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A desumanização social e a espera por Lux Fero

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A construção do que é “ser-humano” é por mim trazida em duas perspectivas paralelas: a primeira ao longo da História, entendida não sob um viés evolutivo unitário, mas em sua pluralidade que entrelaça diversos sujeitos e povos ao longo do tempo e espaço. A segunda em seu caráter circunstancial, ou seja, “ser-humano” depende também de uma delimitação circunscrita da moral, situada socialmente. Estes são dos dois aspectos que pretendo enfatizar.

            O filme “A Bruxa” (2016), dirigido por Robert Eggers, ambienta-se na inexplorada e selvagem América do Norte do século XVII. Em seu enredo, a jovem Thomasin, com cerca de 16 anos, é o epicentro da tensão e principal acusada de praticar bruxaria, gerando a derrocada macabra de sua família. Paralelamente no tempo, porém situadas em diferentes contextos históricos, temos o caso da jovem brasileira de 16 anos de nome não divulgado, que foi coletivamente estuprada por 30 homens, tendo parte do ato sido filmada e divulgada na internet. Assim, trago aqui uma reflexão sobre os processos de humanização e desumanização, onde um dos mais inquietantes filmes dos últimos anos foi largamente superado em termos de terror pela inexorável realidade brasileira.

            No filme em questão temos William, um pai de família que abre mão de uma vida comunitária onde supostamente residia o pecado, para isolar-se em meio a grandeza pagã da natureza. No desenvolvimento do enredo, torna-se claro as limitações impostas a filha mais velha de William, Thomasin. À rigor da Bíblia, sua constituição enquanto mulher impõe uma inferioridade que a práxis da vida jamais mudaria. Toda a família de Thomasin tem estes preceitos internalizados. Ora, a própria inferioridade da mulher perante ao homem, fundamentada sob pilares religiosos, destaca antes de tudo, a pequenez imunda e indigna que é o próprio homem frente a glória inalcançável de um Deus distante. Portanto, Thomasin situa-se em um período onde seus desejos e vontades são grossamente aparados por uma moral religiosa da fraqueza, no sentido mais nietzschiano possível.

            Porém, como elemento de contraposição, desde as primeiras falas de Thomasin no filme, é possível perceber uma jovem que, em seu mais interior âmago, sente-se livre para ferir os 10 mandamentos sagrados das mais sórdidas maneiras. Thomasin sofre, não por algum conflito moral, mas por ter de se limitar das mais diversas formas. Não é o doce gosto do pecado que a atormenta, são seus grilhões metafísicos materializados socialmente.

            A humanização de Thomasin, e de fora mais geral, da mulher protestante do século XVII é situada na esfera religiosa. Ser humano não é uma condição inata que independe dos atos: nasce-se humano, porém o manter-se nesta condição implica na reprodução passiva dos desígnios sociais travestidos e legitimados na esfera religiosa. Thomasin é humana enquanto está submissa. Seu dever divino é servir a família, e posteriormente seu marido e filhos. Pensar sua humanidade é mantê-la acorrentada aos deveres. Se seus mais secretos desejos vazam para além da mente, corre-se o risco da punição e, no filme em questão, é exatamente a essência de Thomasin que vaza em alguns momentos e que a colocam sob risco de sofrer sérias consequências.

            A essência de Thomasin a que me referi não é exatamente clara. Em diversos momentos a personagem pincela sua condição pecadora, que na verdade não se apresenta na forma de arrependimentos, mas em soturnos e secretos desejos indizíveis, capazes de ofender os preceitos morais religiosos, mas que alimentam-na em uma fuga à realidade imposta. Em sua forma corpórea, Thomasin é humana por se sujeitar às imposições colocadas. Porém, em seu interior, Thomasin é o oposto do que aparenta: não é humana ao levantar-se contra o divino e se deliciar com os prazeres imaginados da carne e do poder. Sua liberdade, no sentido de abdicar de deveres impostos à sua inata condição feminina, é a derrocada de sua condição humana. Em essência, Thomasin é repulsiva, pecadora, imunda - a concubina de Satanás. Um dos valores que mais se preza na sociedade Ocidental pós Revolução Francesa, a liberdade, que é uma das pedras fundantes do que é ser humano hoje, aparece enquanto um processo de desumanização no período histórico aqui tratado.

