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Convite para um Duelo

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As gotas de chuva escorriam docilmente pelo vidro da janela. Entre lençóis, Malena abriu os olhos e por instantes permaneceu vagamente aflita, até se lembrar que era domingo. Um dia corriqueiro; um dia qualquer - gris e sem significado. Afinal, quando se trabalha, que sentido tem passar um dia inteiro de pernas para o ar?

Rolou para um lado, puxou a cortina e sentiu a chuva. O dia lúgubre, permeado pela tênue luz alaranjada proveniente da iluminação pública encheu sua alma de incerteza. Ensimesmada em sua solidão, enrolou-se sob o cobertor e apenas se deixou estar. Tentou dormir novamente, no intuito de aproveitar as horas que lhe foram concedidas tal qual um ato de filantropia. Mas de repente, algo a impedia de voar.

Malena tinha idade e experiência suficientes para saber que a vida não passa de mera ilusão. Vivemos por nossos sonhos, nossas vontades, nossos desejos. Podemos também, viver por alguém, que é como um combustível que nos alimenta, nos faz levantar e ir à luta um dia de cada vez. Um sonho vem e vai: pode nascer, crescer, se reproduzir e morrer feito ser vivo concebido de ventre fértil.

Em plena manhã de domingo, deitada em sua cama, Malena travara um conflito. Citou a um duelo de espadas as duas partes de seu ser. De um lado a razão, senhora de todas as respostas do universo, tutora da causa e consequência, chama elucidativa com um fim em si mesma. Do outro lado sua oponente, a emoção. O que dizer deste sentimento que nos invade arbitrariamente e nos faz cometer loucuras? Por vezes nos faz explodir o peito e irromper em ações indignas de nossa estirpe? A emoção é um sentimento maquiavélico disfarçado de menininha com vestido e cabelos cacheados.

Um relâmpago cortou o céu feito uma flecha de prata. Malena tampou os ouvidos e fechou os olhos com força. O estrondo do trovão que veio logo em seguida sacudiu o lustre. O silêncio repentino retardou por alguns instantes o duelo. Nuvens pesadas se deslocavam sobre sua janela, alterando o céu vagarosamente. A grande massa cinzenta havia ocupado o que deveria ser azul por direito. Sob forte chuva, a batalha foi retomada.

Inundada em uma tormenta de incerteza, Malena tentava conciliar o pensamento. Padecia de um grande dilema: viver a realidade ou deixar se levar por ilusão? Viver a realidade signficava agir sob o regime ditatorial da razão. Uma vida em preto e branco, sem surpresas, sem alegrias nem tristezas. Pois a vida de verdade é muito dura, muito chata e muito injusta. Renunciaria à sua capacidade de sonhar e acreditar que o amanhã será melhor. Todavia, se contaminar pela ilusão poderia fazer com que se perdesse para sempre. Seria um caminho ensolarado e florido – mas sem volta. Dias repletos de sonhos alienados e nuvens de algodão.

Malena sentou-se na cama, passou as mãos pelo cabelo desgrenhado e com o olhar vazio viu a chuva escorrer pelo vidro da janela. Olhou ao seu redor, olhou para si mesma e quis fugir de tudo. Queria se levantar e sair correndo sem rumo para algum lugar desconhecido. Queria ser outra pessoa, queria viver outra vida, em outro planeta. Queria, desejava, ansiava – o ser humano não nasceu para viver de maneira ordinária, como um pedaço de papel surrado. Nenhum de nós tolera o mais ou menos, a insignificância em todos os sentidos da palavra. É um castigo atroz e insuportável se contentar com mixaria. Migalhas de tempo, migalhas de amor, carinho e atenção. Fragmentos de sucesso, fama, dinheiro, aceitação. Partículas que constituem nossa própria vida nesta sociedade medíocre.

Com as mãos trêmulas, Malena pegou o celular. Correu os dedos pela tela e com os olhos em chamas clicou no ícone que representava o motivo de tanta discórdia. Era apenas um jogo, porém perigoso como um beco sem saída. Analisou as opções disponíveis e escolheu a mais interessante. Estava feito: Malena acabara de colocar um homem em sua vida. Não era um homem qualquer; talvez nem pudesse ser chamado de homem. Que a verdade seja revelada: era um personagem de um jogo de realidade virtual. O que não sabemos precisar é quando a realidade se tornou virtual ou vice-versa.

