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A Bem-Amada

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Sobre a aparência e o comportamento de Safira era possível afirmar inúmeras coisas. Constantemente vigiada por olhares ferinos, julgada por pensamentos cruéis e (mal) falada por línguas bipartidas; ela escolhera viver de forma alheia. Havia atingido um nível de desprendimento tão elevado que simplesmente não se importava com a opinião dos outros. Vivia em constante estado de nirvana, levitando absoluta e iluminada sobre as cabeças da inveja alheia. É certo que desde pequena as teses de outrem não lhe causavam a menor preocupação. Ocupava-se dela própria, de suas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas. Fizera um pacto consigo: jurara sempre se gostar, respeitar e defender. Pois afinal, o eu vem antes de todos.

 

Tampouco ela fazia tal mal aos demais. Caminhava pela rua olhando constantemente para o chão, temerosa por tirar a vida de algum mínimo inseto. Tinha o costume de afagar cães e gatos, ainda que desconhecidos. Compadecia-se com as penúrias do mundo em geral; e também com as que via na rua, com seus próprios olhos.

Todavia, tratava-se de uma pessoa de verdade; de carne e osso. Tinha lá seus momentos, seus achaques, manias, picuinhas e demais estados que não podiam ser classificados como defeitos, pois não chegariam a tal coisa. Não era de nenhum modo implicante, mas do momento em que lhe pisassem alguma calosidade se convertia em um artefato explosivo capaz de gerar uma hecatombe.

Talvez, a maior virtude de Safira era a capacidade de amar. Este sentimento era de tamanhha intensidade que transbordava-lhe pelos poros. Costumava dormir e amanhecer entre flores, com o coração cheio de amor. Sempre mantinha as portas abertas a quem quisesse entrar e habitar seu lar de pétalas de rosas vermelhas. Seu amor era elevado, concedido de maneira altruísta aos que gentilmente o mereciam. Era capaz de entregar seu coração a muitos e ao mesmo tempo amar cada um por separado. Dotada de certo desprendimento, sabia guardar algo bom de cada um de seus amantes furtivos.

Como chofer de ônibus coletivo, Safira já havia visto quase todos os tipos de gente que se possa imaginar. De tamanhos, larguras, cores e penteados diferentes; porém com algo em comum: pressa, sempre a pressa. À metros de distância avistava as mãozinhas impacientes, abanando agitadas para que parasse. Nos últimos tempos, devido à uma lei municipal, tinha que se desdobrar dirigindo e cobrando as passagens. Havia adquirido a destreza de controlar o volante usando os joelhos enquanto ocupava as mãos dando troco aos passageiros. Ainda era sua atribuição dar informações sobre o itinerário do coletivo de maneira gentil e se possível com um sorriso no rosto. Não sabia ao certo o motivo de ter abraçado esta profissão, comprazia-lhe dirigir e ver gente distinta. A cada ponto, espiava a multidão. De vez em quando observava algum com mais detalhe e pensava em quem seria aquela pessoa e o que fazia da vida. Desta forma o dia passava; após a última viagem batia o ponto e ia para casa.

Safira vivia em um bairro modesto, em um apartamento no terceiro andar. Dividia o lar com seu companheiro de longa data, um gato alaranjado e de olhos azuis chamado Kivo. Possuía hábitos simples e apreciava o estilo de vida pacato e caseiro. Sua casa era o único lugar onde podia dar vazão às manias e caprichos. Era independente, cuidava de tudo sozinha, limpava, comprava e pagava as contas.

Até então, tudo o que foi dito retrata uma pessoa normal. Mas como no mundo já não há um parâmetro para a normalidade, há que se acrescentar um detalhe sobre Safira. Eis que em uma noite de solidão (sim, às vezes se sentia sozinha), deitada em sua cama, teve uma grande ideia que veio feito uma lâmpada cuja fosforescência iluminou tudo ao redor. Desta forma, havia inventado seu peculiar método de sedução. Algo muito corriqueiro e simples, mas que prometia excelentes resultados. No outro dia após bater o ponto, passou por uma papelaria no caminho de casa. Depois do jantar, debruçou-se sobre o bloquinho de papel e começou a escrever.

Oi, gostei de você

Sou Safira, me liga: 8978-1234

Fez mais de uma dúzia e guardou na carteira. Na manhã do dia seguinte, chegou à garagem e bateu o ponto. Sentou em frente ao volante e antes da primeira viagem organizou a gaveta com o troco. Na parte esquerda, ao lado das moedas de um real, colocou os bilhetinhos com os dizeres virados para baixo. Então, respirou fundo e deu início ao trajeto.

