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A gênese divina e o inseto de carne e ossos

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Em resumo, para que não se torne apenas palavras escritas num vácuo de desinformação, faço aqui uma curta contextualização do texto abaixo. Minha ideia inicial é trazer uma reflexão a partir do filme “Centopeia Humana 2”. O filme retrata, in nuce, dos devaneios de um louco que cria uma centopeia de seres humanos a partir da união de 12 pessoas. Pessoas estas que sempre se impuseram como “naturalmente” superiores, mas que na degradante situação em questão, tornam-se apenas animais de estimação, sujeitos à vontade sádica daquele que sempre olharam de soslaio.

“Bem-vinda ao mundo minha doce criação. Sua solitária existência é um apenas o prólogo de uma nova era. Deus mortuus est! De suas apodrecidas entranhas, onde os cegos depositam suas vãs esperanças, nasce um novo criador, um novo pai. Da repulsa do mundo, da presunção alheia e de todo seu ódio, eu nasci... e assim um Deus surge. Talvez você não me entenda agora, doce criação de uma centena de membros, mas não a condeno. Acredito que apenas outro Deus seja capaz de me entender. Um dia, Caligvla brandiu: “Assim como tomei a forma de Gaius Caligvla eu posso tomar a forma de qualquer um. Sou todos os homens e não sou nenhum. Portanto, sou um Deus.”. Sim, o imperador incompreendido me entenderia. Seu papel na história dos homens foi relegado à insanidade. Pobres dos homens que não são capazes de conceber os planos de um Deus. Se o tempo físico nos separa, nossa condição divina nos une.

Você, meu primogênito, ainda grita. Gritos ocos e inaudíveis... gritos do que resta da podre e pobre condição humana anterior. Ser humano envolve mais que uma simples condição física e biológica. Não se preocupe, meu doce inseto de carne e ossos, se fui capaz de criar a perfeição à partir de uma raça tão repugnante, irei eliminar a humanidade de sua consciência também. A sua condição não é metafórica: um conjunto de humanos errantes produz sim uma nova criação perfeita. Eu perdoo seus pecados, eu perdoo vocês... agora apenas você. Sua mórbida sinfonia de gritos desesperados e de choros inaudíveis apenas prenuncia a transformação. Ora, minha bela criação, a busca pela perfeição requer dor. Sua dor é a poesia de meu êxtase fálico. Rebaixada a mais vil e vergonhosa condição humana; sua nudez, seu sangue, seu fétido odor e sua aparência são apenas formas de incompreensão da escória raça que eu vos libertei. Regozije-se em mim criatura. Apenas eu, seu Deus, sou capaz de ver a suave beleza de minha criação. Juntos, o criador e a criação, eu e você, somos o futuro do mundo, por séculos e séculos, ad infinitum, amém.”

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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