O jogo rapidamente viralizou entre as mulheres. Solidão, desilusão amorosa ou até padrões de exigência muito altos conduziram a maioria até aqui. O certo é que grande parte das pessoas não quer enfrentar a realidade. A possibilidade de fracasso é muito grande e ninguém quer perder. Atravessar a vida buscando o grande amor tornou-se uma tarefa tola e insípida. Passar noites se expondo em bares, correndo o risco de ser atacada também. A solução encontrada por muitas hoje em dia é viver um sonho que parece real e cabe na tela de um celular.

Sob o controle de seus dedos, Malena tinha a possibilidade de viver muitas vidas. Podia ser uma atriz mundialmente conhecida que mergulha em um romance com o ator mais cobiçado do momento, uma plebéia que fica noiva e precisa organizar a cerimônia de casamento com um príncipe e se tornar membro da realeza ou até mesmo a executiva de uma multinacional que namora um CEO rico e charmoso. Acabou por escolher um amor idílico e inquebrantável, feito personagem de Jane Austen. Fantasiou sua carruagem, os bailes e o pedido de casamento do jovem, que trajando fraque e cartola se postaria de joelhos segurando sua mão – coberta por uma luva de seda branca.

Com apenas um clique, a fantasia começou. No pequeno apartamento alugado no subúrbio, deitada na cama trajando pijama de flanela e ainda com o hálito do dia anterior; Malena se transformou em uma donzela no autêntico estilo eduardiano. As missões em formato de programação social eram extensas: bailes, partidas de críquete, chás da tarde, passeios pelo campo e jantares em ambientes suntuosos. Obviamente o serviço incluía a corte feita por alguns pretendentes, da mais alta linhagem.

Cada etapa finalizada inundava seu coração de alegria. Ao ver seu suposto pretendente pela primeira vez, sentiu borboletas no estômago. O jovem nobre era alto e de olhar gentil. Possuidor dos mais refinados modos, das palavras dignas e amáveis além de um rosto belíssimo e o sorriso radiante. Malena caiu de amores abruptamente, e entre suspiros clicou acedendo ao pedido de casamento. Em instantes, havia se comprometido e ficara noiva.

Para os trâmites do casamento não economizou; alcançou a bolsa que estava sobre o criado-mudo e pegou o cartão de crédito. Digitou o número e com o débito autorizado começou a escolher o vestido, a decoração e os demais detalhes da boda. Seus olhos cintilavam sobre a tela do celular quando desceu da carruagem e as portas da catedral se abriram. Emocionada, deixou escaparem lágrimas ao ouvir a marcha nupcial. O ápice foi o momento do “sim”, seguido de um beijo casto, porém amoroso de seu nobre prometido. A união foi celebrada com um baile belíssimo, regado a fino champagne francês e maravilhosas iguarias. Uma orquestra completa tocou a valsa para o novo casal, que flutuou entre os distintos convidados. Ao final da celebração, os noivos se retiraram para seus aposentos, com ambientes ricamente decorados. Sobre a enorme cama com dossel, Malena recebeu seu marido virtual e consumou com um ato irreal o matrimônio. Tamanha ilusão essa, que lhe ofereceu a possibilidade de uma conversa de voz ou texto com seu esposo. Derreteu-se de paixão ao escutar através do fone de ouvido a voz grave e sensual de seu homem.

Sem se dar conta, já era tarde e acabou adormecendo. Recostada na cama, ouvindo palavras perfeitas de um amor eterno e irretocável. Sonhou com campos floridos, olhares de paixão, carruagens e volúpia. De repente, bem ao fundo escutou um som agudo terrível que lhe partiu os tímpanos. Acordou sobressaltada, com o coração aos tropeços. Então percebeu que era o despertador, que em um ato de pura perfídia às seis da manhã lhe roubara os sonhos e a jogara no chão duro e gélido da realidade.

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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