Nos primeiros dias nenhum foi entregue. O motivo foi não haver achado alguém que de fato merecesse. Não havia critérios preestabelecidos, muito menos qualquer padrão de beleza ao qual era apegada. Antes de parar em qualquer ponto, reduzia a marcha e vasculhava a multidão de maneira minuciosa. Era algo rápido, quase instantâneo, porém suficiente para não deixar escapar algum detalhe interessante. Agradavam-lhe os homens de olhar misterioso, desses que encaram de frente e sem recuar. Havia neles um certo atrevimento particular. Apreciava sobretudo a postura, a maneira de caminhar, subir as escadas, entregar o dinheiro e receber o troco. Observava atenciosamente suas mãos e como elas se mexiam. Geralmente, sentia atração pelos de sua idade. Ocasionalmente atraía-lhe algum jovem, desde que não tivesse carinha de anjo.

Certo dia, durante a terceira viagem, avistou algo interessante. Por volta das onze da manhã, um homem altivo e de olhar reservado fez sinal para o coletivo. Portava uma pasta tiracolo e as roupas que apesar de comuns, pareciam de excelente qualidade. Apenas observando, Safira aguardou o desenrolar da cena. Ele se deteve gentilmente na calçada para que duas senhoras idosas entrassem. Então subiu, educadamente disse “bom dia” e estendeu uma nota de dez para a motorista. Safira notou-lhe os dedos compridos, seguros, cuja pele oliva transmitia bem-estar. Subitamente desejou ser tocada por aquelas mãos. Mais que depressa, separou o troco pegando as notas. Por último, pegou no lado esquerdo da gaveta um de seus pequenos papéis e colocou por baixo do dinheiro. Ao entregar o troco, respondeu com um bom dia e um olhar fulminante. Então, fechou a porta do coletivo e engatou a primeira. De vez em quando olhava pelos espelhos, procurando-o entre os passageiros. A este ponto já se encontrava inquieta e curiosa para saber sua reação. Porém, o homem desceu cerca de quinze minutos depois e desapareceu em meio à multidão.

De noite, deitada no sofá, Safira não recebeu nenhum telefonema ou mensagem. De repente julgou sua ideia tola, ridícula. Levantou-se e buscou a bolsa, abriu a carteira e tirou os papéis. Por instante quase os rasgou em mil pedaços. Mas então se acalmou e pediu a si mesma uma trégua. Apenas precisava ter paciência.

Na semana seguinte, para sua surpresa o homem fez sinal para o coletivo na mesma parada. Até havia superado sua indiferença, mas ao avista-lo não pôde conter o coração que pulava feito louco dentro do peito. Empertigou-se de frente para o volante, na tentativa de recobrar seu juízo normal. Ele manteve o olhar indecifrável, até no momento de subir as escadas. Esticou-lhe a mão com uma nota de dez reais e disse:

-Bom dia, Safira!

Com o rosto em combustão, Safira entregou-lhe o troco e de maneira contida respondeu à saudação. Então, ele caminhou naturalmente até a parte de trás do coletivo. A cada parada, ela espiava pelo retrovisor. Acreditava ter perdido o homem de vista, o que de fato era verdade; mas quando chegou ao ponto final ele ainda estava lá. Estacionou o ônibus e abriu a porta para que os passageiros descessem – mas ele permaneceu. Decidiu fechar as portas e desligar o veículo. O homem caminhou até ela, estendeu-lhe a mão (desta vez vazia) e disse:

-Oi Safira, muito prazer. Meu nome é Alexandre.

Levantou-se e apertou sua mão. Sentiu sua pele, sua energia. Olhou direto nos olhos e sustentou o olhar.

-O prazer é meu, Alexandre.

-Eu recebi seu bilhete. Fiquei bastante curioso, quase telefonei para você. Mas acabei não ligando.

-Não precisa se explicar, você não me deve nada.

-Não estou pedindo desculpas. Apenas estou te dizendo que não gosto de falar pelo telefone. Meu negócio é assim, olho no olho. Queria ouvir sua voz, seu jeito.

-E está gostando?

-Muito, além de bonita você parece muito interessante. E o que opina de mim?

-Também estou gostando muito.

-Desculpe, estou te atrapalhando? Você tem outra viagem agora?

-Não, de forma alguma. A próxima viagem será em doze minutos, dá tempo de tomarmos um café. Você quer?

-Claro.

Conversaram os poucos minutos que tinham, em pé ao lado do balcão da lanchonete. Definitivamente foram só uns míseros minutos, mas a linguagem do corpo não se engana. A atração foi instantânea e mútua. Antes de entrarem no coletivo, Alexandre deteve Safira por um instante.

-Quero te conhecer melhor, Safira. Preciso ver você.

-Então venha comigo, é minha última viagem. Quando terminar eu vou com você.

Continua...

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Fabiana de Gouvea Torres

É bacharela em Turismo e mineira de corpo e alma. Leitora fervorosa e apaixonada. Mãe, esposa e dona de casa zelosa, na hora do recreio viaja pelo mundo da literatura.

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