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Sangue Quente – Final

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Mais tarde, em seu refúgio, a pantera recostou a cabeça sobre o travesseiro. Imagens várias passaram por seus olhos dourados. Lembranças de veludo escarlate, paredes de metal, sussurros e prazer agonizante. Pousou a mão nos lábios e abriu um sorriso secreto. Olhou através da janela a tempestade que caía e logo adormeceu sob as luzes espraiadas que rasgavam o céu.

 

Jade abriu os olhos mansamente e acordou antes de o despertador soar. Chegou ao banheiro e consciente se olhou no espelho. Passou a mão pelos cabelos encaracolados e respirou fundo. Tirou a roupa e tornou a se encarar. Uma energia pura ascendeu por seu corpo. Fechou as mãos e sentiu o sangue quente lhe correr pelas veias, expandindo por todos os lados até preencher sua alma de poder.

O banho a purificou e preparou para a batalha que significava cada dia. Vestiu a roupa, tomou o café e saiu andando seu andar de predadora. No meio do caminho recebeu uma mensagem de Fabrício no celular.

 

“Bom dia Pantera. Estou sonhando acordado com você. Que a quarta-feira chegue logo!”

No trem em movimento, Jade viajava em pé no vagão cheio. Seu semblante não demonstrou qualquer alteração, contudo, lá dentro sorria. Digitou a resposta e enviou.

“Bom dia Lobo da estepe. Tive uma bela noite de sono. Marque hora e local, estarei lá.”

 

Durante os cinco dias que se passaram, Jade cumpriu com maestria o papel de dissimular sua vida particular. Trabalhou com afinco, encontrou as amigas e guardou para si o tema de sua última conquista amorosa. Preferiu fazer de Fabrício um segredo bem cuidado.

No final do expediente de quarta-feira; o dia do encontro, Jade saiu apressada do trabalho e foi para casa se arrumar. Vestiu a roupa sobre o corpo nu. Escolheu um vestido ajustado, na cor marsala, com uma fenda enorme que deixava à mostra boa parte das costas. A maquiagem destacou os olhos de pantera que ganharam diferentes matizes dourados. Pintou os lábios com a cor de seu sangue em chamas. Calçou sapatos de salto agulha, pegou a pequena bolsa com brilhos e saiu devassa; dona de seu destino.   

Quando chegou ao restaurante, foi conduzida pelo maitre até a mesa onde estava Fabrício. Ao vê-la, abriu um largo sorriso e foi ao seu encontro. Como um perfeito lorde, beijou sua mão enquanto a encarava de maneira misteriosa. Acomodou Jade em seu assento e em seguida também assentou. Parecia ter dificuldade para conter sua aparente euforia. Deixou que a dama escolhesse primeiro e depois fez o seu pedido, acrescentando uma garrafa de vinho branco de excelente safra.  

Trocaram olhares lascivos e silêncios simbólicos. A cena foi interrompida novamente pelo maitre que trouxe o vinho. Serviu primeiro Fabrício, que havia feito o pedido e depois Jade. Sob a aprovação de ambos, se retirou discretamente e o dois puderam retomar de onde haviam parado. Fabrício segurou sua mão.

-Você está lindíssima.

-Obrigada, você também está um charme.

-Nestes últimos dias pensei bastante em você.

-Interessante. Posso saber o quê?

-Sua imagem de costas sob a ducha não sai da minha mente.

-Já eu penso em você suado e sem camisa na porta do elevador. –Jade mordeu o lábio.

-Agarraria você aqui mesmo. Você me deixa louco, morena.

Jade sorriu, vitoriosa. Tomou mais um pouco do vinho frio e mudou de assunto. Perguntou a Fabrício como havia sido a viagem e assim conseguiu acalmar os ânimos. Logo a refeição chegou, estendendo a trégua. A comida era deliciosa, o lugar requintado, decorado com extremo bom gosto e a companhia era de fato formidável. Quando terminaram a sobremesa, Fabrício tornou a segurar a mão de Jade, porém desta vez assumiu um tom sério.

-Preciso te dizer algo. Nestes dias em que estive fora, pensei bastante sobre certas coisas.

-Por exemplo?

-Tenho uma carreira fantástica, faço o que gosto e tenho muito talento. Sou muito bem pago para isso e já acumulei um patrimônio invejável. Sou meu próprio chefe e, além disso, consigo prover uma grande melhoria aos que trabalham para mim.

-Isso é ótimo, não acha?

-Sim, mas não é o bastante. Recentemente completei trinta e cinco anos e comecei a sentir falta de algo. Depois que nos conhecemos e fiquei estes dias fora, percebi que estou cansado de jogar este jogo vazio.

-Como assim?