            No decorrer do filme, diversas tensões culminam na morte da família de Thomasin. E sob os corpos de sua própria linhagem, a personagem liberta-se dos grilhões que a matavam em essência. Ao se libertar de Deus em sua mais dolorosa forma prisioneira, encontra naquele que carrega a luz, Lux Fero, na forma do carismático “Black Phillip”, um bode preto, o caminho para liberdade de sua essência. O caminho que a desumaniza socialmente é a condição essencial para exercício de sua libertação pessoal. Enquanto permanecia em sua condição social, Thomasin era diariamente estuprada. Não de forma física, mas sim ao ser forçada a sujeitar sua grandeza à moral religiosa. O que busco enfatizar aqui, não é uma maldade intrínseca da sociedade do século XVII no que tange à sujeição da mulher. A construção e significação do mundo nesta sociedade se dava pelo viés religioso, sendo a ação dos sujeitos fruto de um período específico. Não haviam concepções de liberdade tal como a concebemos hoje, mas apenas a condição da mulher como “naturalmente” sujeita às suas condições inferiores. Thomasin talvez possa ser vista como uma “outsider”, onde a romantização de seu personagem aponta para uma jovem a frente de seu tempo, que por ter sua essência estuprada pela sociedade da época, encontra a luz naquele que a traz para viver tal como desejava, após ser concretizado o fim de sua família. É um final necessário, onde os desejos da personagem encontram seu horizonte de realização sob os cadáveres de seus familiares, de sua estrutura social.

Separados por quase 3 séculos de diferença em uma escala ficcional, por alguns meses em um período de tempo real, e pela contraposição ficção/realidade, temos o caso do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Brasil. Até onde se sabe, a jovem do Rio de Janeiro foi estuprada por cerca de 33 homens enquanto encontrava-se desacordada. Fotos e vídeos foram divulgadas em redes sociais pelos próprios envolvidos no caso. A repercussão do caso tomou aspectos titânicos, sendo o assunto principal em diversos veículos de comunicação. Movimentos feministas protestaram com grande fervor buscando o combate a uma “cultura do estupro”, onde a mulher é diariamente estuprada em diversos níveis, vivendo sob o assédio constante. Houveram também manifestações contrárias, nas quais justificou-se o estupro pelo modus vivendi da vítima: usuária de drogas, frequentadora de favelas que postava fotos portando armas de fogo e etc. Dentre as manifestações contrárias, até o delegado responsável pelas investigações foi afastado do caso, suspeito de atitudes machistas.

Neste triste caso, não se trata de atribuir transtornos psicológicos aos estupradores, pois é pouco provável (para não se dizer impossível) reunir aleatoriamente 33 transtornados em um mesmo lugar. São 33 homens normais que estupraram um ser humano, mas que não a consideraram mais que um objeto pueril de satisfação sexual. Este caso real é mais aterrorizante que qualquer filme exatamente por este ponto: não se trata de psicopatas, mas de indivíduos normais. Isto transfere qualquer análise para o âmbito social. E é este o ponto que pretendo abordar: o processo de desumanização.

Por mais que eu possa iniciar e estender longos parágrafos que discutam a questão da liberdade predisposta em nossa Constituição, ela não é de fato estendida na prática. 33 homens esfregaram isso na cara de todos. 33. O mesmo número que se atribui à idade de Jesus Cristo. Quantos destes 33 temem o homem-Deus de 33 anos?

