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Andança Reversa

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Hoje eu acordei do avesso. O mundo está desmoronando. Vejo diante dos meus olhos a vida cair aos pedaços, em avançado estado de decomposição. 

Faz muito tempo que as coisas mudaram. Precisei me matar e me enterrar várias vezes – e começar de novo.

Quando me olho no espelho, nem sei mais quem sou. Eu me tornei o que permiti que fizessem de mim.

Não tenho mais voz, tampouco vontade. Vou seguindo o caminho na direção contrária; para trás, para o nada.

Não é o mundo que está ao revés, sou eu mesma. A realidade é evidente, explícita como as cenas de um filme pornográfico.

Tenho vontade de gritar. Mas minha voz se cala. Lá fora o sol brilha, as pessoas estão radiantes. Aqui dentro só há escuridão.

Queria ter uma resposta, uma solução. Não represento muita coisa, a verdade é que acabei me convertendo numa figurante em minha própria história.

Não estou lá. Sempre há alguém por mim, no meu lugar. Não estou em lugar algum, virei uma recordação agradável.

Sou uma lembrança na minha memória, das vidas que vivi e das pessoas que fui. Não vislumbro progresso, apenas o reverso.

Quero dar os parabéns a você que continua em pé. Há muito eu caí. Tateando nas sombras, não encontrei ninguém para me ajudar a levantar.

Porque o mundo hoje é assim: ele te come, te usa, te devora. Ele te esmaga como um inseto repugnante.

É certo? É errado? Não adianta se debater, o destino das águas sempre é o oceano. O tempo para tudo chega. É hora de se resignar.

Mas veja, o sangue ainda corre em minhas veias. Meus olhos ainda estão abertos. Eu continuo aqui.

Do avesso, mas ainda estou aqui. 

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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