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Do Outro Lado do Rio

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O dia se acabava naquele lugar ao sul do mundo. No céu, o dourado das luzes espraiadas se fundia ao horizonte de veludo carmim. Uma fragata flutuava suavemente pelas águas do porto. O mundo era calmo quando visto dali; aquela margem parecia ter seu próprio significado de tempo. Do outro lado do rio o sol ia se rendendo devagar ao horizonte.

Daniel ajustou o foco da lente e se preparou para outra série de fotografias. Todos os dias, ao sair do trabalho, caminhava algumas poucas quadras até o porto para se dedicar à sua grande paixão. Era um impressionista moderno, estudava a mudança nas paisagens ao longo das horas e das estações. Apreciava particularmente o outono, quando o céu formava um festim de cores e luzes. Terminada a sequência, manteve o diafragma da câmera aberto enquanto definia um novo ponto de observação. Deu alguns passos na direção contrária e decidiu fotografar a ponte.

A estrutura arrojada servia mais como decoração do que ponte. Era estreita, permitindo apenas a passagem de pedestres. Naquela hora do dia, a luz do sol refletia em suas curvas, deixando-as ainda mais ousadas. Daniel ajustou o diafragma para poder captar o esplendor da cena. À medida que foi fazendo a sequência, mudou as lâminas para conseguir efeitos diferentes. De repente, o foco de sua lente encontrou algo incomum. O obturador ficou estático por um momento, como que surpreso pela imagem adiante.

Uma jovem estava parada na ponte. Os cabelos dourados e sua bela silhueta foram emoldurados pela  magnífica luz do pôr do sol. Daniel a admirava. Extasiado, voltou a si e vendo-a através da lente disparou inúmeras vezes, só parando quando o filme acabou.

Cerrou a lente rapidamente, pegou a pasta e foi em sua direção. Andou apressado, como se fosse a única chance que teria na vida. De seu lugar, pôde atestar que ela estava desacompanhada. Alheia ao mundo e imersa em seus pensamentos, tinha os braços apoiados no parapeito. Daniel se aproximou com cuidado, parou ao seu lado e se pôs a imitá-la, admirando o horizonte. Depois de alguns instantes ela o notou. Quando percebeu, virou o rosto em sua direção e se olharam pela primeira vez. Tinha um olhar angustiado, obsequioso, enquanto ela apenas irradiava luz e serenidade.   

-Estou muito contente. É uma alegria ímpar viver neste mundo ao mesmo tempo que você. Poder olhar o mesmo céu que você, ao mesmo tempo.

-O céu, o dia e a noite são para todos.

-Mas compartilhar do que seus olhos veem, ao seu lado, me deixa muito feliz. Posso lhe fotografar? Quero guardar este momento para sempre.

-Faça como sua câmera, abra os olhos e feche-os por um instante. Viu? Guardou minha imagem na sua memória.

-Sim, seu rosto está marcado na minha alma. Acredita em destino?

-Não sei, talvez. E você?

-Acabo de me deparar com ele neste instante. Não sei como explicar.

-Tente.

-Tenho o costume de vir aqui depois do trabalho para fotografar o céu e o porto. Estava ali do outro lado e de repente vi você. Imediatamente senti minhas pernas vacilarem, o coração bater feroz. Tenho os pensamentos confusos, sinto tudo ao mesmo tempo. Desculpe se estou sendo precipitado, mas é algo que excede minhas forças.

-Gosto da sua sinceridade. O estranho é que você me parece familiar. Mais estranha ainda é a sensação de que eu sabia que isto ia acontecer.

-Que bom! Quer dizer que não estou enlouquecendo!

-Acho que não. Aliás, você parece bem normal.

-Sou Daniel, e você anjo de luz?

-Anabella. Muito prazer, Daniel.

