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Sangue Quente (Parte V)

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Precisamente às sete horas e cinco minutos da manhã o despertador começou a berrar. Jade rolou na cama e esticou o braço para alcança-lo, em cima do criado-mudo. Abriu os olhos ferozes e fez menção em arremessar na parede o pequeno, mas potente aparelho. Destravou o pino, dando fim ao seu tormento. Resignada, jogou as pernas para fora da cama e roboticamente levantou o corpo para então dar alguns poucos passos até o banheiro.  

 

Sua intuição a levou em direção à pia. Dobrou um pouco os joelhos, abaixou a cabeça e com os olhos meio cerrados abriu a torneira. Usando as duas mãos, atirou uma golfada de água fria no rosto, suficiente para resgata-la das profundezas e traze-la de volta à vida.

Olhou-se no espelho. Teve ódio de si mesma. Odiou seu rosto, seu nariz, o pescoço meio comprido, as voltas na testa e até mesmo o cabelo que amanhecera desgrenhado. Tinha vontade de sair correndo, de fugir dela mesma. Fechou os olhos e respirou fundo. Decidiu entrar no chuveiro e tentar não pensar em nada.

Colocou as mãos na parede e apenas deixou que a ducha morna escorresse por seu corpo. Por um instante se lembrou da presença de Fabrício e dos pequenos atos de loucura da noite passada. Os lábios rascunharam um sorriso sacana, logo desmanchado quando recordou os acontecimentos. Fechou os dedos sobre o sabonete e esfregou a pele com força. Queria se arrancar em pedaços, se esquartejar, se acabar. Desligou o chuveiro e enxugou o corpo com impaciência, como se estivesse farta de si própria.

Novamente se olhou no espelho, desta vez com certo desprezo. Enrolou a toalha no corpo e foi até a cozinha preparar um café. Colocou o pó e acionou a cafeteira, enquanto isso foi ao quarto se vestir. Vasculhou quase todo o guarda-roupa e não encontrou algo decente. Tinha muitas roupas, mas naquele momento nenhuma lhe convinha. O problema era ela mesma, tinha acordado do avesso e era muito difícil se desvirar.

Tomou um pouco de café e sentiu certa melhora. A bebida a fez ganhar coragem para se olhar mais uma vez no espelho. Passou delineador em volta dos olhos de pantera e pintou os lábios de carmim. Trançou os cabelos de maneira displicente, pegou a bolsa e saiu.

Quando chegou à porta de casa parou subitamente. Faltava algo. Sim, o celular! “Maldito telefone”, pensou. Uma nova onda de ódio subiu por suas entranhas e com a face afogueada saiu pisando duro. Pegou o carro e tentou prestar atenção ao trânsito, estacionou na estação e seguiu em trem até o trabalho. Quando chegou à sua sala, já havia um recado para que fosse procurar a superiora. Obviamente, foi questionada por não haver atendido a nenhuma das quatro ligações feitas para seu celular. Inventou que havia sido assaltada e explicou que mais tarde compraria outro aparelho. Não percebeu que o lápis que estava em sua mão se havia partido ao meio.

Sentada em sua cadeira, tentava se concentrar. Seus olhos miravam através do computador enquanto sua mente girava em detalhes da noite passada. Sempre havia sido boa caçadora, envolvia sua presa e saía noite afora sem deixar quaisquer vestígios. Queria apenas se divertir, jamais se comprometer. Ter esquecido o celular na casa de Fabrício era um erro grave, que a fez questionar sobre si mesma.

Balançou a cabeça para afugentar os pensamentos. Não tinha e nem desejava nenhuma relação com ele, apenas haviam passado algumas boas horas juntos. Não queria que ele pensasse que havia deixado o celular em sua casa de propósito, como tentativa de estabelecer algo entre os dois. Além do mais, um lobo como ele era daqueles que nem se lembra do nome da moça no outro dia. Odiava a si mesma, pois ter de voltar em sua casa para buscar o celular era como pedir ou depender de um favor de uma pessoa estranha e absolutamente pretensiosa.

Respirou fundo, levantou-se, pegou a pasta sobre a mesa, colocou os óculos de leitura e saiu com seu peculiar andar felino para começar o dia. Dedicou-se ao que sabia fazer de melhor: espreitar, caçar, selecionar gente. Entendia como poucos a linguagem do corpo, da pele, dos olhares amedrontados, intimidados, soberbos e atrevidos.

Ao fim do dia, triunfante, pousou os óculos de leitura sobre sua mesa, pegou a bolsa e saiu. Tomou um táxi por algumas quadras e foi encarar seu destino. Rogou secretamente para que ele tivesse deixado o celular com o porteiro do edifício.

O carro parou na porta do luxuoso prédio às seis e vinte da tarde. Jade agradeceu gentilmente ao motorista e acedeu à entrada, sendo recebida pelo porteiro.

-Boa noite, meu nome é Jade. Por acaso o Sr. Fabrício do décimo andar deixou um envelope para mim?

-Boa noite, Senhorita. O Sr. Fabrício não deixou nada aqui na recepção, ele pediu para que a Senhorita fosse até lá. Aguarde um instante, vou avisa-lo da sua chegada.

O porteiro falou ao telefone e em seguida pediu para que Jade o acompanhasse. Foram ao elevador e ele digitou o código de acesso, se despediu polidamente e saiu; liberando as portas que fecharam automaticamente. Sobre o sapato de salto, Jade empinou o corpo e escolheu o olhar mais felino que possuía. Não ia para a guerra, mas queria demonstrar que estava preparada para o combate.

Quando o elevador finalmente parou no décimo andar, as portas se abriram e revelaram a bela figura de Fabrício à espera de Jade. A pantera o olhou dos pés a cabeça. Era todo ele um pedaço do pecado, vestindo tênis e calça esportiva, sem camisa e com uma toalha no pescoço.

Continua...    

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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