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O Corredor

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Sentiu o peito arder quando seus olhos se encontraram pela primeira vez. De súbito, levou a mão ao coração na tentativa de apartar o fogo que lhe invadia as entranhas. Tentou esboçar alguma reação, primeiro com os lábios, depois com os olhos. Mas permaneceu imóvel.

Seu rosto tomou uma forma engessada e as palavras ficaram engasgadas na aridez de sua boca. Contraiu os dedos trêmulos na tentativa de dissimular seu desespero, abraçou a pasta e tentou mover as pernas vacilantes rumo à saída.

Planejava passar feito brisa incólume ao seu lado. Contudo, a febre que sentia tornou o corredor ainda mais estreito, como buraco de agulha, capaz de sobrepor dois seres ao mesmo tempo. Isolada dentro das profundezas do próprio corpo, pôde sentir o perfume amadeirado que exalava sua pele mediterrânea.

No lado oposto do corredor estava ele concluindo algum ofício, disseminando palavras perfeitas ao telefone. Sua voz soava divina e gentil, como algo que remete a uma tarde fria, entre lençois sob uma lareira. Era ele ao mesmo tempo a paz e o inferno, sanidade e loucura.

Flutuando veio, em sua direção. Queria recebe-lo dentro de seus braços, declarar através de palavras delirantes o fogo que a consumia. Passou por ele já sem forças, sem brilho e sem coragem. Não conseguia erguer a cabeça, olhar dentro de seus olhos, sentia a carne desvanecendo e as ideias em completa decadência. Ficou decepcionada consigo mesma e por dentro se encolheu feito larva prematura.

Foi sacada repentinamente de sua autocomiseração. Com espanto, arregalou os olhos  ao ouvir um bom dia ser entoado feito canção. Despertou em meio ao delírio, assombro e fascinação. O máximo que conseguiu fazer foi erguer o olhar ao seu santo de devoção e rascunhar um sorriso no meio do rosto petrificado. Respondeu com voz embargada e seguiu seu caminho, de volta à inexistência de seu ser.

Precisou ir até a rua, lhe faltava o ar. Apoiou-se na parede, colocou a mão sobre o peito e sentiu o coração bater forte, fremente. Ocupou certo tempo para se recompor. O pensamento saltava desnorteado, desenfreado. Cerrou os olhos, buscou ar nos confins do mundo e aos poucos foi amainando a tormenta que criou dentro de si mesma. Retornou ao seu posto, assumindo o controle de seu ser e recuperando o pouco de juízo que ainda lhe restava.

De noite, a febre retornou. O senhor de seus pensamentos regressara intensamente para roubar-lhe o descanso. Rolou pelos travesseiros afora, foi até a janela e espiou as estrelas. Ouviu dentro de si o coração que batia forte em meio ao vazio, solidão. Então, em um ataque de pleno arroubo, meteu-se debaixo do chuveiro com roupa e tudo. Estava em crise, havia se convertido em um farrapo.

Após horas intermináveis como um espectro insone o sol surgiu no céu. Junto com os primeiros raios de luz daquele dia veio a descoberta de seu diagnóstico: padecia de amor. O amor, um mal sem cura, cujo único remédio é estar nos braços do ser amado. Desejou ardentemente estar ao seu lado e dizer todas as palavras que guardava dentro de si. Empertigou-se de frente ao espelho e decidiu que faria sua voz ser ouvida a qualquer custo. Não suportava mais a angústia que sentia. Era desnecessário bradar aos quatro cantos o seu amor. Bastava que apenas seu eleito soubesse de sua situação de absoluta penúria.

Naquele dia esmerou-se com sua aparência. Saiu confiante, certa de um desfecho triunfal. Calculara cuidadosamente suas ações, sem deixar margem a erros. Uma tensa calma se apossou de seus gestos, olhares e palavras meticulosos. Então, de maneira despistada porém absolutamente premeditada se viu novamente no estreito corredor  diante dele. Houve uma troca de olhares indecifráveis. À certa distância, deixou cair de sua mão uma tira de papel que serpenteou no ar antes de pousar no chão. Apressou o passo e esperou que a presa caísse na armadilha.

O homem pegou a pequena tira de papel caída no chão e leu, incrédulo, as poucas palavras:

“Preciso dizer que te amo”

Virou-se com o rosto lívido e a viu no final do corredor, parada. Apenas se olharam por um instante interminável. Então, em pleno arrebatamento ambos se esqueceram onde estavam e quem eram. Correram ao encontro um do outro e acabaram com a fome que os consumia.

No corredor estreito, dois corpos sobrepostos se encontraram e padeceram da mesma felicidade. 

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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