minutos más en otra cola de ascensor. Cuando se abrieron las puertas, suspiró aliviada – consiguió llegar al curso. Fue al tercer turno animada, pues el curso de idiomas era un sueño antiguo. Para ella, era divertido y placentero aprender aquellas palabras nuevas; hasta a la hora de dormir en su almohada las repetía en voz alta y a veces se reía sola.

 La clase empezó puntualmente. A la maestra le gustaba pasar unas canciones antes, para que los alumnos se relajaran. Ponía un poco de todo: baladas, salsas, boleros, hasta punk y rock. Ella se sentó en la segunda silla, sacó el cuaderno de la carpeta y se quedó mirando al pizarrón, interesada. Hacía días se sentía diferente. El aire que respiraba estaba denso, peculiar y el cuerpo parecía fatigado. Era un cansancio extremo y sintió sus energías menguando. Juntó fuerzas y dijo que aguantaría hasta la hora del intervalo.

 Una hora y algunos minutos después salió rara, medio arrastrada. Consiguió llegar a la parada del colectivo en frente al edificio. Luego paso el que esperaba,  necesitó correr para alcanzarlo. El esfuerzo fue tan grande que subió las escaleras sin aire. Tuvo que sentarse cerca del chofer e intentar recuperar el aliento – sin éxito.

Se despertó tres días después en una cama de hospital. En coma inducido por un tiempo,  después, consciente, empezó descubrir que había pasado. El médico fue directo, comento el problema de una vez: insuficiencia cardíaca diastólica. Él dijo “tu corazón es débil, no trabaja lo suficiente. Generalmente esta enfermedad acomete personas de más edad, es raro ver pacientes con esto antes de los cuarenta.” Después de la mordida, él sopló reiterando que “si sigues correctamente el tratamiento y tomas la medicina es posible vivir una vida casi normal”. Este “casi” quería decir treinta y seis pastillas al día y más el cilindro de oxígeno cuando necesario.

 Después de doce días internada le dieron el alta. Aún en el baño, mientras vestía la ropa, una alegría sin igual le empezó a invadir. Al llegar a la puerta de casa fue invadida por la plena felicidad. Por todo lo que pasó, poder estar nuevamente allí era prácticamente un milagro. Vio sus cosas, sus muebles, abrazó el hijo. Se sentó en la mesa, comió en un plato de porcelana y bebió en un vaso de vidrio. Aquel golpe de vida fue una segunda chance.

La vida siguió, de manera distinta. No apenas por las limitaciones físicas y las treinta y seis pastillas diarias. No hay miedo de la muerte y si ganas de vivir. Cada día que amanece representa una nueva oportunidad para ser más y mejor. Para agradecer por todo, incluso por las mínimas cosas simples que no se suele valorar o notar. A cada crisis superada la vida se renueva y todo alrededor se llena de felicidad y amor.

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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