Apertaram as mãos em sinal de cortesia. Entabularam uma conversa técnica sobre a câmera, o ajuste de foco, os efeitos da luz e a beleza do céu de outono. Caminharam pela ponte e depois pelo porto, se conhecendo. O encantamento mútuo os fez consumir as informações de cada um em grandes goles. Em pouco tempo encontraram diversas coincidências em suas vidas. Faziam aniversário no mesmo dia, gostavam das mesmas músicas, o prato preferido de ambos era pizza e apreciavam o cinema francês.

A noite foi caindo e nenhum dos dois queria ir embora. Sentaram em um café, com vista panorâmica para o porto e seguiram a conversa. Era como se conhecessem um ao outro de toda uma vida. Daniel ficava encantado cada vez que Anabella sorria. Apenas uma covinha se formava, do lado direito de seu rosto. Os olhos cor de amêndoa brilhavam e tudo se iluminava ao seu redor. Ela lhe pareceu inteligente, alegre, curiosa e leve. Havia se formado em arquitetura e como ele dava muita atenção às formas, cores e luzes.

Enquanto Daniel falava, Anabella o observava. Os lábios se mexiam de maneira graciosa, espalhando palavras perfeitas; que saíam por entre os dentes alvos e alinhados. O cabelo liso insistia em cair sobre os olhos. Tinha muita vivacidade no olhar, era articulado e inteligente. Trabalhava como designer gráfico e tinha paixão por fotografia. Coordenava bem os pensamentos e era um pouco idealista.

Horas se passaram sem que percebessem. Decidiram caminhar mais um pouco, pagaram a conta e voltaram à margem do porto. Conversaram sobre a infância de ambos, sobre os melhores filmes que já haviam visto, estilos arquitetônicos preferidos, obras de arte em geral, livros mais marcantes e até política. Quando chegaram ao final da avenida que era somente para pedestres, se olharam em silêncio.

-Acho que preciso ir para casa. – Disse Anabella.

-Alguém espera por você?

-Não, não. Apenas meus pais, eles sempre me esperam para o jantar.

Daniel segurou a mão de Anabella, olhou em seus olhos e disse:

-Não vá. Ligue para eles, avise que tem um compromisso. Não consigo ficar longe de você.  

Anabella apertou sua mão com força, baixou o rosto e depois tornou a encará-lo. Com certa hesitação, abriu os lábios e disse:

-Não quero ir. Sinto o mesmo que você.

Daniel pousou a mão em seu rosto e a beijou delicadamente. Com a mão em seu ombro, Anabella correspondeu ao beijo, que durou um instante infinito.

-Anabella, eu te amo. Quero passar o resto de meus dias com você.

Apertou-o mais junto de si e falou em devaneios:

-Isso pode parecer muito precipitado, mas eu...Eu te amo também. Não me abandone jamais.

Abraçados, apenas viveram aquele momento que marcaria para sempre suas vidas. Sob a brisa fria de outono, selaram com um beijo o eterno instante. Do outro lado do rio nasceu um amor premeditado pelo destino. Inconsequentemente natural, seguiu seu curso como as águas transpunham o porto rumo ao oceano sem fim.

Mais tarde, na cama, seus corpos falaram a linguagem do amor. O toque de suas peles nuas transcendeu a carne e o desejo. Uma fusão de sentimentos correspondidos culminou em um arrebatamento de profundo prazer. Nos braços um do outro, compreenderam o significado do infinito – o universo que habita cada um de nós.

Ainda dentro dele, Anabella chorou. Em meio ao gozo e exaltação, soltou um pranto aflito. Aferrou-se ao seu corpo e deixou escorrer as lágrimas por seu ombro.

-O que foi meu amor, machuquei você?

-Não, você me curou. Eu te amo.

-Eu te amo, para sempre.

Juraram um ao outro amor eterno. Naquela noite e em todas as outras que seguiram, adormeceram abraçados e quando despertaram tornaram a se amar. Foram felizes no eterno instante, dentro do infinito que brilha resplandecente e que cabe em um olhar. 

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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