-Cansei de acordar com uma estranha ao meu lado, sem nem sequer saber o nome. Não quero mais ser descartável. Acho que está na hora de encontrar alguém que goste de mim, me respeite e queira um futuro comigo. Sim, de repente comecei a pensar no futuro. Será que estou ficando velho?

-De forma alguma, isso é amadurecer. É muito importante fazer planos para o futuro, ter sonhos. Acho que as pessoas pararam de sonhar, por isso o mundo está tão gris e melancólico.

-Pode ser. Ando me sentindo muito sozinho. Vejo tudo o que conquistei e não tenho com quem dividir. Sabe, quero dizer que gostei bastante de você.

-Você é uma boa pessoa, além de bonito e interessante. Também gosto de você.

-Penso que talvez seja um sinal o fato de você ter esquecido o celular na minha casa. Alguma trama do destino. Quero te conhecer melhor, você tem tudo o que eu gosto: é inteligente, linda, segura, extremamente sensual e beija muito bem.

-Uau, obrigada!

-Em suma, é isso. Quero tentar dar um passo adiante e construir um relacionamento. Quero amar e ser amado. Afinal, não é isso que todos buscamos?

De repente o silêncio pairou sobre os dois. Tomaram mais um pouco do vinho enquanto se encaravam. Subitamente, um calor correu pelas veias de Jade e corou seu rosto. Fabrício percebeu e apertou de maneira contumaz sua mão. Então pediu a conta, queria logo sair dali e estar a sós com ela. Sabia que ela também o desejava. Antes que o maitre viesse, pediu gentilmente que Jade o deixasse pagar a conta, afinal ela era sua convidada.

Como na primeira vez que se viram, entraram no táxi e permaneceram em silêncio. Foram para a casa de Fabrício, que ficava a poucas quadras do restaurante. Jade recostou a cabeça sobre o ombro dele, que pousou a mão em seu joelho. Dentro do veículo, em meio ao trânsito lento do fim de noite, Fabrício correu a mão por sua coxa, para dentro da saia. Quando seus dedos perceberam a virilha nua, apertou sua carne com veemência. Quase sem fôlego, Jade fechou os olhos e desfrutou o momento.

Desceram do táxi e atravessaram a portaria de mãos dadas. Suportaram os segundos passados no elevador. Finalmente quando chegaram ao décimo andar, saíram e aguardaram as portas se fecharem. O embate de seus corpos foi selvagem, se despiram enquanto trocavam beijos enlouquecidos apartamento afora. Quando entraram no quarto, Jade se deitou na cama e Fabrício se postou em cima de seu corpo. Suas mãos alcançaram as dela e entrelaçaram os dedos em sintonia. Encarou seu olhar agudo e mordeu seus lábios de maneira sensual. Agora ela era dele, estava sob seu domínio, debaixo de seu corpo musculoso.

-Pantera, você é minha agora. –Disse isso e cravou seu corpo dentro dela. Arrebatada de prazer, Jade arqueou a cabeça para trás e com as pernas longas apertou o torso de Fabrício. Isso fez com que entrasse ainda mais forte na sua carne em chamas. De seu lugar, ele assistiu ao prazer furioso da pantera, que dentro de seus braços se desmanchava em espasmos colossais. Sucumbiu à carne delirante que se movia debaixo dele e deixou-se esvair por inteiro.

Transpirados e exauridos, permaneceram um momento nesta posição. Fabrício acariciou seus cabelos e com ternura roçou o nariz em seu rosto. Tinha um brilho incrível nos olhos, beijou-lhe os lábios e depois abriu um sorriso rendido.

-Fique comigo, Jade. É de você que eu preciso.

A morena passou os braços ao redor de seu pescoço, sorriu com os olhos dourados e beijou seus lábios demoradamente. Acomodou a cabeça de Fabrício sobre seu peito e em silêncio acariciou seus cabelos. Depois de alguns minutos, ele adormeceu em seus braços, agarrado à sua cintura.

Jade esperou certo tempo, até que Fabrício entrasse em sono profundo. Então, retirou com cuidado as mãos aferradas ao seu corpo e o acomodou na cama. Enquanto ele ressonava alheio, ela se levantou e foi à sala. Colocou o vestido, pegou a bolsa e os sapatos. Retornou ao quarto e por alguns instantes velou seu sono. Respirou fundo e com um sussurro disse “adeus”.

Virou as costas e saiu na ponta dos pés. Fechou os olhos e não viu as portas do elevador cerrarem. Atravessou a entrada com o corpo empinado e antes de chegar à rua, atirou o chip do celular na lixeira do condomínio. Sem olhar para trás, a pantera se foi, sob a luz da noite.  

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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