Nascer no pós 1988 é ter o direito formalmente expresso à liberdade e igualdade. No que tange à teoria, esta jovem possui total direito de viver e fazer sexo com quem e com quantos e quantas quiser, sem que tenha que se sujeitar a praticar tal ato contra sua vontade. Isto faz parte do que é ser humano hoje: não ser obrigado a praticar atos contra a vontade. Mas será que esta concepção inata se estende intrinsecamente no devir da vida? Obviamente não! O caso em questão nos mostra isso.

Apesar de ter sua liberdade assegurada, ser mulher em nossa sociedade implica na condição de ter um caminho relativamente preparado: desde a cor das roupas e brinquedos, até a opção sexual. Isso também se estende aos homens. Portanto, desviar deste caminho pode gerar diversas tensões que, em casos extremos, podem gerar crimes tal como aqui abordado. Esta jovem, no decorrer de sua vida teceu caminhos que a desconstruíram enquanto humana. Ao que parece, frequentava lugares em que havia tráfico e consumo de drogas, prostituição e uso de armas de fogo. Numa lógica clara explorada pelo livro bíblico do Salmos, onde “Quem anda com os sábios será sábio; mas o companheiro dos tolos sofre aflição” (1, 1-6), pouco importa se a jovem era ou não usuária de drogas, se tinha muitos ou poucos companheiros sexuais, pois “quem se mistura com farinha, farelo come”. Ela estava inserida exatamente na camada social onde mais há repudio: os excluídos.

Ao se misturar com o que mais a sociedade se enoja, a jovem foi, aos poucos, descumprindo com o que se esperava dela. Consequentemente, sua humanidade se esvai tal como a vida de um doente terminal. Cada momento neste meio representa o avanço inexorável da doença da desumanização sob o débil corpo da jovem, sem que ao menos perceba o que a espera. Ao estar desmaiada, sem suas faculdades mentais e físicas, apenas à deriva e à espera da desgraça, esta jovem não é mais humana. Sua trajetória, seus caminhos e escolhas fizeram com que aqueles estupradores a percebessem como um objeto. O estupro foi concretizado bem antes dos 33 pênis adentrarem em seu corpo e despejarem sua semente de ódio. O estupro foi um ato sádico, lento e demorado, que pulsava toda a humanidade da jovem simplesmente por andar em caminhos fora do que a sociedade se espera. O sexo não consentido foi apenas a concretização de um estupro que já acontecia a tempos. Na visão destes homens não houve crime: pois quem estava desacordada não era um ser humano, era um objeto sexualizado, uma casca vazia da essência humana, usurpada não pelos 33, mas por toda uma sociedade. Não muito diferente destes estupradores, a parcela da sociedade que culpabilizou as trilhas da vida seguida pela jovem, também estupraram sua humanidade.

Mas se em “A Bruxa”, Thomasin encontrou a libertação, pôde provar o “doce gosto da manteiga, ter um vestido bonito e viver deliciosamente”, encontrou a luz do anjo caído em meio ao túnel de ignorância e repressão, a jovem carioca não pôde contar com a presença daquele que ofereceu uma saída à Thomasin, Lux Fero. Esta jovem, em verdade, é a própria realização social da liberdade de escolha, da liberdade que tanto atraiu Thomasin. Temos então nossa versão realizada da liberdade que carecia a personagem do filme. Porém, em uma aproximação entre a ficção e a realidade, a repressão que sobrava no século XVII, talvez não tenha diminuído em demasia nos dias de hoje. No momento em que a realidade imita o cinema, temos tanto na ficção quanto no Brasil uma jovem de 16 anos que não pode exercer qualquer forma de escolha livre sobre si mesma sem uma repressão que, impreterivelmente, a desumanize. Se a Thomasin ficcional almejava uma liberdade que não possuía, a Thomasin verde e amarela pagou por sua livre escolha. E por fim, num exercício imaginativo, alguém duvida que se a protagonista do filme pudesse ser transportada para nossos dias, ela também não seria estuprada exatamente por poder exercer as livres escolhas que, supostamente, teria à disposição? Felizmente na ficção, houve um bode preto para oferecer uma saída. Pena que a realidade neste caso não imitou a ficção in toto.

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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